(Foto: Divulgação/Netflix)
Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014) e Joias Brutas (2019) fogem do gênero mais previsível
Nem todo filme de suspense precisa esconder um assassino ou apostar em grandes reviravoltas para deixar o público em tensão. Às vezes, basta colocar personagens à beira do colapso, empilhar decisões ruins e transformar cada diálogo em uma ameaça para criar aquela sensação rara de sufoco que acompanha o espectador até os créditos. É isso que une os cinco títulos desta lista: todos entendem que suspense também se constrói no nervosismo, no desconforto e na impressão de que a situação pode desabar a qualquer segundo.
O mais interessante é que eles chegam a esse resultado por caminhos bem diferentes. Há um vencedor do Oscar que mistura crítica social e thriller, um drama musical filmado como guerra psicológica, um clássico policial de Martin Scorsese, uma releitura brutal da Segunda Guerra e um pesadelo financeiro estrelado por Adam Sandler. Em comum, todos transformam a experiência de assistir em um teste de resistência emocional.
Para quem quer fugir do suspense mais previsível e procura filmes que realmente prendem pela pressão constante, a lista abaixo reúne cinco ótimas opções para ver em casa. São histórias em que ninguém parece no controle por muito tempo, e talvez seja justamente isso que as torna tão difíceis de largar no meio do caminho.
Martin Scorsese transformou uma história de infiltração em um dos thrillers mais tensos dos anos 2000. Em Os Infiltrados, um policial vive infiltrado na máfia de Boston ao mesmo tempo em que um criminoso atua como informante dentro da polícia. Quando os dois lados percebem que existe um traidor em ação, a trama vira uma corrida paranoica para descobrir quem vai ser desmascarado primeiro.
O filme impressiona porque sustenta esse jogo de gato e rato por mais de duas horas sem deixar a pressão cair. Cada telefonema, cada reunião e cada troca de informação parecem capazes de colocar tudo a perder, o que faz o espectador assistir sempre à espera de uma catástrofe iminente. É um suspense policial que continua eletrizante mesmo para quem já conhece o desfecho.
Quentin Tarantino já dirigiu muitas cenas memoráveis, mas poucas são tão eficientes na construção de tensão quanto as de Bastardos Inglórios. Ambientado na França ocupada pelos nazistas, o longa acompanha personagens ligados à resistência e a planos para atingir o regime, quase sempre em situações em que um detalhe fora do lugar pode significar morte imediata.
O diferencial do filme está na forma como Tarantino transforma conversa em ameaça. Ele alonga diálogos, estica silêncios e faz o público esperar por uma explosão que parece sempre iminente. A abertura na fazenda, a sequência da taverna e o clímax no cinema ajudam a explicar por que Bastardos Inglórios funciona tão bem não só como filme de guerra, mas também como um exercício exemplar de suspense.
À primeira vista, Whiplash parece um ponto fora da curva em uma lista de filmes de suspense. Mas bastam poucos minutos para entender por que ele merece estar aqui. A trama acompanha Andrew (Miles Teller), um jovem baterista disposto a tudo para alcançar a grandeza, e Fletcher (J. K. Simmons), o professor abusivo que transforma os ensaios em um ambiente de humilhação, medo e cobrança extrema. O que Damien Chazelle faz a partir dessa relação é filmar a obsessão como se ela fosse um thriller.
Cada aula parece uma batalha, cada apresentação tem peso de vida ou morte, e cada erro é tratado como desastre. A tensão nasce menos de um mistério e mais da violência psicológica que toma conta daquela dinâmica, em um filme que transforma música em guerra de nervos. No fim, Whiplash prova que o suspense também pode surgir quando o maior perigo está dentro da cabeça do protagonista.
Poucos filmes dos últimos anos entenderam tão bem como fazer a tensão crescer sem anunciar cada passo. Parasita acompanha a família Kim, que encontra uma forma de entrar na rotina de uma família rica e passa a ocupar, aos poucos, um espaço cada vez maior dentro daquela casa. O que começa como uma sátira social divertida e afiada, porém, logo revela outra camada: a de um thriller desconfortável, guiado por segredos, ressentimentos e uma sensação permanente de que tudo está prestes a explodir.
A grande força do longa de Bong Joon-ho está na maneira como ele muda de temperatura sem perder o controle. O humor, a crítica de classe e o suspense caminham juntos, e é justamente esse equilíbrio que torna o filme tão inquietante. Quando Parasita mergulha de vez no caos, o resultado é um dos retratos mais angustiantes da desigualdade já feitos no cinema recente.
Se a ideia é assistir a um filme que pareça uma crise de ansiedade do início ao fim, Joias Brutas é provavelmente a escolha mais certeira da lista. Adam Sandler vive Howard Ratner, um joalheiro de Nova York viciado em risco, dívidas e apostas, que insiste em transformar uma sequência de decisões ruins em um grande golpe financeiro. Quanto mais ele tenta sair do buraco, mais fundo se enterra.
Os irmãos Safdie filmam essa espiral de autodestruição com um nervosismo quase sufocante. O som alto, os diálogos sobrepostos, o ritmo frenético e a incapacidade do protagonista de parar antes que seja tarde criam um filme exaustivo no melhor sentido. Joias Brutas não quer oferecer conforto, e talvez por isso funcione tão bem: é um suspense que transforma o desgaste emocional em espetáculo.
Victor Cierro
Repórter da Tangerina, Victor Cierro é viciado em quadrinhos e cultura pop e decidiu que seria jornalista aos 9 anos. É cria da casa: antes da Tangerina, estagiou no Notícias da TV, escrevendo sobre filmes e séries.
Ver mais conteúdos de Victor CierroTangerina é um lugar aberto para troca de ideias. Por isso, pra gente é super importante que os comentários sejam respeitosos. Comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, com palavrões, que incitam a violência, discurso de ódio ou contenham links vão ser deletados.
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