Colin Firth e Michael Peterson (Fotos: Divulgação/HBO Max e Netflix)
Após julgamento em 2003, caso do homem acusado de matar a esposa sofreu reviravoltas e terminou com acordo polêmico
A Escada, minissérie baseada em acontecimentos reais que estreou originalmente na HBO Max em 2022 e foi redescoberta na última semana ao chegar ao catálogo da Netflix e rapidamente aparecer no Top 10, trouxe novamente aos holofotes um dos crimes mais enigmáticos dos Estados Unidos. Estrelando Colin Firth como Michael Peterson e Toni Collette como Kathleen Peterson, a produção de oito episódios explora as complexas camadas de um drama familiar que se transformou em uma batalha jurídica de duas décadas.
A obra é baseada em uma história real e foi inspirada no trabalho de documentários franceses, que acompanharam de perto os desdobramentos do caso desde o início das investigações até depois do julgamento. A última versão do documentário, inclusive, se chama The Staircase, foi lançada em 2018 e também está disponível para assistir na Netflix.
A tragédia teve início na madrugada de 9 de dezembro de 2001, na cidade de Durham, Carolina do Norte. Michael Peterson, um romancista e veterano de guerra, ligou para o serviço de emergência 911 relatando ter encontrado sua esposa, Kathleen, inconsciente na base de uma escada dentro da residência do casal.
Segundo o relato de Michael, os dois haviam passado a noite celebrando à beira da piscina após receberem a notícia de que um de seus livros seria adaptado por um estúdio de Hollywood. Kathleen teria decidido ir para a cama por volta das 2h da manhã, e Michael afirmou tê-la encontrado cerca de 30 minutos depois, caída em uma poça de sangue.
Embora o cenário inicial pudesse sugerir uma queda acidental, as autoridades rapidamente mudaram o foco da investigação para Michael Peterson. O relatório da autópsia, realizado por um examinador médico estatal, indicou que Kathleen não morreu devido a uma queda, mas sim em decorrência de múltiplos golpes contundentes na parte de trás da cabeça. A brutalidade da cena levou o promotor público do condado de Durham, Jim Hardin, a declarar publicamente que não se tratava de um acidente.
O julgamento de Michael Peterson começou em 2003 e tornou-se um espetáculo midiático. A acusação, liderada por Jim Hardin e Freda Black, apresentou uma teoria de que Kathleen teria descoberto que Michael era bissexual e mantinha casos extraconjugais com homens, o que teria levado a um confronto mortal. Um dos momentos mais impactantes do processo foi a revelação de que Kathleen não era a primeira pessoa próxima a Michael encontrada morta ao pé de uma escada.
Anos antes, enquanto vivia na Alemanha com sua primeira esposa, Michael foi quem encontrou o corpo de uma amiga da família, Elizabeth Ratliff, em circunstâncias semelhantes. Após a morte de Elizabeth, Michael tornou-se guardião de suas filhas, Margaret e Martha.
Durante o julgamento de 2003, o corpo de Elizabeth foi exumado e uma nova análise determinou que sua morte também foi um homicídio, e não um aneurisma como se acreditava anteriormente. Outro ponto discutido foi a possível arma do crime: um objeto de metal usado para atiçar lareiras conhecido como blow poke.
Em 10 de outubro de 2003, o júri considerou Michael Peterson culpado de assassinato em primeiro grau. Ele foi sentenciado à prisão perpétua sem possibilidade de condicional.
Kathleen Peterson e Michael Peterson
Michael Peterson cumpriu oito anos de sua pena antes de uma reviravolta significativa ocorrer em 2011. Sua condenação foi anulada após a descoberta de que Duane Deaver, um agente do Departamento de Investigação do Estado da Carolina do Norte, havia adulterado evidências e apresentado testemunhos enganosos em diversos casos, incluindo o de Peterson. Michael foi libertado da prisão e colocado sob prisão domiciliar enquanto aguardava um novo julgamento.
Após anos de negociações e procedimentos legais, o caso chegou a uma conclusão em fevereiro de 2017. Michael Peterson aceitou o que é conhecido como “Alford plea” para a acusação de homicídio voluntário. Polêmico, esse tipo de acordo permite que o réu mantenha sua declaração de inocência, mas reconheça que a acusação possui evidências suficientes para uma condenação. Com o acordo, ele foi condenado ao tempo que já havia passado atrás das grades –pouco mais de sete anos– e saiu em liberdade definitiva.
Michael Peterson, na série documental The Staircase
Atualmente, Michael Peterson é um homem livre e continua residindo em Durham. Ele escreveu dois livros sobre suas experiências durante os anos de julgamento e prisão, tendo doado os lucros para instituições de caridade. Apesar de ter mantido um relacionamento de vários anos com Sophie Brunet, uma das editoras do documentário francês que acompanhou seu caso, o romance terminou quando ele se recusou a mudar para a França com ela.
A dinâmica familiar continua dividida. Seus filhos biológicos, Clayton e Todd, e suas filhas adotivas, Margaret e Martha, permanecem ao seu lado e acreditam em sua inocência. Por outro lado, a filha biológica de Kathleen, Caitlin Atwater, e as irmãs de Kathleen continuam firmes na convicção de que ele é culpado pela morte da esposa. Até hoje, Michael Peterson continua dizendo que não matou Kathleen.
No documentário The Staircase, lançado em 2018 pela Netflix, Michael Peterson é um dos entrevistados.
Vinícius Andrade
Jornalista e Coordenador de Conteúdo da Tangerina. Vinícius Andrade já foi editor do Notícias da TV. Interessado por tudo o que envolve mercado de entretenimento, tem mais de 14 anos de experiência na área e também trabalha com jornalismo local. E-mail: vinicius@tangerina.news
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