(Foto: Divulgação/Disney)
A indústria se torna inevitavelmente mais previsível, menos diverso e cada vez menos relevante
A bilheteria de 2025 escancara um problema que vinha se formando há anos, mas que agora aparece de forma brutal nos números. O cinema comercial entrou em um ciclo negativo no qual o risco praticamente desapareceu. E, goste ou não, grande parte da responsabilidade está no comportamento do próprio público.
Ir ao cinema deixou de ser um ato de descoberta. Hoje, a ida às salas virou uma busca por conforto, previsibilidade e reconhecimento imediato. O público só se dispõe a pagar ingresso quando sabe exatamente o que vai encontrar, mesmo que isso signifique consumir variações cada vez mais desgastadas das mesmas fórmulas.
O ranking de 2025 deixa isso evidente. Os primeiros lugares são ocupados por franquias consolidadas, continuações e adaptações. Ne Zha 2 lidera o ano com impressionantes US$ 2,1 bilhões (R$ 11 bilhões), seguido por Zootopia 2, com US$ 1,2 bilhão (R$ 6,6 bilhões), e Lilo & Stitch, que soma US$ 1 bilhão (R$ 5,5 bilhões). Até a quarta posição, com Um Filme Minecraft arrecadando US$ 958 milhões (R$ 5,2 bilhões), o padrão se repete sem surpresas.
Mesmo títulos com recepção crítica fraca encontram espaço quando carregam um nome conhecido. Jurassic World: Recomeço ocupa a quinta posição, com US$ 869 milhões (R$ 4,7 bilhões), um número quase três vezes maior do que o de filmes autorais muito mais elogiados. A lógica é simples: o público aceita pagar por algo familiar, independentemente da qualidade.
Scarlett Johansson em Jurassic World: Recomeço
(Foto: Divulgação/Universal Pictures)
Esse comportamento empurra os estúdios para decisões cada vez mais conservadoras. Se o dinheiro está nas IPs, é nelas que os investimentos se concentram. Histórias originais passam a ser vistas como apostas arriscadas demais para um mercado que já opera com margens apertadas e alta dependência de resultados rápidos.
O fator econômico pesa ainda mais nesse cenário. Com ingressos caros, o público evita gastar dinheiro em um filme desconhecido que poderá assistir poucas semanas depois no streaming. A experiência cinematográfica deixa de ser o foco. O que importa é o conforto de saber exatamente o que se está comprando.
Ainda assim, existem caminhos claros para romper esse ciclo. Filmes como Frankenstein, Jay Kelly e Vivo ou Morto, lançados pela Netflix, mostram como certas obras ganham outro peso nas telonas. São produções pensadas para o cinema, que perdem impacto quando vistas em casa e reforçam como a experiência coletiva pode transformar a recepção de um filme.
Quando se olha com atenção para o Top 20 do ano, o dado é revelador. Apenas dois filmes não fazem parte de IPs consagrados. Pecadores aparece na 17ª posição, com US$ 368 milhões (R$ 2 bilhões) arrecadados, enquanto A Hora do Mal surge em 19º lugar, com US$ 269 milhões (R$ 1,4 bilhão). Ambos figuram entre os melhores filmes de 2025, mas ficaram muito atrás de blockbusters de apelo automático.
Michael B. Jordan e Miles Caton em cena de Pecadores
(Foto: Divulgação/Warner Bros.)
A comparação é dura, já que Um Filme Minecraft está quarto lugar e Jurassic World: Recomeço em quinto. Cada um deles faturou mais que o triplo de Pecadores e A Hora do Mal, mesmo oferecendo experiências muito mais pobres do ponto de vista criativo.
Outros filmes autorais enfrentaram dificuldades ainda maiores. Uma Batalha Após a Outra aparece apenas na 23ª posição, com US$ 205 milhões (R$ 1,1 bilhão) arrecadados, apesar do prestígio crítico e do favoritismo ao Oscar. Já Bugonia, remake de um filme sul-coreano e um dos títulos mais elogiados do ano, sequer figura entre os principais colocados, com apenas US$ 39 milhões (R$ 380 milhões) de bilheteria mundial.
A bilheteria de 2025 não aponta para a falta de bons filmes. Pelo contrário. Ela revela um público que parou de apostar. Enquanto a ida ao cinema for guiada apenas pelo reconhecimento de marca, o espaço para risco continuará diminuindo. E, sem risco, o cinema se torna inevitavelmente mais previsível, menos diverso e cada vez menos relevante.
Victor Cierro
Repórter da Tangerina, Victor Cierro é viciado em quadrinhos e cultura pop e decidiu que seria jornalista aos 9 anos. É cria da casa: antes da Tangerina, estagiou no Notícias da TV, escrevendo sobre filmes e séries.
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