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Boneca Russa

Divulgação/Netflix

Crítica

Boneca Russa volta com viagem do tempo, mas pode decepcionar fãs

Segunda temporada de uma das melhores séries da Netflix é maior na produção, ambição e, principalmente, expectativa. Mas. como dizem, a expectativa é a mãe da decepção

Rafael Argemon

Rafael Argemon

Por mais diferente que pareça, a ideia utilizada como base para a segunda temporada de Boneca Russa, que estreia na Netflix nesta quarta-feira (20), no fundo segue a mesma da temporada passada: olhar para trás para seguir em frente. O passado é a chave para o futuro. O que muda em relação à espetacular primeira temporada é a estrutura narrativa para nos apresentar tal conceito. Sai o looping temporal, entra a viagem no tempo. 

Só para recapitular, caso você não queria rever a primeira temporada, lançada lá naquele mundo que não existe mais, de fevereiro de 2019: Nadia (Natasha Lyonne) comemorava seu aniversário de 36 anos na casa de uma amiga. Ao deixar a festa para perseguir seu gato perdido, ela acaba atropelada. A partir daí, ela “acorda” novamente na festa, no exato momento em que se encarava no espelho do banheiro e refletia sobre a passagem do tempo.

Daí pra frente, não importa o que faça, ela vai morrer e retornar ao maldito banheiro. Isso se repete ad infinitum até que ela conhece Alan (Charlie Barnett), que também está preso em um looping temporal que reinicia toda vez que ele morre. Logo, eles descobrem que estão morrendo ao mesmo tempo, o que os ajuda a desvendar a chave para sair deste “eterno retorno”: lidar com os fantasmas do passado e superá-los, juntos.

Nesta nova temporada, três anos depois, às vésperas de completar 39 anos, Nadia pega o metrô rumo ao hospital em que sua “madrinha” Ruth (Elizabeth Ashley) foi levada depois de sofrer um pequeno acidente. Só que em vez de levá-la a seu destino neste ano da graça de 2022, o trem manda Nadia para 1982, quando ela ainda estava na barriga de sua mãe Nora (Chlöe Sevigny).

Pôster da segunda temporada da série Boneca Russa

Trailer da segunda temporada de Boneca Russa

Nadia viaja do tempo para encontrar a si mesma na segunda temporada de Boneca Russa

A partir daí seguimos uma viagem bem mais pessoal com Nadia que, literalmente, veste o personagem de uma mãe que ela praticamente não conheceu. Personagem esta com quem ela precisa se reconciliar enquanto tenta desfazer os erros que custaram as preciosas moedas de ouro de sua avó, uma sobrevivente do Holocausto. Repassar o passado para construir um novo futuro. Lembra?

Camadas demais nesta boneca russa

O problema aqui é que Natasha Lyonne –criadora, roteirista e protagonista da série– não consegue encaixar as peças deste quebra-cabeças psicodramático tão bem quanto na primeira temporada. A segunda é maior em tudo. Na produção, ambição e, principalmente, expectativa. Mas, como dizem: a expectativa é a mãe da decepção.

Muitas das deficiências da nova temporada decorrem de sua ambiciosa estrutura multitemporal, compactada em sete episódios que nunca ultrapassam a marca de 30 minutos. Tudo em um ritmo vertiginoso que beira a pressa. Por conta disso, muitos tópicos são deixados pelo caminho, inexplorados. 

No entanto, Lyonne consegue, sim, tirar alguns coelhos da cartola do chapeleiro maluco de sua versão nova-iorquina de Alice Através do Espelho. Quando tudo parece desmoronar em uma confusão cheia de becos sem saída –principalmente em relação à busca das moedas de ouro da família de Nadia e da frustrante história paralela de Alan–, a trama entra nos eixos ao fazer o que Boneca Russa faz de melhor: se deixar levar pela metafísica, utilizando-a como metáfora para a terapia.

A segunda temporada de Boneca Russa segue com a mesma inventividade, humor e carinho de sua primeira temporada, mas se esforça um pouco demais para colar esses elementos na trama. É uma temporada que parece estar em guerra consigo mesma. Retrocedendo no tempo sem confiar em sua própria capacidade de construir algo novo. Mas não seria exatamente esse objetivo de Lyonne? Apesar de ter mais pontas soltas que a temporada passada, a nova temporada de Boneca Russa ainda traz muitas coisas boas. Velhas e novas. A única questão é que as velhas se sobrepõem às novas.

Dois pelo Preço de Um – Mesmo sem os elementos fantásticos, The End of the F***ing World faz um belo par com Boneca Russa.

Presta atenção, freguesia – Na trilha sonora, que já era ótima na primeira temporada e continua recheada de canções para montar uma playlist para ficar gravada no seu celular.

Pôster da segunda temporada de Boneca Russa

Boneca Russa (segunda temporada)

Ficção científica / comédia / drama
16
Direção
Natasha Lyonne (criadora)
Produção
Netflix
Onde assistir
Netflix
Elenco
Natasha Lyonne
Charlie Barnett
Chloë Sevigny
Elizabeth Ashley
Sharlto Copley
Greta Lee
Rebecca Henderson
Annie Murphy
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QUEM FEZ
Rafael Argemon

Rafael Argemon

Rafael Argemon é criador do perfil O Cara da Locadora no Instagram e também assina uma coluna com o mesmo nome na Tangerina, onde indica as pérolas escondidas nas plataformas de streaming. Cinéfilo e maratonador de séries profissional, passou por Estadão, R7, UOL, Time Out e Huffpost. Apaixonado por pugs, sagu e jogos do Mario.

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