(Foto: Reprodução/Netflix)
A arma mais poderosa da série, no fim das contas, é o medo da perda, não a perda em si
Stranger Things sempre foi eficiente em criar expectativa. Mais do que o terror, a nostalgia ou os monstros, a série dos irmãos Duffer construiu sua identidade ao convencer o público de que o pior está prestes a acontecer, apenas para esticar essa sensação até o limite. O final da quinta temporada na Netflix leva esse recurso ao extremo e entrega seu momento mais cruel sem recorrer a Vecna (Jamie Campbell Bower) ou ao Devorador de Mentes.
[Atenção: esse texto contém spoilers de Stranger Things 5]
O ápice dessa estratégia está na sequência em que Steve Harrington (Joe Keery) parece caminhar para um destino fatal. Ao longo de cinco temporadas, o personagem se tornou sinônimo de sacrifício e coragem, acumulando traumas, ferimentos e escapadas improváveis. Não por acaso, Steve sempre liderou listas de personagens que “provavelmente morreriam” no final da série, não por rejeição do público, mas justamente pelo carinho que desperta.
A cena da torre no Mundo Invertido é construída como um adeus em câmera lenta. A iluminação vermelha, os cortes rápidos, os gritos dos outros personagens e a insistência da câmera no rosto de Steve criam uma linguagem típica de morte definitiva na televisão. Stranger Things não esconde o que quer que o espectador sinta. A série prepara emocionalmente o público para a perda antes mesmo que algo irreversível aconteça.
Gaten Matarazzo e Joe Kerry em Stranger Things
(Foto: Divulgação/Netflix)
O truque funciona porque ativa toda a memória afetiva construída em torno do personagem. O ataque dos demobats, o espancamento por Billy (Dacre Montgomery), as torturas na Rússia e as inúmeras missões suicidas são resgatados de forma indireta. A série usa esse histórico como arma narrativa, explorando o medo acumulado de quem acompanha a história desde o início.
Por alguns segundos, o episódio chega a flertar com o luto completo. O corte seco para o escuro funciona como uma pausa calculada, fazendo o público acreditar que a perda já ocorreu. Quando Jonathan Byers (Charlie Heaton) surge para salvar Steve, a tensão se desfaz rapidamente, mas o impacto emocional já foi extraído.
Segundo os criadores, a intenção da cena era fortalecer laços e resolver dinâmicas entre personagens, não chocar o público. Ainda assim, o efeito é claro. Stranger Things monta uma sequência com toda a gramática de uma morte importante e recua no último instante, colhendo a reação emocional sem lidar com as consequências narrativas que normalmente acompanham esse tipo de decisão.
O resultado revela muito sobre o estágio final da série. Stranger Things já não precisa matar para ferir o espectador. A simples ameaça, bem encenada e sustentada pelo apego aos personagens, é suficiente. Steve Harrington sobrevive, o final segue com afeto e nostalgia, mas a lição fica clara. A arma mais poderosa da série, no fim das contas, é o medo da perda, não a perda em si.
Assista abaixo ao trailer do episódio final de Stranger Things na Netflix:
Victor Cierro
Repórter da Tangerina, Victor Cierro é viciado em quadrinhos e cultura pop e decidiu que seria jornalista aos 9 anos. É cria da casa: antes da Tangerina, estagiou no Notícias da TV, escrevendo sobre filmes e séries.
Ver mais conteúdos de Victor CierroTangerina é um lugar aberto para troca de ideias. Por isso, pra gente é super importante que os comentários sejam respeitosos. Comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, com palavrões, que incitam a violência, discurso de ódio ou contenham links vão ser deletados.
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