(Foto: Warner Bros./Divulgação)
Sense8 aposta em consciência compartilhada, identidade e conexão em uma das ficções científicas mais ambiciosas da plataforma
Poucas produções de ficção científica conseguem deixar o espectador tão desorientado quanto Matrix (1999). No entanto, uma série disponível na Netflix levou algumas das ideias das criadoras da franquia ainda mais longe. Com apenas duas temporadas e 24 episódios, Sense8 (2015-2018) constrói um universo complexo em que diferentes pessoas ao redor do planeta passam a compartilhar pensamentos, sentimentos, conhecimentos e até habilidades.
Criada por J. Michael Straczynski, Lana e Lilly Wachowski, Sense8 acompanha um grupo de oito pessoas que descobre fazer parte de um mesmo “cluster”. Os chamados sensates estão mentalmente conectados e conseguem visitar uns aos outros, mesmo separados por milhares de quilômetros, além de compartilhar experiências e capacidades físicas.
A proposta da Netflix já seria suficiente para transformar a série em uma experiência incomum, mas Sense8 fica progressivamente mais complicada. O espectador precisa acompanhar personagens espalhados pelo mundo enquanto as cenas saltam entre diferentes lugares e perspectivas. Essa sensação de desorientação faz parte da própria experiência dos protagonistas, que precisam entender uma conexão completamente diferente de tudo o que conheciam.
Max Riemelt em cena de Sense8
(Foto: Netflix/Divulgação)
A comparação com Matrix não acontece apenas porque as Wachowski estão por trás das duas produções. Enquanto a franquia estrelada por Keanu Reeves discute uma humanidade conectada dentro de uma realidade artificial, Sense8 segue praticamente na direção oposta. Seus protagonistas encontram justamente na conexão mental uma forma de compreender melhor uns aos outros.
Isso permite que a Netflix misture ficção científica com romance, ação, suspense, drama criminal e artes marciais. Cada integrante do grupo possui habilidades que podem ser aproveitadas pelos demais. Em uma situação de perigo, por exemplo, alguém pode recorrer às capacidades de luta de outro sensate ou receber a experiência necessária para escapar de uma situação complicada.
A trama também se torna mais complexa conforme avança. A primeira temporada apresenta jornadas inicialmente separadas, enquanto a segunda encontra os protagonistas mais unidos e conscientes de suas habilidades. No meio disso, Sense8 discute identidade, violência, corrupção, fé, tecnologia e, principalmente, a necessidade humana de criar conexões.
A ambição não ficou apenas na história. Sense8 foi filmada em diferentes partes do mundo e exigia que determinadas sequências fossem registradas várias vezes em locais diferentes. Cada episódio teria custado cerca de US$ 9 milhões (R$ 46 milhões), três vezes o orçamento de um episódio de Game of Thrones (2011-2019) produzido naquele mesmo período.
O tamanho da produção e seus custos ajudam a explicar por que a Netflix encerrou Sense8 depois da segunda temporada. Como a história havia terminado com um gancho, a mobilização dos fãs levou a plataforma a produzir um especial de longa duração para concluir a trama. Assim, mesmo com vida curta, a série conseguiu fechar sua história em 24 episódios e permanece como uma das experiências de ficção científica mais ambiciosas das Wachowski.
Victor Cierro
Repórter da Tangerina, Victor Cierro é viciado em quadrinhos e cultura pop e decidiu que seria jornalista aos 9 anos. É cria da casa: antes da Tangerina, estagiou no Notícias da TV, escrevendo sobre filmes e séries.
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