No Ritmo do Coração: leia a crítica do filme

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CODA

Divulgação/PrimeVideo

Crítica

No Ritmo do Coração leva atores surdos ao Oscar 2022

Com trama simples e emocionante, No Ritmo do Coração já está no Prime Video e fala sobre inclusão, diversidade e acreditar em seus sonhos

Gabriela Franco
Gabi Franco

Se houvesse um Oscar próprio para filmes estilo Sessão da Tarde (ou comfort films), No Ritmo do Coração (Coda) —remake americano do filme francês A Família Bélier, de Éric Lartigau —já teria levado. Como não há, o longa concorre no Oscar 2022 com outras produções, nas categorias de melhor filme, roteiro adaptado e ator coadjuvante.

Na linguagem musical, coda, título do filme em inglês, é um símbolo que indica uma extensão, um acréscimo em uma partitura musical, a indicação de que a música ainda não terminou. Porém, em termos sociais, é a sigla para Children of Deaf Adults (filhos de adultos surdos), que é justamente o caso de Ruby Rossi (Emilia Jones), protagonista do longa. Assim, o título original engloba, apropriadamente, as duas definições.

Na cidade costeira de Gloucester, Massachusetts, a adolescente Ruby é a única ouvinte de sua família. Os pais Frank (Troy Kotsur, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) e Jackie (a ganhadora do Oscar Marlee Matlin) e o irmão mais velho Leo (Daniel Durant)  são todos surdos de nascença. A família tem um barco pesqueiro e vive de vender o produto no mercado de peixes da região. 

Como para conduzir o barco é preciso haver ao menos algum ouvinte (para atender o rádio, a Guarda Costeira etc.), Ruby, que está no último ano do ensino médio, auxilia a família em meio período. Ela parece não ter maiores planos além de vender peixes o resto da vida, e a família conta com sua presença em tempo integral depois que terminar os estudos. 

A diretora Sian Heder cresceu na vizinha Cambridge e passou muitos dos verões de sua infância em Gloucester, onde se familiarizou com a comunidade pesqueira e os desafios que ela enfrentava. Em parte, é por isso que ela decidiu colocar uma família da classe trabalhadora no centro da trama. 

Peixe fora d’água

Como vive em meio ao silêncio e só conversa com os familiares por meio de libras, Ruby ouve música o tempo inteiro e parece sentir muito prazer na atividade. Eis que surge a oportunidade de se juntar ao coral da escola, e ela se inscreve.

O coral é conduzido pelo expansivo (porém exigente) professor cubano Bernardo Villalobos (Eugenio Derbez). Mas, logo nas audições, onde é obrigada a soltar a voz na frente dos colegas, Ruby entra em pânico e foge. O convívio social é difícil para ela.

Ela é estigmatizada pelos dois lados: pela sociedade, por pertencer a uma família de surdos que parece viver reclusa por não conviver com ouvintes. Mas também pela própria família, que a enxerga como diferente por ter nascido ouvinte e faz dela sua ponte com o resto do mundo.

Coda - No Ritmo do Coração

No Ritmo do Coração

É preciso ter empatia e respeito para ouvir de verdade

Ruby é a intérprete da família para tudo. Desde negociar direitos trabalhistas no sindicato dos pescadores e vender o peixe por um preço mais lucrativo, até ajudar o irmão a flertar. 

A atriz Emilia Jones não é surda nem filha de surdos e passou nove meses aprendendo libras para contracenar com os demais atores, eles sim, surdos.

Logo, o professor de música enxerga um talento nato em Ruby e a destaca, juntamente com seu colega Miles (Ferdia Walsh-Peelo) para fazer um dueto ao final do ano letivo. Como se não bastasse, o professor também apresenta à garota a possibilidade de cursar, via bolsa, a famosa universidade de música de Berklee. 

Ela apenas precisa se comprometer a ensaiar e se apresentar no dia marcado para uma audição. A partir daí, grande parte da trama se ocupa em mostrar o dilema de Ruby entre escolher cuidar de si mesma e de seu futuro, ou passar o resto da vida sendo intérprete da família. Somos apresentados aos dois lados da história, com suas complexidades e justificativas, e também ficamos bem divididos. Mas a família de Ruby parece ter decidido o que fazer.

Ouvir é mais do que usar os ouvidos

O trunfo de No Ritmo do Coração é não cair no lugar comum e mostrar a família de Ruby como totais incapacitados. Eles são ativos, incríveis, amorosos, festeiros, felizes. E existe muito mais em querer manter Ruby entre eles do que os ouvidos podem ouvir e as mentes imaginar.

É um filme de aquecer o coração, que nos ensina que, para ouvir, não basta termos ouvidos saudáveis, mas sim empatia e respeito.

Leva que tá doce! O pai é uma figuraça! Todas as interações dele rendem uma boa risada. O mesmo vale para a peça que Ruby prega quando “traduz” a cantada da melhor amiga dirigida ao irmão.

Dois pelo preço de um: Se você gostou de  Pequena Miss Sunshine, vai gostar de No Ritmo do Coração.

Presta atenção, freguesia:  Na trilha sonora, óbvio. Tem Etta James, Marvin Gaye, Joni Mitchell e The Clash. Lindo.

Indicações ao Oscar 2022:

  • Melhor filme
  • Melhor ator coadjuvante (Troy Kotsur)
  • Melhor roteiro adaptado
Coda

No Ritmo do Coração

Drama / Musical
14

Direção

Sian Heder

Produção

Philippe Rousselet Fabrice Gianfermi Patrick Wachsberger

Onde assistir

Prime Video

Elenco

Emilia Jones
Eugenio Derbez
Marlee Matlin,
Daniel Durant
Troy Kotsur
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QUEM FEZ
Gabriela Franco

Gabi Franco

Editora de filmes e séries na Tangerina, Gabi Franco é criadora do Minas Nerds, jornalista, cineasta, mãe de gente, pet e planta. Ex- HBO, MTV, Folha, Globo… É marvete, mas até tem amigos DCnautas.

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