(Foto: Warner Bros./Divulgação)
O novo filme de Tom Cruise abraça o exagero, divide opiniões e encontra justamente nos excessos algumas de suas maiores virtudes
Digger dificilmente vai terminar o ano como um daqueles filmes capazes de produzir consenso. O novo trabalho de Alejandro G. Iñárritu provoca, exagera e parece disposto a testar a paciência do público em alguns momentos nos cinemas. É justamente por isso que sua recepção tão dividida não deveria surpreender. O mais interessante é imaginar como essa mesma obra será encarada daqui a uma década.
Tom Cruise interpreta Digger Rockwell, um magnata do petróleo rico, egocêntrico e completamente isolado em sua própria realidade. Iñárritu aproveita a imagem construída pelo astro ao longo de décadas para brincar com a percepção que existe sobre ele: a de uma figura quase maior do que o próprio cinema. Só que o ator não está aqui para repetir Ethan Hunt ou qualquer outro herói que ajudou a consolidá-lo como uma das últimas grandes estrelas de Hollywood.
Cruise encontrou justamente o contrário. O ator chegou a definir Digger como três personagens diferentes reunidos em um único papel. Essa complexidade aparece em uma performance deliberadamente enorme, estranha e, em determinados momentos, surpreendentemente contida. Há até um monólogo de cerca de dez minutos que depende quase inteiramente da capacidade do protagonista de alternar humor, raiva, triunfo e resignação.
Digger é o filme mais divisivo de 2026
(Foto: Warner Bros./Divulgação)
É fácil entender por que Digger incomoda. Iñárritu não demonstra interesse em fazer um filme discreto. A comédia flerta com o absurdo, os diálogos aceleram e desaceleram a experiência, enquanto personagens e cenários disputam constantemente a atenção dentro do enquadramento. O diretor também mistura referências bastante diferentes, passando pelas comédias hollywoodianas dos anos 1940 e chegando à sátira política de Dr. Fantástico (1964).
O resultado é uma produção que frequentemente parece grande demais para si mesma. No entanto, reduzir essa escolha a uma simples falta de controle ignora justamente o que torna Digger tão particular. A sensação de excesso faz parte de um universo em que praticamente todos estão presos às próprias versões da realidade. Até personagens que inicialmente parecem existir apenas ao fundo ganham novas camadas conforme a história avança.
A fotografia em VistaVision reforça essa proposta. Os enquadramentos são carregados de elementos, mas não obrigam o espectador a olhar sempre para o mesmo ponto. Iñárritu permite que pequenas reações aconteçam simultaneamente à ação principal, algo que beneficia especialmente o elenco formado ainda por John Goodman, Sandra Hüller e Michael Stuhlbarg.
Tom Cruise em cena de Digger
(Foto: Warner Bros./Divulgação)
Existe ainda um precedente interessante na própria carreira de Cruise. Em 1999, o ator se afastou da imagem tradicional de astro para trabalhar com Stanley Kubrick (1928-1999) em De Olhos Bem Fechados e Paul Thomas Anderson em Magnólia. Os dois filmes enfrentaram resistência e discussões intensas em seus lançamentos, mas acabaram consolidados entre os trabalhos mais importantes de sua trajetória.
Digger não precisa necessariamente seguir o mesmo caminho para funcionar. Compará-lo diretamente a clássicos que tiveram décadas para construir suas reputações seria precipitado. Ainda assim, existe uma semelhança difícil de ignorar: mais uma vez, Cruise coloca sua própria imagem em risco para trabalhar com um cineasta disposto a desconstruí-la.
Talvez sejam necessários dez anos para descobrir de que lado Digger realmente ficará. Pode continuar sendo lembrado como um experimento ambicioso demais ou encontrar um público cada vez maior conforme seus excessos forem revisitados longe das expectativas de seu lançamento. O que já parece mais difícil é imaginar que passe despercebido. Gostando ou não do resultado, Iñárritu e Cruise fizeram um filme que pede discussão, e poucos lançamentos conseguem provocar isso com tanta convicção.
Victor Cierro
Repórter da Tangerina, Victor Cierro é viciado em quadrinhos e cultura pop e decidiu que seria jornalista aos 9 anos. É cria da casa: antes da Tangerina, estagiou no Notícias da TV, escrevendo sobre filmes e séries.
Ver mais conteúdos de Victor CierroTangerina é um lugar aberto para troca de ideias. Por isso, pra gente é super importante que os comentários sejam respeitosos. Comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, com palavrões, que incitam a violência, discurso de ódio ou contenham links vão ser deletados.
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