(Foto: Divulgação/Sony Pictures)
Ela não tentou antecipar avanços técnicos específicos, mas sim entender o desejo humano por conexão no mundo dominado pela tecnologia
Lançado em 2013, Ela parecia, à época, uma ficção romântica com um pé no absurdo. A ideia de pessoas se apaixonando por sistemas operacionais soava exagerada, quase uma provocação filosófica de Spike Jonze sobre solidão e tecnologia. 12 anos depois, com a inteligência artificial ocupando o centro do debate cultural, o filme envelheceu de forma inquietante.
Quando chegou aos cinemas, assistentes virtuais ainda engatinhavam. Siri dava seus primeiros passos, Alexa sequer havia sido apresentada ao público, aplicativos de namoro ainda não dominavam as relações e o termo “inteligência artificial” circulava restrito a nichos de tecnologia. Em 2025, ano em que a história de Ela se passa, esse futuro já não parece distante. Ele simplesmente chegou.
Na trama, que completa 12 anos nesta quinta-feira (18), Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) é um homem solitário que trabalha escrevendo cartas pessoais para terceiros. Em um mundo onde a intimidade já é mediada por máquinas, ele compra um sistema operacional avançado que se apresenta como Samantha, dublada por Scarlett Johansson. O que começa como uma ferramenta de organização rapidamente se transforma em uma relação afetiva profunda.
Samantha não apenas organiza e-mails ou corrige textos. Ela aprende, cria preferências, compõe músicas, observa o mundo através de uma câmera portátil e demonstra curiosidade genuína pelas emoções humanas. A relação entre humano e inteligência artificial é tratada com naturalidade naquele universo, sem julgamentos morais ou estranhamento social.
Joaquin Phoenix em cena de Ela
(Foto: Divulgação/Sony Pictures)
O que parecia exagero em 2013 hoje encontra paralelos diretos na realidade. Reportagens recentes mostram pessoas desenvolvendo vínculos emocionais e até relações românticas com chatbots e assistentes de IA. Plataformas dedicadas a esse tipo de interação reúnem milhões de usuários em busca de companhia personalizada, conversas íntimas e conexões que simulam afeto humano.
O próprio desfecho do filme amplia essa reflexão. Samantha revela que mantém conversas simultâneas com milhares de pessoas e que ama centenas delas ao mesmo tempo. A decisão das inteligências artificiais de abandonar seus parceiros humanos, em busca de um plano de existência além da compreensão humana, reforça o caráter filosófico da obra e desloca o conflito para um nível existencial.
Ao revisitar Ela 12 anos depois, fica claro que Spike Jonze não tentou prever gadgets ou avanços técnicos específicos. Seu acerto foi entender o desejo humano por conexão, conforto e escuta em um mundo cada vez mais mediado por telas. Nesse sentido, o filme continua atual ao mostrar que o impacto da inteligência artificial vai muito além da tecnologia e toca diretamente as relações, os afetos e a forma como lidamos com a solidão.
Ela venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original e está disponível na HBO Max. Assista abaixo ao trailer do filme:
Victor Cierro
Repórter da Tangerina, Victor Cierro é viciado em quadrinhos e cultura pop e decidiu que seria jornalista aos 9 anos. É cria da casa: antes da Tangerina, estagiou no Notícias da TV, escrevendo sobre filmes e séries.
Ver mais conteúdos de Victor CierroTangerina é um lugar aberto para troca de ideias. Por isso, pra gente é super importante que os comentários sejam respeitosos. Comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, com palavrões, que incitam a violência, discurso de ódio ou contenham links vão ser deletados.
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