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Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Air Force One: ele pode impedir compra da Warner pela Netflix?

(Reprodução/YouTube/The White House)

NEGÓCIOS

Entenda como Trump pode interferir na compra da Warner pela Netflix

Acordo bilionário entre gigantes do entretenimento ainda depende de aprovação política

Vinícius Andrade, Tangerina
Vinícius Andrade

A aquisição dos ativos de estúdio e streaming da Warner Bros. Discovery (WBD) pela Netflix, avaliada em US$ 82,7 bilhões (R$ 449 bilhões) de valor total pela empresa, redesenhou o panorama global no mercado do entretenimento. No entanto, a concretização dessa megatransação, anunciada na sexta-feira (5), depende da aprovação regulatória nos Estados Unidos, onde o ceticismo da administração do presidente Donald Trump pode se tornar o maior obstáculo ao acordo.

O processo regulatório norte-americano, que envolve o Departamento de Justiça (DOJ) e a Comissão Federal de Comércio (FTC), ganhou um peso político significativo. O próprio fator Trump adiciona uma camada de imprevisibilidade ao cenário.

O que entra e o que fica de fora do acordo Netflix e Warner

A proposta da Netflix se concentra na fusão de seu serviço de streaming de liderança global com a tradicional máquina de conteúdo de Hollywood. O negócio inclui os estúdios de cinema e televisão da Warner Bros., a plataforma HBO Max e o acervo histórico da WBD, que abrange franquias como Harry Potter, O Mágico de Oz, Game of Thrones e o universo da DC.

No entanto, a Netflix optou por não adquirir um outro pacote do grupo. A medida é vista por analistas de mercado como um movimento estratégico que busca justamente mitigar preocupações regulatórias relacionadas à concentração de mídia tradicional. A transação está condicionada à conclusão da separação da divisão de redes globais da WBD, conhecida como Discovery Global.

Essa divisão Discovery Global, que formará uma nova empresa de capital aberto, englobará canais de notícias e da TV paga, como CNN, TNT Sports (nos EUA), Discovery, canais abertos na Europa e plataformas digitais como Discovery+ e Bleacher Report. Ao deixar de fora esses ativos de “Global Networks”, a Netflix evita a compra de canais noticiosos, o que poderia gerar críticas adicionais de cunho político ou regulatório sobre o controle de informações.

Icônica torre da Warner Bros., empresa que foi comprada pela Netflix

Warner Bros. foi comprada pela Netflix

(Foto: Warner Bros./Divulgação)

O fator Trump na venda da Warner

Apesar de a Netflix ter deixado a parte noticiosa de fora, a desconfiança regulatória foi imediatamente sinalizada depois que o acordo foi anunciado. Um alto funcionário da administração Trump declarou à CNBC que a Casa Branca vê o negócio da Netflix e Warner Bros. com “grande ceticismo”.

O histórico de Trump em relação a fusões de mídia sugere que ele pode se envolver diretamente na revisão do caso. Durante seu primeiro mandato, o Departamento de Justiça moveu uma ação (embora sem sucesso) para bloquear a aquisição da Time Warner pela AT&T, uma medida que, segundo relatos, foi motivada pela aversão de Trump à rede CNN. Embora a Netflix não esteja adquirindo a CNN neste novo acordo, seu envolvimento em uma megafusão de mídia pode atrair a atenção política.

Além disso, a política regulatória nos EUA está sob escrutínio. Enquanto o Partido Republicano é tradicionalmente pró-mercado, há alas populistas, representadas por figuras como o senador Josh Hawley e o vice-presidente JD Vance, que se posicionam contra a grande consolidação corporativa.

A aquisição da Warner pela Netflix (unindo a plataforma número 1 de streaming à número 3, HBO Max) pode superar a marca de 30% de participação no mercado de streaming, um patamar que, pelas diretrizes antitruste do DOJ de 2023, gera preocupação sobre a possível elevação de preços para os consumidores.

Lobby competitivo

A oposição ao negócio não se restringe a Washington. Rivais corporativos, como a Paramount Skydance, que também competiu pela compra de ativos da WBD, exerceram pressão.

De acordo com informações do The Wall Street Journal, advogados da Paramount advertiram a WBD em carta que o negócio com a Netflix “provavelmente nunca seria fechado” devido a desafios regulatórios nos EUA e no exterior, alegando que a Netflix “consolidaria e estenderia sua dominância global”. O CEO da Paramount Skydance, David Ellison, teria inclusive de reunido com autoridades da administração Trump para defender sua posição contra a seleção da Netflix.

As preocupações se estendem aos trabalhadores. Sindicatos de Hollywood, incluindo o Writers Guild of America (que representa os roteiristas), manifestaram oposição, temendo que a aquisição elimine empregos, pressione salários para baixo e reduza a diversidade de conteúdo. Este tipo de argumento, focado no impacto sobre produtores e trabalhadores em vez de apenas nos consumidores, já foi usado com sucesso pelo Departamento de Justiça para bloquear a tentativa de aquisição da editora Simon & Schuster pela Penguin Random House.

A multa bilionária

A Netflix e a WBD esperam que a transação seja concluída entre 12 e 18 meses, após a separação da Discovery Global, que está prevista para ocorrer no terceiro trimestre de 2026.

Demonstrando sua “alta confiança no processo regulatório”, a Netflix concordou em pagar uma multa de rescisão reversa (reverse break-up fee) de US$ 5,8 bilhões (R$ 31,5 bilhões) à WBD caso a transação não se concretize devido à falha em obter aprovações antitruste ou regulatórias nos EUA ou no exterior.

O valor dessa multa, uma das maiores já registradas em um acordo de entretenimento, reflete tanto a confiança da Netflix na superação dos obstáculos quanto o enorme risco financeiro associado à possibilidade de interferência política e regulatória, especialmente por parte de uma Casa Branca que já se mostrou disposta a usar o poder antitruste para vetar grandes fusões midiáticas.

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Vinícius Andrade

Jornalista e colaborador da Tangerina. Vinícius Andrade já foi editor do Notícias da TV e tem especialização em SEO. Interessado por tudo o que envolve mercado de entretenimento, tem mais de 13 anos de experiência na área e também trabalha com jornalismo local. E-mail: vinicius@tangerina.news

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