FILMES E SÉRIES

Icônica torre da Warner Bros.

(Foto: Warner Bros./Divulgação)

NEGÓCIO TRAVADO

Entenda por que a fusão da Paramount com a Warner ainda não foi aprovada

Mesmo com aval do governo Trump, negócio bilionário virou alvo de duas grandes ações judiciais nos Estados Unidos

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A proposta de compra da Warner Bros. Discovery pela Paramount Skydance, avaliada em US$ 111 bilhões (R$ 564,99 bilhões), está enfrentando uma forte ofensiva jurídica que ameaça travar o negócio. A fusão, que criaria uma das maiores potências do entretenimento global, virou alvo de duas grandes ações judiciais nos Estados Unidos que questionam os impactos anticompetitivos no mercado cinematográfico, na TV por assinatura e no mercado de trabalho para os profissionais do setor.

Com base em informações da Variety, Deadline e The Hollywood Reporter, veículos norte-americanos que acompanham os bastidores de Holywood, a Tangerina te explica aqui nesse texto por que o negócio ainda não andou.

Na segunda-feira (13), uma coalizão formada por 12 procuradores-gerais estaduais democratas protocolou uma ação antitruste para bloquear a fusão. Liderado pelo procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, o grupo alega que a união entre a Paramount e a Warner Bros. Discovery daria à nova entidade um poder anticompetitivo desproporcional nos mercados de exibição nos cinemas e de canais de TV por assinatura básicos.

O ponto central da acusação dos estados é o controle de mercado. Segundo o processo, a empresa combinada controlaria cerca de 30% do mercado de filmes com previsão de maior bilheteria, conhecidos no setor como “blockbusters”. Historicamente, a jurisprudência da Suprema Corte dos Estados Unidos considera que uma participação de mercado que ultrapassa a marca de 30% é presumidamente anticompetitiva.

Essa batalha jurídica representa um alto investimento e risco político para os estados envolvidos. Normalmente, processos desse porte contam com o apoio e a estrutura do Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ).

No entanto, sob a gestão federal do presidente Donald Trump, o DOJ já concedeu o seu aval para a realização da fusão. Diante disso, os estados decidiram agir de forma independente.

O custo de levar o processo adiante de maneira solitária é estimado em US$ 20 milhões (R$ 101,80 milhões) em despesas com economistas e escritórios de advocacia terceirizados. Prevendo esse cenário, o governador da Califórnia, o democrata Gavin Newsom, obteve em maio de 2026 um orçamento adicional de US$ 14 milhões (R$ 71,26 milhões) voltado exclusivamente para ações de fiscalização antitruste. Ele é um dos principais opositores de Trump.

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Air Force One: ele pode impedir compra da Warner pela Netflix?

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, no Air Force One

(Reprodução/YouTube/The White House)

A ação tem contornos políticos. O CEO da Paramount, David Ellison, busca realizar a fusão utilizando US$ 40 bilhões (R$ 203,60 bilhões) provenientes da fortuna de seu pai, Larry Ellison, fundador da gigante de software Oracle. Larry Ellison é um importante apoiador de Donald Trump, tendo doado US$ 45 milhões (R$ 229,05 milhões) para a campanha de reeleição do presidente norte-americano.

O procurador-geral Rob Bonta destacou publicamente que o governo federal tem se posicionado a favor de uma economia concentrada, o que torna a atuação judicial dos estados ainda mais necessária.

Sindicato dos Roteiristas entra na disputa judicial

Apenas um dia após a ação dos estados, nesta terça (14), o Sindicato dos Roteiristas dos Estados Unidos, representado pelas divisões Writers Guild of America West (WGAW) e Writers Guild of America East (WGAE), entrou oficialmente na disputa. A entidade protocolou uma ação judicial própria no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Norte da Califórnia buscando o bloqueio da fusão.

Diferente do processo liderado pelos estados, a ação da WGA foca nas consequências que a fusão trará para o mercado de trabalho. O sindicato alega que a fusão viola leis federais antitruste e prejudica o ambiente de concorrência na contratação de serviços de roteiro. Os principais impactos apontados são:

  • Redução salarial: Com a diminuição do número de estúdios concorrentes, a empresa resultante terá maior poder de barganha para reduzir os salários e achatar as compensações pagas aos roteiristas.
  • Menos postos de trabalho: A fusão resultará na consolidação de divisões de desenvolvimento, diminuindo o volume total de produções originais no mercado cinematográfico, episódico e de streaming, limitando as contratações.
  • Piores condições contratuais: O sindicato aponta que haverá uma deterioração nos termos de contratos gerais de exclusividade, conhecidos como overall deals, e piores condições de trabalho em geral.
  • A presidente da WGA West, Michele Mulroney, alertou que a fusão criará o maior comprador individual de conteúdo original de cinema e televisão do país, eliminando a concorrência saudável. O presidente da WGA East, Tom Fontana, reforçou que a união prejudicará a diversidade de histórias produzidas e o surgimento de novos talentos nas produções de Hollywood.

    A posição da Paramount Skydance

    A Paramount Skydance rebate as acusações e defende que as alegações dos estados são baseadas em interpretações jurídicas equivocadas sobre as leis de concorrência. A defesa da companhia é liderada por advogados de grande prestígio no mercado antitruste, como Jeffrey Kessler, Eric Stock e Andrew Finch, sob a coordenação do principal executivo jurídico da Paramount, Makan Delrahim.

    Os representantes legais da Paramount argumentam que o mercado relevante de concorrência para a empresa não deve se restringir apenas aos tradicionais estúdios de cinema de Hollywood. Segundo a companhia, o verdadeiro cenário competitivo do setor hoje inclui as gigantes de tecnologia que realizam investimentos maciços em suas plataformas digitais, como a Netflix, a Apple e a Amazon.

    A defesa afirma ainda que a fusão é uma medida pró-competitiva essencial para garantir a sustentabilidade do setor e que a nova estrutura operacional permitirá produzir um volume de filmes e séries superior ao que as duas companhias conseguem realizar atuando de forma separada.

    No entanto, sindicatos de trabalhadores do entretenimento, como o Hollywood Teamsters, liderado por Lindsay Dougherty, afirmam que as promessas de manutenção de postos de trabalho e produções não possuem garantias legais claras e exigem a aplicação de penalidades caso as metas não sejam cumpridas no futuro.

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