(Foto: Divulgação/Lionsgate)
As franquias de O Senhor dos Anéis e Jogos Vorazes são as principais referências do gênero
O cinema passou décadas apostando no mesmo tipo de protagonista para suas grandes histórias épicas. O herói escolhido, destinado a salvar o mundo por causa de uma profecia ou habilidade especial, virou uma fórmula quase obrigatória em franquias de fantasia e ficção científica. Ainda assim, alguns filmes conseguiram escapar completamente desse caminho previsível.
Em vez de transformar seus protagonistas em figuras perfeitas e inalcançáveis, essas produções apostaram justamente no contrário. Seus personagens principais são falhos, manipulados, inseguros ou até completamente inadequados para ocupar o papel de “salvador”. Isso cria histórias mais humanas, imprevisíveis e até mais sombrias.
O resultado são filmes que conseguem renovar um dos maiores clichês de Hollywood. Alguns questionam a própria ideia de destino, enquanto outros mostram como o conceito do “escolhido” pode ser usado como propaganda, manipulação política ou consequência do fracasso pessoal.
O clássico de James Cameron brinca com a ideia de destino de maneira diferente. John Connor (Edward Furlong) seria o homem responsável por liderar a resistência humana contra as máquinas no futuro, mas o filme questiona se esse futuro realmente precisa acontecer.
Ao longo da trama, Sarah Connor (Linda Hamilton) e o T-800 (Arnold Schwarzenegger) tentam impedir o nascimento da própria Skynet. A produção abandona a ideia de profecia inevitável para defender que o futuro pode ser alterado pelas escolhas humanas.
A trilogia dirigida por Peter Jackson usa o conceito do herói escolhido de maneiras diferentes, mas a grande subversão aparece em Frodo Bolseiro (Elijah Wood). Cercado por guerreiros lendários e figuras grandiosas, o hobbit parece completamente deslocado dentro daquela missão.
É justamente isso que faz o personagem funcionar tão bem. Frodo não é poderoso, não quer fama e nem demonstra desejo de liderança. Sua simplicidade é exatamente o que permite que ele carregue o Um Anel sem sucumbir tão rapidamente à corrupção de Sauron.
Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) se torna um símbolo revolucionário quase contra a própria vontade. Diferente de protagonistas tradicionalmente destinados à grandeza, ela vira uma figura messiânica construída artificialmente pela resistência.
A franquia mostra como governos e movimentos políticos utilizam símbolos para manipular massas. Aos poucos, Katniss deixa de ser apenas uma sobrevivente e passa a carregar o peso de representar uma revolução inteira, mesmo sem desejar isso inicialmente.
O filme estrelado por Michelle Yeoh transforma o conceito do escolhido em algo ainda mais inesperado. Evelyn não é apresentada como a melhor versão de si mesma, mas como praticamente a pior entre todas as realidades possíveis.
Enquanto acessa habilidades de outras versões multiversais, a personagem descobre que justamente seus fracassos e frustrações são o que a tornam capaz de lidar com o caos daquela situação. Em vez de um dom especial, o longa transforma insatisfação e arrependimento em elementos centrais da jornada da protagonista.
A continuação dirigida por Denis Villeneuve apresenta Paul Atreides (Timothée Chalamet) como uma figura messiânica para o povo Fremen, mas a história deixa claro que essa profecia foi cuidadosamente manipulada durante séculos.
O filme transforma o “escolhido” em uma construção política e religiosa criada para controlar populações inteiras. Em vez de celebrar a profecia, Duna mostra os perigos de transformar líderes em figuras divinas e como isso pode alimentar guerras gigantescas.
Victor Cierro
Repórter da Tangerina, Victor Cierro é viciado em quadrinhos e cultura pop e decidiu que seria jornalista aos 9 anos. É cria da casa: antes da Tangerina, estagiou no Notícias da TV, escrevendo sobre filmes e séries.
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