(Foto: Divulgação/Netflix)
Justiceiras deixa de ser uma história sobre vingança e passa a discutir culpa, manipulação e perdão
Lançado discretamente no catálogo da Netflix, Justiceiras (2022) começou como mais uma comédia teen estilizada, mas rapidamente se revelou um caso raro de filme que muda completamente de sentido após sua grande reviravolta. A produção dirigida por Jennifer Kaytin Robinson usa o formato leve e colorido apenas como isca para uma virada que altera de forma irreversível a percepção do público sobre seus personagens.
Inspirado livremente em Pacto Sinistro (1951), clássico de Alfred Hitchcock (1899-1980), o filme acompanha um pacto de vingança entre duas adolescentes de uma escola de elite. A proposta inicial parece simples: duas jovens injustiçadas unem forças para destruir quem arruinou suas vidas, seguindo a lógica clássica de trocas de favores que dificultam qualquer suspeita direta.
Drea Torres (Camila Mendes) é a primeira a ter sua reputação destruída após um vídeo íntimo ser vazado pelo ex-namorado Max (Austin Abrams). Antes popular e admirada, ela se torna alvo de humilhação pública, perde amigos e vê seu futuro acadêmico ameaçado. É nesse cenário que surge Eleanor Levetan (Maya Hawke), uma aluna transferida que carrega seu próprio trauma ligado a acusações do passado.
As duas constroem uma amizade baseada na dor e no desejo de revanche. Enquanto Drea quer expor Max, Eleanor mira Carissa (Ava Capri), antiga colega que teria sido responsável por um episódio traumático durante a adolescência. O plano avança de forma calculada, com infiltrações sociais, manipulações e pequenas vitórias que dão ao filme o tom de uma sátira afiada sobre poder, status e crueldade juvenil.
Camila Mendes e Maya Hawke em Justiceiras
(Foto: Divulgação/Netflix)
[Atenção: Contém spoilers de Justiceiras a seguir]
Tudo muda quando a narrativa revela que Eleanor não é apenas uma vítima em busca de justiça. A grande reviravolta expõe que boa parte dos acontecimentos foi meticulosamente planejada por ela desde o início, incluindo a aproximação com Drea e até a queda social da própria aliada. A revelação não apenas reposiciona Eleanor como figura central, mas também desmonta a leitura moral que o público vinha construindo até então.
A partir desse ponto, Justiceiras deixa de ser um filme sobre vingança e passa a discutir culpa, manipulação e perdão. A virada é tão definitiva que impede qualquer experiência de revisão inocente da história. Cada cena anterior passa a carregar um peso diferente, e decisões que antes pareciam justificáveis se tornam profundamente desconfortáveis.
É justamente por isso que o filme da Netflix entra na categoria das produções que só funcionam uma vez. Ao revelar seu jogo narrativo, Justiceiras perde o elemento de surpresa que sustentava sua tensão e transforma a experiência em algo mais amargo do que divertido. Um exemplo claro de como uma única reviravolta pode redefinir completamente o impacto de um longa no streaming.
Assista abaixo ao trailer de Justiceiras:
Victor Cierro
Repórter da Tangerina, Victor Cierro é viciado em quadrinhos e cultura pop e decidiu que seria jornalista aos 9 anos. É cria da casa: antes da Tangerina, estagiou no Notícias da TV, escrevendo sobre filmes e séries.
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