La Casa de Papel: Coreia erra feio ao se manter fiel demais à original

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La Casa de Papel: Coreia

Divulgação/Netflix

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

La Casa de Papel: Coreia erra feio ao se manter fiel demais à original

Os seis primeiros episódios da nova série já estão disponíveis no catálogo da Netflix; quem viu a versão original, porém, não vai ter nenhuma surpresa

André Zuliani

Um dos maiores fenômenos da história da Netflix, La Casa de Papel (2017-2021) chegou ao fim em dezembro do ano passado praticamente se sustentando com o nome da marca. O sucesso inesperado da série espanhola resultou não apenas em sua ressurreição pelas mãos do streaming, como também no acréscimo de novas partes da trama divididas em incontáveis volumes.

Com uma de suas galinhas dos ovos de ouro encerrando sua trajetória em alta, era compreensível o movimento da Netflix em esgotar as ideias da franquia de modo que continuasse a surfar no sucesso. Assim, a plataforma logo anunciou um spin-off centrado em Berlim (Pedro Alonso) e em um remake instantâneo feito em outro grande polo de destaque da gigante do streaming: as produções sul-coreanas.

O anúncio de La Casa de Papel retornaria “repaginada” como um k-drama foi recebido pelos fãs com alegria e incertezas. Afinal, vieram do país asiático fenômenos globais (e devoradores de prêmios) como Parasita (2019), Round 6 (2020) e All of Us Are Dead (2021). Entretanto, o maior problema parecia ser a recriação de uma história recém-finalizada sem grandes alterações. E é nessa armadilha –criada pela própria Netflix– que o remake coreano caiu.

La Casa de Papel: Coreia surge de uma ideia ousada. Na trama, situada em 2025, os dois países que formam a península coreana anunciaram a tão esperada reunificação. Desta maneira, a região formada pela fronteira entre as regiões, antes intitulada Área de Segurança Conjunta, passa a se chamar Área Econômica Conjunta.

A união e a abertura entre Coreia do Sul e Coreia do Norte resulta em uma migração em massa. Após décadas reféns de um governo autoritário e ditatorial, os habitantes da região ao norte não demoram a buscar melhores oportunidades nos vizinhos sulistas. Esta mudança radical é retratada pela imagem de figuras populares como o grupo de k-pop BTS, que pela primeira vez teve permitido a realização de um show em Pyongyang, capital da Coreia do Norte.

La Casa de Papel: Coreia

Yoo Ji-tae (centro) lidera o grupo de assaltantes como o novo Professor

Divulgação/Netflix

Contudo, a nova realidade entre os dois países não demora a virar pesadelo. Milhares de pessoas, de ambas as regiões, começam a sofrer com problemas financeiros e as desigualdades sociais. Com a unificação, os ricos ficaram ainda mais ricos, e os pobres ganharam ainda mais dificuldades.

É a partir desta premissa –o ódio ao funcionamento do capitalismo– que tem início a trama do remake. Assim como na original, os protagonistas se reúnem para realizar o roubo do século cientes de que, logo de cara, podem ganhar a simpatia da população com dificuldades.

Esta realidade coreana alternativa é a principal diferença entre a original e o remake. No entanto, a fidelidade com que La Casa de Papel: Coreia referencia sua contraparte espanhola marca o começo dos problemas da nova série.

Sem qualquer inovação, o remake repete quase tudo o que deu certo na série original. O grupo liderado pelo Professor (Yoo Ji-tae) é formado por Tóquio (Jun Jong-seo), Berlim (Park Hae-soo), Nairóbi (Jang Yoon-ju), Moscou (Lee Won-jong), Denver (Kim Ji-hun), Rio (Lee Hyun-woo), Oslo (Lee Kyu-ho) e Helsinki (Kim Ji-hoon). Além dos apelidos, os personagens possuem as mesmas caraterísticas, trejeitos e dinâmicas da atração espanhola.

Em suas novas encarnação, Tóquio segue como a narradora e fio condutor da narrativa. Apesar de sua história de origem ganhar contornos mais dramáticos, ela repete a mesma função que Úrsula Corberó exerceu na original. O mesmo vale para Rio, que retorna como o caçula avoado do grupo; Denver continua como o jovem imaturo sustentado pelo pai, Moscou; Nairóbi é uma mulher que não leve desaforo para casa; e Berlim, como era esperado, se equilibra entre o vilão carismático e sádico.

Com tantas repetições, La Casa de Papel: Coreia se torna refém de si mesma. Em vez de inovar e criar novas possibilidades para os personagens, o remake opta por reconstruir quase tudo o que deu certo na série original. O resultado é uma cópia mastigada e pouco interessante de algo que já fez sucesso na Netflix. Se a atração espanhola contou praticamente a mesma história, por que o público se interessaria em vê-la novamente, apenas repaginada?

Por mais que não repita 100% dos passos da série original, a primeira parte do remake falha ao tentar justificar sua existência. Caso, no futuro, a atração decida seguir o próprio caminho, La Casa de Papel: Coreia poderá, enfim, buscar um lugar entre as grandes produções da Netflix.

Cena de La Casa de Papel: Coreia

La Casa de Papel: Coreia

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QUEM FEZ

André Zuliani

Repórter de séries e filmes. Viciado em cultura pop, acompanha o mundo do entretenimento desde 2013. Tem pós-graduação em Jornalismo Digital pela ESPM e foi redator do Omelete.

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