Como Monk mudou a representação do TOC na TV há 20 anos- Tangerina

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Monk

Divulgação/Apple TV

SAÚDE MENTAL

Como Monk mudou a representação do TOC na TV há 20 anos

Série que estreou em 2002 trazia Adrian Monk, um detetive com manias e fobias que mudaram a forma de enxergar o Transtorno Obsessivo Compulsivo

Giulianna Muneratto

Há exatos 20 anos, chegava às TVs norte-americanas um brilhante detetive que precisava lidar diariamente com suas obsessões e compulsões, ao mesmo tempo em que tentava solucionar crimes. A série Monk (2002-2009) estreou em 12 de julho de 2002 e, além de ser considerada por muitos críticos uma das séries mais importantes dos últimos anos, foi responsável por elucidar ao público o que é o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), doença de que o personagem de Tony Shalhoub sofria.

Adrian Monk (Tony Shalhoub) cresceu com alguns tiques e manias. Mas, após o acidente que matou sua mulher, Trudy, seus sintomas se agravaram. O personagem era detetive do Departamento de Polícia de São Francisco e precisou ser afastado do cargo após uma piora do transtorno, o que fez com que Adrian se isolasse durante três anos dentro de casa. 

Monk tinha uma fobia severa de germes e, além de se recusar a tocar em objetos comuns, se obrigava a limpar as mãos a todo instante. Ele também tinha um medo irracional de altura, multidões, cobras, elevadores, agulhas e até de leite. Por conta do TOC, o detetive apresentava algumas manias bem específicas, como só beber água de uma única marca e não suportar objetos desalinhados, até mesmo em cenas de crime. 

Para muitos, o transtorno do detetive poderia ser visto como uma anormalidade ou mesmo uma piada, mas a série, vencedora de oito Emmys, mostrou que o TOC ia além de simples manias e gerava grande sofrimento psíquico. Segundo a psicanalista Gabriela Vargas, a pessoa se vê invadida por pensamentos desagradáveis recorrentes, e as manias repetitivas são rituais com o objetivo de diminuir a angústia que ela sente. 

“Normalmente, os medos têm relação com os conteúdos que a pessoa evita. O medo de se contaminar com germes pode dizer sobre o medo de contaminação de uma forma mais ampla, menos concreta. O medo de morrer, de ficar doente, de perder alguém querido é algo que tem relação com o psiquismo da pessoa”, explica à Tangerina

Traumas como o acidente de Trudy podem, de fato, causar um impacto psicológico tão significativo a ponto de agravar os sintomas, da mesma forma que aconteceu com o personagem. “Um trauma pode ser tão grande, como a morte de um ente querido em um acidente, que a pessoa cria mecanismos de defesa para lidar com aquela dor”, afirma.

“Logo, se já há um adoecimento psíquico prévio, pode piorar nesses momentos. Há um deslocamento da energia, dos pensamentos, dos sentimentos e do foco para as compulsões e obsessões como maneira inconsciente de proteger a pessoa da dor da perda, nesse caso.”

A série também foi certeira ao trazer à tona a necessidade de procurar um profissional especializado para auxiliar no manejo da doença. Como se tratava de um transtorno grave, que impedia que Adrian vivesse normalmente e atrapalhava até mesmo suas relações interpessoais, Monk se consultava três vezes na semana com um psiquiatra. 

“Normalmente, as compulsões e os pensamentos obsessivos são vistos como algo incômodo que o paciente tenta se livrar. É necessário que a pessoa seja avaliada por um profissional de saúde mental a fim de receber o diagnóstico e tratamento adequado”, confirma Gabriela. 

Mesmo retratando um lado extremo da doença, a série mostrava que a personalidade de Monk não se resumia ao TOC. Sua capacidade de observar além e prestar atenção em detalhes que ninguém mais via provavam que, mesmo em meio aos pensamentos caóticos, Monk era, de fato, um grande detetive. 

“É sempre importante tomar cuidado com qualquer estereótipo de diagnóstico psiquiátrico, pois a pessoa pode facilmente se tornar ‘a bipolar’ ou ‘a que tem TOC’ para os outros e até se enxergar a partir daí, achar que tudo é sintoma do adoecimento”, ressalta a psicanalista. “Cada ser humano tem uma história de vida única, com gostos, sonhos e vontades. O adoecimento é apenas uma parte disso, não o todo.”

Personagem icônico

Com o caos gerado pela pandemia do coronavírus, Monk foi o primeiro personagem a ser lembrado pelo público por conta da sua relação com germes, mesmo mais de dez anos após o último episódio da série. “Sabe quem nunca pegaria Covid-19? O meu cara, Monk”, escreveu uma internauta identificada como Miss Sneed no Twitter.

Em maio de 2020, quando as informações sobre o vírus ainda eram muito recentes, Tony Shalhoub reviveu Adrian Monk em um esquete para a série At-Home Variety Show, como forma de conscientização.

Devidamente caracterizado, o personagem se dizia satisfeito de ver que, em meio à pandemia, todos se tornaram tão conscientes sobre o perigo dos germes quanto ele sempre tinha sido. “Eu odeio admitir, mas você estava certo, Monk. Estamos todos com medo de germes agora, ninguém pode se tocar!”, falou o Capitão Stottlemeyer, interpretado por Ted Levine.

Relembre o retorno mais recente do personagem:

Tony Shalhoub

Assista a Monk na Quarentena

Esquete exibido no At-Home Variety Show usava personagem de Tony Shalhoub como conscientização para o coronavírus

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QUEM FEZ

Giulianna Muneratto

Jornalista pela Faculdade Cásper Líbero. Adora um filme clichê, música pop e sonhava em ser cantora de cruzeiro, mas não tem talento pra isso.

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