(Foto: Netflix/Divulgação)
O Homem que Sussurra reúne Robert De Niro, Adam Scott e boas ideias, mas sofre ao tentar contar história demais em apenas 106 minutos
O Homem que Sussurra chegou à Netflix nesta sexta-feira (28) com ingredientes suficientes para se tornar um dos grandes suspenses do streaming. Há um assassino perturbador, um desaparecimento, traumas familiares e um elenco liderado por Robert De Niro e Adam Scott. O problema é que tudo parece grande demais para caber em apenas 106 minutos.
Baseado no livro homônimo de Alex North, o filme acompanha Tom (Adam Scott), um escritor viúvo cujo filho de oito anos, Jake (Acston Luca Porto), é sequestrado. O desaparecimento obriga o protagonista a procurar Pete (Robert De Niro), seu pai distante e um detetive aposentado que investigou décadas antes um criminoso conhecido como Homem que Sussurra.
A premissa abre espaço para diferentes caminhos, e esse talvez seja justamente o maior problema da adaptação dirigida e roteirizada por James Ashcroft. O Homem que Sussurra quer funcionar como investigação policial, terror, drama familiar e história sobre traumas que atravessam gerações. Nenhuma dessas ideias é ruim, mas o longa da Netflix não consegue dedicar tempo suficiente para desenvolvê-las com a profundidade necessária.
É principalmente na relação entre Tom e Pete que fica a sensação de que a Netflix poderia ter encontrado uma ótima minissérie. Os conflitos entre pai e filho estão entre os momentos mais interessantes da produção, principalmente quando o protagonista começa a reconsiderar a maneira como sempre enxergou o próprio pai. O problema é que essa dinâmica precisa dividir espaço com todas as outras peças da trama e acaba avançando rápido demais.
Algo parecido acontece com Frank Carter (Michael Keaton), o Homem que Sussurra original. O criminoso tem uma dinâmica que lembra Hannibal Lecter e protagoniza alguns dos encontros mais tensos do filme ao lado de Pete e da detetive Amanda Beck (Michelle Monaghan). Só que são poucas cenas para explorar uma relação que poderia render muito mais.
Transformar a história em uma minissérie de seis ou oito episódios, por exemplo, daria espaço para desenvolver a investigação, aprofundar o passado de Pete, trabalhar melhor a relação entre as três gerações da família e, principalmente, deixar o mistério respirar. É justamente quando tenta acelerar essas diferentes frentes que O Homem que Sussurra perde força.
Acston Luca Porto e Adam Scott em cena de O Homem que Sussurra
(Foto: Netflix/Divulgação)
O resultado é um filme da Netflix que alterna entre drama, suspense e um terror mais explícito sem encontrar uma identidade consistente. Até elementos sobrenaturais aparecem nas margens da história, enquanto outros personagens parecem pertencer a uma narrativa diferente. A quantidade de ideias acaba trabalhando contra uma trama que poderia ser muito mais simples e eficiente.
Isso é especialmente frustrante porque o elenco entrega o que pode. Adam Scott funciona bem nos momentos dramáticos, enquanto De Niro transforma Pete em um homem marcado por arrependimentos e lembranças do passado. Michelle Monaghan também consegue dar intensidade a Amanda, mesmo com uma personagem que recebe menos profundidade.
O Homem que Sussurra tinha potencial para se aproximar de grandes suspenses policiais como O Silêncio dos Inocentes (1991) e Zodíaco (2007), mas termina sem alcançar o peso de suas melhores ideias. Não falta história ao novo filme da Netflix. Pelo contrário: há história demais. E talvez uma série fosse justamente o espaço que ela precisava para realmente funcionar.
Inclusive, a própria Netflix já tinha um bom modelo de como uma história desse tipo poderia funcionar melhor. Séries de Mike Flanagan, como A Maldição da Mansão Bly (2020), mostraram como mistério, terror e traumas familiares podem ganhar força quando personagens e relações têm tempo para respirar. O Homem que Sussurra prefere o caminho acelerado de um filme de 106 minutos e parece feito para provocar impacto imediato no catálogo. Pode até encontrar espaço entre os títulos mais assistidos da plataforma nas próximas semanas, mas dificilmente deixa a impressão necessária para continuar sendo lembrado alguns meses depois.
Assista abaixo ao trailer do filme original da Netflix:
Victor Cierro
Repórter da Tangerina, Victor Cierro é viciado em quadrinhos e cultura pop e decidiu que seria jornalista aos 9 anos. É cria da casa: antes da Tangerina, estagiou no Notícias da TV, escrevendo sobre filmes e séries.
Ver mais conteúdos de Victor CierroTangerina é um lugar aberto para troca de ideias. Por isso, pra gente é super importante que os comentários sejam respeitosos. Comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, com palavrões, que incitam a violência, discurso de ódio ou contenham links vão ser deletados.
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