(Foto: Divulgação/A24)
Em vez de premiar apenas personagens fáceis de admirar, a temporada mostra abertura para figuras complexas e moralmente ambíguas
Durante décadas, uma regra informal sempre guiou a corrida pelo Oscar de atuação: personagens simpáticos costumam levar vantagem. Seja interpretando figuras inspiradoras, heróis carismáticos ou vilões fascinantes, a empatia do público costuma ajudar na campanha rumo à estatueta. A temporada de premiações de 2026, no entanto, tem seguido um caminho diferente.
A atual corrida ao Oscar está repleta de personagens difíceis, contraditórios e, em alguns casos, abertamente desagradáveis. Em vez de protagonistas fáceis de amar, muitos dos indicados se destacam justamente por interpretar figuras complexas, moralmente ambíguas ou emocionalmente espinhosas.
O exemplo mais discutido está na categoria de Melhor Ator. Timothée Chalamet aparece como um dos favoritos por Marty Supreme, mas o personagem interpretado por ele está longe de ser um herói tradicional. Ao longo da história, o protagonista toma decisões autodestrutivas e frequentemente provoca frustração no público, o que alimenta o debate sobre até que ponto um personagem difícil pode conquistar os votantes da Academia.
A lista de personagens pouco simpáticos não para por aí. Em Blue Moon, Ethan Hawke interpreta o compositor Lorenz Hart em um retrato que evita qualquer tentativa de romantizar o artista. Já em Valor Sentimental, Stellan Skarsgård vive um pai frio e egoísta cuja reconciliação com os filhos adultos não transforma totalmente sua personalidade.
No entanto, a personificação de figura incômoda é Sean Penn. Na categoria de Melhor Ator Coadjuvante, o ator entrega a atuação mais difícil de Uma Batalha Após a Outra. A presença de tela, somada ao personagem imponente, colocam o astro na frente de seus adversários no Oscar 2026.
Sean Penn em cena de Uma Batalha Após a Outra
(Foto: Divulgação/Warner Bros.)
Entre as mulheres, a tendência também aparece com força. Emma Stone foi indicada por Bugonia, no qual interpreta uma CEO distante e satirizada como uma “girlboss” corporativa pouco suportável. A personagem chega a despertar alguma simpatia em determinados momentos, mas o próprio filme se encarrega de desmontar qualquer tentativa de torná-la totalmente agradável.
Outro caso marcante surge em Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, estrelado por Rose Byrne. A história acompanha uma mãe que cuida de um filho doente, situação que naturalmente despertaria empatia. No entanto, a narrativa insiste em mostrar a personagem tomando decisões erradas, transformando o drama em um estudo desconfortável sobre culpa, desgaste emocional e escolhas falhas.
Mesmo nas categorias coadjuvantes, a presença de figuras incômodas se repete. Em Uma Batalha Após a Outra, Teyana Taylor interpreta uma revolucionária cuja trajetória inclui traições que complicam qualquer tentativa de transformá-la em heroína. Já Amy Madigan surge em A Hora do Mal como uma figura quase assustadora, distante do tipo de vilão carismático que costuma conquistar o público.
Isso não significa que personagens simpáticos desapareceram da temporada. Kate Hudson recebeu atenção por Song Sung Blue, enquanto Delroy Lindo emociona o público em Pecadores ao interpretar um personagem marcado pelo alcoolismo. Ainda assim, a impressão geral é clara: a corrida deste ano parece menos interessada em histórias reconfortantes.
A mudança sugere uma pequena virada na forma como a Academia enxerga performances. Em vez de premiar apenas personagens fáceis de admirar, a temporada de 2026 mostra maior abertura para figuras complexas, moralmente ambíguas e até irritantes. Curiosamente, são justamente esses personagens difíceis que acabaram rendendo algumas das atuações mais celebradas do ano.
Emma Stone em cena de Bugonia
(Foto: Divulgação/Universal Pictures)
Agora que saíram os vencedores do SAG Awards, será que ficou mais fácil palpitar no Oscar, que acontece em 15 de março? É hora de transformar o seu conhecimento em filmes em prêmios reais, no Bolão da Tangerina.
Victor Cierro
Repórter da Tangerina, Victor Cierro é viciado em quadrinhos e cultura pop e decidiu que seria jornalista aos 9 anos. É cria da casa: antes da Tangerina, estagiou no Notícias da TV, escrevendo sobre filmes e séries.
Ver mais conteúdos de Victor CierroTangerina é um lugar aberto para troca de ideias. Por isso, pra gente é super importante que os comentários sejam respeitosos. Comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, com palavrões, que incitam a violência, discurso de ódio ou contenham links vão ser deletados.
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