(Foto: Divulgação/A24)
Marty Supreme e Coração de Lutador funcionam menos como provas de independência e mais como evidência de interdependência
A separação criativa dos irmãos Safdie virou um experimento arriscado para o cinema autoral americano. Em 2025, Josh e Benny Safdie seguiram caminhos distintos pela primeira vez após anos assinando juntos obras marcadas por tensão extrema, energia caótica e personagens à beira do colapso. O resultado chegou aos cinemas com Marty Supreme e Coração de Lutador, dois filmes que ajudam a entender o que se perdeu nesse processo.
De um lado, Marty Supreme colocou Josh Safdie no comando solo de um projeto ambicioso, estrelado por Timothée Chalamet como um jogador de pingue-pongue obcecado pelo sucesso. O filme aposta no ritmo acelerado, na estética nervosa e no senso de urgência que consagraram Bom Comportamento (2017) e Joias Brutas (2019), deixando claro que Josh manteve domínio sobre o impulso narrativo e a energia que definem o “estilo Safdie”.
Por outro, Coração de Lutador marcou a estreia solo de Benny Safdie na direção de um longa desse porte. O filme acompanha o lutador de MMA Mark Kerr, interpretado por Dwayne Johnson, em uma abordagem surpreendentemente contida e intimista. Em vez da adrenalina constante, Benny opta por um retrato silencioso, sensível e quase documental da vida pessoal de um atleta marcado pela autodestruição.
A diferença de recepção entre os dois projetos foi imediata. Enquanto Marty Supreme teve maior repercussão crítica e comercial, Coração de Lutador passou quase despercebido pelo público e enfrentou avaliações mornas. A leitura que se impôs foi a de um “vencedor” nesse duelo informal, mas o contraste revela algo mais profundo do que uma simples disputa entre irmãos.
The Rock em cena de Coração de Lutador
(Foto: Divulgação/A24)
Sozinho, Josh Safdie entrega um filme tecnicamente eficiente, mas que carece do olhar mais humano e observador que Benny costumava imprimir nos personagens. Já Benny demonstra sensibilidade rara ao lidar com figuras violentas em um ambiente brutal, mas sem o senso de urgência e propulsão dramática que Josh trazia para a narrativa. Em ambos os casos, falta justamente o complemento que sempre equilibrou a dupla.
Essa ausência fica ainda mais evidente quando os dois filmes são comparados aos trabalhos anteriores assinados em conjunto. Em Bom Comportamento e Joias Brutas, o caos nunca era gratuito. Havia pausas, silêncios e momentos de intimidade que aprofundavam os personagens, algo que nasce justamente da soma entre o vigor de Josh e o cuidado emocional de Benny.
A divisão também levantou ruídos fora das telas. Mesmo descrita como amigável, a separação deixou projetos em suspenso e alimentou especulações sobre distanciamento criativo entre os irmãos, reforçando a sensação de que algo se rompeu além da parceria profissional.
No fim, Marty Supreme e Coração de Lutador funcionam menos como provas de independência e mais como evidência de interdependência. Separados, os Safdie mostram talento, mas também deixam claro que o impacto máximo de seu cinema sempre surgiu do choque entre duas sensibilidades opostas trabalhando juntas.
Marty Supreme estreia em 22 de janeiro nos cinemas. Timothée Chalamet, inclusive, é um dos maiores adversários de Wagner Moura no Oscar 2026. Assista abaixo ao trailer do filme:
Victor Cierro
Repórter da Tangerina, Victor Cierro é viciado em quadrinhos e cultura pop e decidiu que seria jornalista aos 9 anos. É cria da casa: antes da Tangerina, estagiou no Notícias da TV, escrevendo sobre filmes e séries.
Ver mais conteúdos de Victor CierroTangerina é um lugar aberto para troca de ideias. Por isso, pra gente é super importante que os comentários sejam respeitosos. Comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, com palavrões, que incitam a violência, discurso de ódio ou contenham links vão ser deletados.
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