FILMES E SÉRIES

Leandro Hassum interpreta Silvio Santos em filme que fala sobre tentativa do dono do SBT ser presidente

(Fotos: Divulgação/Paris Filmes e Lourival Ribeiro/SBT)

FILME NA NETFLIX

Por que Silvio Santos não foi presidente do Brasil? Conheça a história real

Filme Silvio Santos Vem Aí, disponível na Netflix, mostra a campanha frustrada do apresentador em 1989

Vinícius Andrade, Tangerina
Vinícius Andrade

A estreia do filme Silvio Santos Vem Aí no catálogo da Netflix nesta semana reacendeu uma das maiores curiosidades da história política nacional: por que o dono do SBT foi proibido de ser candidato nas eleições para presidente da República em 1989? A produção, que tem Leandro Hassum no papel do apresentador, mostra esse momento específico da trajetória de Silvio Santos (1930-2024).

Embora a ficção traga o lado mais pessoal, inclusive com o uso de personagens que não existiam, como a jornalista Marília, interpretada por Manu Gavassi, os motivos reais que barraram o dono do Baú foram técnicos e jurídicos, definidos nos corredores do Tribunal Superior Eleitoral, o TSE. Neste texto, a Tangerina te explica o que aconteceu.

O cenário de 1989 era de pura efervescência. O Brasil vivia a expectativa da primeira eleição direta para presidente após a ditadura militar (1964-1985). Os dois maiores partidos políticos do país na época –Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e Partido da Frente Liberal (PFL)– não conseguiram impulsionar a candidatura de seus representantes no decorrer da campanha.

No entanto, a menos de um mês da realização do primeiro turno, setores do PFL planejaram lançar a candidatura do empresário Silvio Santos, filiado à legenda desde 1988, por outra agremiação: o Partido Municipalista Brasileiro (PMB), cujo candidato, Armando Corrêa (1931-2000), dispunha-se a renunciar. Efetivada a desistência da chapa original, Marcondes Gadelha, senador pela Paraíba, passou a integrar a nova chapa do PMB como candidato a vice-presidente da República. Com Silvio Santos para presidente.

O movimento causou um terremoto imediato no cenário eleitoral, alterando todas as estratégias dos concorrentes que já estavam em campanha havia meses.

A liderança relâmpago de Silvio Santos nas pesquisas

O impacto do anúncio foi instantâneo. Sem precisar participar de debates ou apresentar um plano de governo detalhado, o comunicador disparou na preferência do eleitorado. As pesquisas de intenção de voto da época mostravam que Silvio Santos havia ultrapassado nomes consolidados como Ulysses Guimarães (1916-1992), Leonel Brizola (1922-2004) e Luiz Inácio Lula da Silva. Mais do que isso, ele ameaçava o sucesso da candidatura do alagoano Fernando Collor de Mello, que vinha em ascensão na corrida eleitoral.

A popularidade de Silvio Santos, construída ao longo de décadas entrando na casa dos brasileiros todos os domingos pela televisão, revelou-se uma força política incontrolável. O eleitor via nele uma figura familiar e de sucesso, dissociada da política tradicional que, naquele momento, sofria com o descrédito popular devido à hiperinflação e instabilidade econômica.

Apesar do sucesso popular, havia a insatisfação política. Segundo o TSE, foram registrados 18 pedidos de impugnação da candidatura, questionando a legalidade da nova filiação partidária de Silvio Santos, a renúncia dos candidatos substituídos e a regularidade do registro do PMB.

Silvio Santos tentou ser presidente da República em 1989, mas não chegou a disputar eleição

Silvio Santos na Parada do SBT, em 1987

(Foto: Reprodução/SBT)

Por que o TSE impugnou a candidatura?

Silvio não conseguiu chegar às urnas por questões legais. Conforme é mencionado rapidamente no filme Silvio Santos Vem Aí, a base da decisão da Corte do TSE, que selou o destino da eleição, focou na regularidade do partido escolhido pelo empresário.

De acordo com o entendimento do TSE na ocasião, o Partido Municipalista Brasileiro não havia cumprido as exigências legais para existir. A legenda foi considerada irregular porque não realizou o número mínimo de convenções regionais exigidas pela lei eleitoral vigente. Em termos simplificados, para um partido lançar um candidato à presidência, ele precisava ter uma estrutura formalizada em diversos estados, o que o PMB não possuía.

Além da questão estrutural da sigla, havia outro problema técnico: o registro provisório da legenda. A Justiça Eleitoral entendeu que o partido não tinha existência legal válida para aquele pleito. Consequentemente, se a agremiação partidária era inexistente perante a lei, todos os atos praticados por ela, incluindo o pedido de registro da candidatura de Silvio Santos, eram nulos. Assim, em 9 de novembro de 1989, poucos dias antes da votação, a candidatura foi barrada por unanimidade.

O efeito Collor

A saída forçada de Silvio Santos redefiniu o resultado das urnas. O eleitorado que havia decidido votar no apresentador tinha um perfil majoritariamente “contra tudo o que está aí”, buscando alguém de fora da política tradicional para resolver os problemas do país. Com a impugnação, esses votos não retornaram para a esquerda ou para os candidatos mais ao centro; eles foram, em sua grande maioria, capturados por Fernando Collor de Mello, que, apesar de ser fruto de uma família política tradicional de Alagoas, era visto como o “outsider” da vez.

O Caçador de Marajás, como Collor era conhecido, conseguiu absorver a aura de renovação que o dono do SBT carregava momentaneamente. Analistas políticos concordam que a breve aventura de Silvio foi decisiva para consolidar a vitória de Collor, servindo como uma espécie de teste de popularidade que, ao final, fortaleceu o discurso populista daquele momento.

Embora os ânimos tenham sido exaltados com a candidatura de Silvio Santos, o primeiro turno ocorreu, sem percalços, no dia 15 de novembro de 1989, passando a disputar a eleição, em segundo turno, os candidatos Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva. Collor foi eleito com 35.089.998 votos (53% dos votos válidos). Lula obteve 31.076.364 votos (47% dos válidos).

O primeiro presidente eleito pela população depois da redemocratização sofreu impeachment em 1992, após uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Congresso concluir que ele cometeu crime de responsabilidade ao usar cheques fantasmas para o pagamento de despesas pessoais. Quem tiver interesse por esse período da história nacional, uma dica é assistir ao documentário Caçador de Marajás, disponível no Globoplay.

Após o episódio traumático de 1989, Silvio Santos nunca mais oficializou uma candidatura. Apesar de ter sido sondado diversas vezes para cargos como prefeito de São Paulo ou senador em anos seguintes, o comunicador optou por focar exclusivamente em seus negócios e na televisão. Silvio Santos morreu em 17 de agosto de 2024, aos 93 anos, em decorrência de uma broncopneumonia.

Informar Erro
Falar com a equipe
QUEM FEZ
Vinícius Andrade, Tangerina

Vinícius Andrade

Jornalista e colaborador da Tangerina. Vinícius Andrade já foi editor do Notícias da TV e tem especialização em SEO. Interessado por tudo o que envolve mercado de entretenimento, tem mais de 13 anos de experiência na área e também trabalha com jornalismo local. E-mail: vinicius@tangerina.news

Ver mais conteúdos de Vinícius Andrade

0 comentário

Tangerina é um lugar aberto para troca de ideias. Por isso, pra gente é super importante que os comentários sejam respeitosos. Comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, com palavrões, que incitam a violência, discurso de ódio ou contenham links vão ser deletados.

Acesse sua conta para comentar

Ainda não tem uma conta?

Só o que vale o play

Toda sexta-feira, no seu e-mail, as melhores dicas de filmes e séries para ver em casa