Queer as Folk: Após 22 anos, série LGBTQIA+ mira inclusão e pós-Pulse - Tangerina

FILMES E SÉRIES

Devin Way em Queer as Folk

Alyssa Moran/Peacock

CRÍTICA

Queer as Folk: Após 22 anos, série LGBTQIA+ mira inclusão e pós-Pulse

Série histórica dos anos 2000 ganha releitura moderna com personagens trans e não-bináries e muito drama após ataque homofóbico à boate

Luciano Guaraldo

Em dezembro de 2000, a adaptação norte-americana de Queer as Folk (ou Os Assumidos, como ficou conhecida no Brasil) estreava no canal Showtime para fazer história. Uma atração televisiva nunca havia mostrado a vida dos gays de maneira tão honesta, divertida e sexy. Encerrada em 2005, a série abriu portas para The L Word (2004-2009), Pose (2018-2021), Elite, Euphoria e tantas outras. Agora, uma nova versão chega à TV para mostrar como a representação LGBTQIA+ evoluiu em duas décadas.

Em 2022, apenas remontar a estrutura da Queer as Folk original não caberia bem. Afinal, todos os personagens eram cisgêneros e brancos. O máximo de diversidade buscada pela série estava no casal de lésbicas Lindsay (Thea Gill) e Melanie (Michelle Clunie) e no professor soropositivo Ben (Robert Gant). Ainda assim, suas tramas funcionavam apenas como satélites às dos protagonistas gays, que eram o verdadeiro centro das atenções.

Responsável por atualizar Queer as Folk, Stephen Dunn (de O Monstro no Armário) tenta assinalar várias caixinhas da sigla LGBTQIA+. Como exemplos principais, Mingus (Fin Argus) é não-binárie e quer se tornar drag queen, e Ruthie (Jesse James Keitel) é uma mulher trans. Há ainda mais representatividade com o latino Noah (Johnny Sibilly), o cadeirante Marvin (Eric Graise), a drag negra Bussy (Armand Fields) e o surdo Leo (Nyle DiMarco). Tudo isso sem falar de Julian (Ryan O’Connell), que tem paralisia cerebral –o ator já havia sido pioneiro ao criar e estrelar Special (2019-2021), da Netflix.

A série também mostra uma conexão mais atual com o panorama da comunidade ao mostrar, logo em seu primeiro episódio, a invasão de um homem armado à boate Babylon. O homofóbico dispara várias vezes, deixando várias vítimas pelo caminho. É uma tragédia que remete à do clube noturno Pulse, que em 2016 virou cenário para 49 mortos e 53 feridos. Os momentos de terror unem os personagens para sempre, queiram eles ou não.

Fin Argus em Queer as Folk

Mingus (Fin Argus) vira anjo do protagonista Brodie (Devin Way) após ataque homofóbico

Divulgação/Peacock

É aí que a nova Queer as Folk derrapa um pouco. Apesar de o aumento da representatividade ser louvável, começar a série com uma tragédia tira um pouco da leveza e do descompromisso que transformaram a série de 2000 em um marco histórico. O primeiro episódio parece mais Grey’s Anatomy ou Sob Pressão, com vítimas ensanguentadas pelos corredores de um hospital lotado e sirenes policiais soando ao fundo.

O segundo capítulo dá um salto no tempo de seis semanas, mas os personagens ainda lidam com o trauma do ataque homofóbico. E isso obviamente é necessário, estranho seria se todos tivessem superado seus problemas em pouco mais de um mês. Mas a atmosfera é tão pesada e tudo é tão dramático que nem parece Queer as Folk. A diversão, os momentos de dança e pegação na Babylon, as piadas e alfinetadas entre os personagens fazem muita falta.

Sim, a Queer as Folk original também teve seus momentos dramáticos, inclusive um ataque homofóbico à boate Babylon –que, na ocasião, foi alvo de uma explosão no lugar de tiros. Justin (Randy Harrison) foi agredido por um colega de escola, Ted (Scott Lowell) se afundou no vício de drogas e pornografia, o tio Vic (Jack Wetherall) morreu por complicações da Aids… Mas, antes disso tudo acontecer, o público teve tempo para criar uma conexão com os personagens –e, consequentemente, se importar mais com seus problemas. Agora, o caminho é o contrário: você é bombardeado pelo drama e só depois tenta se identificar com cada pessoa na tela.

Nesse ponto, a Queer as Folk de 2022 parece a representação definitiva da sociedade atual: sim, há mais diversidade, as pessoas compreendem melhor o que é ser trans ou não-binárie; mas, ao mesmo tempo, os dramas de décadas atrás não só se mantiveram como se exacerbaram, com o recuo em direitos antes conquistados, por exemplo. Está complicado achar um motivo para dançar e esquecer os problemas –e a série, que poderia promover esse escapismo, parece martelá-los ainda mais na cabeça do público.

Queer as Folk entra no catálogo da Starzplay neste domingo (31), com os dois primeiros episódios de sua temporada. São oito, no total, a serem disponibilizados nos próximos três finais de semana. Confira o trailer da série:

Devin Way e Jesse James Keitel em Queer as Folk

Trailer de Queer as Folk

Produção atualiza série que marcou época no início do século

Queer as Folk

Queer as Folk

Drama
16

Direção

Vários

Produção

Peacock

Onde assistir

Starzplay

Elenco

Devin Way
Johnny Sibilly
Fin Argus
Jesse James Keitel
CG
Ryan O'Connell
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Luciano Guaraldo

Editor-chefe da Tangerina. Antes, foi editor do Notícias da TV, onde atuou durante cinco anos. Também passou por Diário de São Paulo e Rede BOM DIA de jornais.

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