(Foto: Paris Filmes/Divulgação)
A Bola Preta transforma repressão, memória e vidas interrompidas em um poderoso olhar para as feridas do passado
O cinema brasileiro encontrou nos últimos anos uma maneira poderosa de revisitar períodos sombrios da própria história sem transformar seus filmes em simples aulas sobre o passado. Ainda Estou Aqui (2024) e O Agente Secreto (2025) colocaram pessoas, famílias e traumas no centro de histórias atravessadas pela ditadura militar. Agora, a Espanha parece ter encontrado sua própria resposta com A Bola Preta, representante do país na disputa pelo Oscar 2027.
Dirigido por Javier Calvo e Javier Ambrossi, o longa acaba de chegar aos cinemas espanhóis depois de uma trajetória internacional impressionante. A dupla venceu o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes, enquanto a produção posteriormente conquistou o Prêmio do Público no Festival de Toronto. A recepção ajuda a explicar por que a Espanha decidiu apostar no filme para tentar uma vaga em Melhor Filme Internacional no Oscar.
A comparação com o cinema brasileiro não significa que A Bola Preta copie Walter Salles ou Kleber Mendonça Filho. A lição compartilhada é outra: grandes acontecimentos políticos se tornam ainda mais poderosos no cinema quando suas consequências são observadas através de pessoas comuns. Ainda Estou Aqui fez isso ao transformar o desaparecimento de Rubens Paiva (Selton Mello) durante a ditadura em uma história sobre memória e família. O Agente Secreto, por sua vez, mergulhou no Recife de 1977 para acompanhar Marcelo (Wagner Moura) em meio à atmosfera de vigilância e violência do período.
Miguel Bernardeau e Guitarricadelafuente em A Bola Preta
(Foto: Paris Filmes/Divulgação)
A Bola Preta leva essa ideia para a Espanha e amplia sua escala. Com 155 minutos, a história acompanha três homens gays em diferentes momentos. Em 1932, Carlos (Milo Queifes) enfrenta a rejeição depois de rumores sobre sua sexualidade. Em 1937, em meio à Guerra Civil Espanhola, Sebastián (Guitarricadelafuente) tenta sobreviver ao luto e esconder quem realmente é. Finalmente, em 2017, Alberto (Carlos González) investiga o passado do avô e acaba envolvido pelo mistério de uma peça de teatro perdida.
É justamente nessa construção que o filme mais se aproxima tematicamente dos recentes sucessos brasileiros no Oscar. O passado não existe apenas como cenário. Ele deixa objetos, obras, segredos e traumas para quem vem depois. Os três protagonistas são separados por décadas, mas suas histórias gradualmente revelam uma narrativa maior sobre repressão, sexualidade, amor, perda e as consequências de esconder a própria identidade.
A ambição, porém, cobra um preço. A Bola Preta demora para encontrar seu melhor ritmo. Os dois primeiros atos acumulam personagens, conflitos e contextos históricos, e nem todas as partes recebem a mesma força. É a história de Sebastián que melhor equilibra o íntimo e o político. Sua tentativa de esconder sexualidade e sofrimento durante a Guerra Civil cria a sensação de alguém obrigado a interpretar outra versão de si mesmo para continuar existindo.
Guitarricadelafuente é um dos grandes destaques do filme
(Foto: Paris Filmes/Divulgação)
A aparente fragmentação encontra sentido no terceiro ato. Histórias que durante boa parte das mais de duas horas parecem distantes começam a formar uma única imagem, e a peça de teatro que atravessa gerações ganha importância fundamental. É quando a enorme duração deixa de parecer apenas excesso e passa a funcionar como parte do impacto emocional buscado por Javier Calvo e Javier Ambrossi.
Existe também uma escolha importante na maneira como a dupla aborda a história espanhola. A Guerra Civil e a repressão são fundamentais para os personagens, mas o filme prefere explorar suas consequências íntimas a realizar uma investigação aprofundada das forças políticas responsáveis por aquele contexto. Essa decisão eventualmente limita a dimensão histórica do longa, mas reforça a ideia central de que regimes e períodos políticos terminam no calendário muito antes de desaparecerem da vida das pessoas.
Nesse ponto, A Bola Preta entende muito bem a lição que tornou Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto tão relevantes internacionalmente. Não basta reconstruir o passado. É preciso mostrar aquilo que ele deixou para trás. O representante espanhol no Oscar 2027 faz isso por meio de três vidas separadas pelo tempo e transforma identidade, memória e repressão em partes de uma mesma história.
Com Penélope Cruz, Glenn Close, Miguel Bernardeau e Lola Dueñas, além de Pedro Almodóvar entre os produtores, A Bola Preta chega à temporada de premiações respaldado por Cannes e Toronto. Mais importante do que os troféus, porém, é a maneira como o longa entende que algumas das histórias mais fortes sobre um país surgem justamente quando o cinema decide abrir os arquivos que uma sociedade preferiu manter fechados.
A Bola Preta chega aos cinemas brasileiros em 21 de janeiro de 2027. Assista abaixo ao trailer:
Victor Cierro
Repórter da Tangerina, Victor Cierro é viciado em quadrinhos e cultura pop e decidiu que seria jornalista aos 9 anos. É cria da casa: antes da Tangerina, estagiou no Notícias da TV, escrevendo sobre filmes e séries.
Ver mais conteúdos de Victor CierroTangerina é um lugar aberto para troca de ideias. Por isso, pra gente é super importante que os comentários sejam respeitosos. Comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, com palavrões, que incitam a violência, discurso de ódio ou contenham links vão ser deletados.
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