(Foto: Lorenzo Sisti/Netflix)
Produção pouco popular do catálogo entrega performance decisiva da atriz, supera expectativas e até rivaliza com versão clássica do cinema
A Netflix tem um thriller psicológico que passou longe do grande público, mas esconde um dos trabalhos mais impressionantes da carreira de Dakota Fanning. Baseada no clássico literário de Patricia Highsmith (1921-1995), a minissérie Ripley (2024) transforma a atriz em peça central de uma história marcada por tensão, ambiguidade e jogos mentais.
Mesmo sem o mesmo alcance de outros sucessos da plataforma, a produção se destaca pela abordagem estilizada e pelo clima noir. Filmada em preto e branco e ambientada em cenários luxuosos da Itália, a série constrói uma atmosfera densa, que remete diretamente aos thrillers de Alfred Hitchcock (1899-1980), com foco na manipulação e nas mentiras que cercam o protagonista Tom Ripley (Andrew Scott).
No centro disso está Dakota Fanning, que entrega o desempenho mais complexo de sua trajetória na TV. Como Marge Sherwood, a atriz abandona qualquer leitura óbvia e constrói uma personagem cheia de camadas, marcada por dúvidas, silêncios e suspeitas constantes. Sua atuação nunca entrega tudo de forma explícita, o que intensifica ainda mais o mistério ao redor da trama.
A escolha de Dakota Fanning para o papel, inicialmente inesperada, se mostra um dos maiores acertos da série da Netflix. A personagem deixa de ser apenas coadjuvante e passa a ocupar um lugar fundamental na narrativa, funcionando quase como um espelho das manipulações de Ripley. O resultado é uma figura ambígua, que parece sempre saber mais do que revela.
A série também ganha força com Andrew Scott no papel principal, em uma versão do personagem considerada uma das melhores já vistas. Ainda assim, é Dakota Fanning quem rouba a cena ao sustentar o tom psicológico da produção e aprofundar o clima de desconfiança que permeia cada episódio.
Outro ponto que chama atenção é a forma como Ripley se distancia da famosa adaptação cinematográfica de 1999. A série não apenas revisita a história, como altera elementos importantes e amplia os temas centrais, criando uma leitura mais sombria e introspectiva do material original.
No fim, o resultado é uma obra que vai além do suspense tradicional. Ripley não busca apenas entreter, mas provocar o espectador, deixando espaço para interpretações sobre seus personagens e suas motivações. E é justamente nesse terreno incerto que Dakota Fanning entrega a atuação mais marcante de sua carreira.
Victor Cierro
Repórter da Tangerina, Victor Cierro é viciado em quadrinhos e cultura pop e decidiu que seria jornalista aos 9 anos. É cria da casa: antes da Tangerina, estagiou no Notícias da TV, escrevendo sobre filmes e séries.
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