(Foto: Divulgação/Netflix)
A série parece mais interessada em distribuir momentos do que em fechar de forma contundente o arco de quem sempre esteve no centro
Desde a estreia de Stranger Things, a série passou por mudanças claras em seu eixo narrativo. Na primeira temporada, Joyce Byers (Winona Ryder) funcionava como o coração emocional da história, enquanto o mistério do desaparecimento de Will (Noah Schnapp) movia a trama. A partir do segundo ano, esse protagonismo foi sendo gradualmente transferido para Eleven/Onze (Millie Bobby Brown), que se tornou o rosto e o símbolo da produção da Netflix.
Ao longo de quatro temporadas, o público acompanhou a trajetória da personagem como um arco clássico de amadurecimento. Eleven deixou de ser apenas uma arma criada em laboratório para se tornar o centro do conflito entre o mundo real e o Mundo Invertido. Sua jornada sempre esteve ligada a sacrifícios pessoais, perdas e decisões que carregavam o peso de salvar Hawkins repetidas vezes.
Na quinta temporada, porém, Stranger Things promove uma mudança estrutural que acaba tornando Eleven a personagem mais injustiçada da série. Inspirada em uma lógica semelhante à dos filmes dos Vingadores, a narrativa passa a dividir o protagonismo entre vários núcleos, espalhando a ação e os conflitos por diferentes frentes. O resultado é um foco muito mais coletivo, que reduz significativamente o espaço de Eleven como motor da história.
No Volume 2, essa escolha fica ainda mais evidente. Enquanto a personagem assume um papel quase coadjuvante em momentos decisivos, os holofotes se voltam para Will Byers, que ganha centralidade emocional, e para outros personagens que finalmente têm espaço para brilhar. Holly (Nell Fisher) e Max (Sadie Sink) também recebem destaque, reforçando a ideia de um encerramento que busca equilibrar o elenco como um todo.
Noah Schnapp em cena de Stranger Things
Foto: Reprodução/Netflix
O problema é que essa transição acontece justamente no momento em que Eleven deveria colher o peso dramático de sua própria jornada. Depois de uma década acompanhando seu sofrimento, seus traumas e sua responsabilidade constante em salvar o mundo, a personagem vê sua importância diluída na reta final. A série parece mais interessada em distribuir momentos do que em fechar de forma contundente o arco de quem sempre esteve no centro da ameaça.
Para parte do público, essa escolha pode soar como um acerto. Há quem veja valor em dar protagonismo a todo o grupo no encerramento de Stranger Things, evitando que a série dependa de uma única heroína. Para outros, no entanto, a decisão representa uma injustiça narrativa com Eleven, que carregou a história nas costas por anos e agora divide o protagonismo quando mais importava.
Ainda assim, Stranger Things consegue fazer essa transição sem parecer forçada. A estrutura coletiva não surge do nada e dialoga com o crescimento do elenco e da própria mitologia da série. Mesmo injustiçada, Eleven continua sendo peça fundamental para o desfecho, ainda que não ocupe mais o centro absoluto da narrativa.
Com o episódio final marcado para estrear em 31 de dezembro na Netflix, a série ainda tem uma última chance de reequilibrar essa balança. Resta saber se Stranger Things vai corrigir essa injustiça e devolver a Eleven o protagonismo que definiu sua história ou se vai assumir de vez o modelo coletivo inspirado nos grandes eventos do cinema.
Victor Cierro
Repórter da Tangerina, Victor Cierro é viciado em quadrinhos e cultura pop e decidiu que seria jornalista aos 9 anos. É cria da casa: antes da Tangerina, estagiou no Notícias da TV, escrevendo sobre filmes e séries.
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