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Noah Schnapp em cena de Stranger Things

(Foto: Divulgação/Netflix)

Opinião

Stranger Things ignora o arco mais sensível da série no episódio final

Um dos personagens mais importantes da série termina sua jornada com a promessa vaga de um futuro que acontece fora de cena

Victor Cierro
Victor Cierro

O final de Stranger Things prometia encerrar não apenas a batalha contra Vecna (Jamie Campbell Bower), mas também os arcos emocionais construídos ao longo de quase uma década. No entanto, entre despedidas grandiosas e resoluções apressadas, a série deixou para trás justamente uma de suas trajetórias mais delicadas. Will Byers (Noah Schnapp), personagem central desde o primeiro episódio, termina a história sem o fechamento que sua jornada exigia.

[Atenção: esse texto contém spoilers de Stranger Things 5]

Desde que foi levado para o Mundo Invertido na estreia da série, Will passou a carregar um peso constante dentro da narrativa. Sua trajetória sempre se dividiu entre o trauma sobrenatural e um conflito pessoal profundo, ligado à descoberta de sua sexualidade. A quinta temporada parecia caminhar para unir esses dois eixos em um desfecho emocionalmente recompensador, mas a promessa não se concretiza.

Ao longo das temporadas, os sentimentos de Will por Mike Wheeler (Finn Wolfhard) foram desenvolvidos de forma cuidadosa e gradual. Em diferentes momentos, a série associou esse amor não correspondido ao processo de autoaceitação do personagem. A conversa indireta na quarta temporada, mediada por Jonathan (Charlie Heaton), e a postura de apoio de Robin Buckley (Maya Hawke) na quinta indicavam que haveria uma conversa decisiva antes do fim.

Essa expectativa se mantém até perto do episódio final, quando Will se assume para o grupo e admite que já gostou de alguém que não é como ele. Mesmo com a sugestão de que suas memórias estavam sendo influenciadas por Vecna, o roteiro abandona a possibilidade de um aprofundamento real. O reencontro entre Will e Mike se resume a um pedido de desculpas e palavras genéricas de apoio, sem que o sentimento que sustentou esse arco por cinco temporadas seja sequer nomeado.

Noah Schnapp e Finn Wolfhard em Stranger Things

Noah Schnapp e Finn Wolfhard em Stranger Things

(Foto: Divulgação/Netflix)

Stranger Things errou na hora mais importante

Enquanto isso, a série retoma o foco no relacionamento entre Mike e Eleven (Millie Bobby Brown), que volta a ser tratado de forma abertamente romântica no clímax. O contraste chama atenção. Will nunca descobre que foi ele quem pintou o quadro atribuído a Eleven na quarta temporada, nem recebe qualquer reconhecimento por ter sustentado emocionalmente esse triângulo por tanto tempo. Sua história volta a ser empurrada para o plano sobrenatural, como se o lado humano pudesse esperar.

O problema não está na decisão de não unir Will e Mike, mas no momento em que a série escolhe deixar isso claro. Se a intenção sempre foi mantê-los apenas como amigos, o arco deveria ter sido resolvido muito antes. Ao adiar essa definição até o último episódio, Stranger Things cria uma expectativa que não tem espaço para ser trabalhada com cuidado.

A desigualdade fica ainda mais evidente ao observar como a série trata seus casais. Joyce Byers (Winona Ryder) e Jim Hopper (David Harbour) encerram a história noivos. Lucas Sinclair (Caleb McLaughlin) tem uma despedida emocionalmente forte ao salvar Max Mayfield (Sadie Sink). Até relacionamentos que não sobrevivem ao final recebem cenas de fechamento. Já Will, um dos personagens mais importantes da série, termina sua jornada com a promessa vaga de um futuro que acontece fora de cena.

No fim, Stranger Things escolhe mostrar o sofrimento de Will em detalhes, mas deixa sua alegria e sua possibilidade de amor apenas na imaginação do público. Para um personagem que simbolizou tanto a sensibilidade e a vulnerabilidade da série, esse silêncio soa como uma das decisões mais frustrantes de todo o desfecho.

Todas as temporadas de Stranger Things estão disponíveis na Netflix. Assista abaixo ao trailer do último episódio:

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Victor Cierro

Victor Cierro

Repórter da Tangerina, Victor Cierro é viciado em quadrinhos e cultura pop e decidiu que seria jornalista aos 9 anos. É cria da casa: antes da Tangerina, estagiou no Notícias da TV, escrevendo sobre filmes e séries.

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