FILMES E SÉRIES

Superman e Resident Evil são exemplos de como ouvir o público antecipadamente pode ajudar um filme, mas também colocar boas ideias em risco

(Foto: DC/Sony Pictures)

Análise

Superman e Resident Evil mostram o maior problema das sessões-teste

As produções mostram como a opinião de pequenos grupos pode alterar cenas, humor e até a estrutura de grandes filmes antes da estreia

Victor Cierro
Victor Cierro

As sessões-teste são uma das ferramentas mais antigas de Hollywood para descobrir o que funciona antes de um filme chegar aos cinemas. O problema começa quando a reação de um pequeno grupo ganha força suficiente para mudar decisões criativas importantes. Superman (2025) e Resident Evil são dois exemplos recentes de como ouvir o público antecipadamente pode ajudar uma produção, mas também colocar boas ideias em risco.

No novo Resident Evil, Zach Cregger chegou às sessões-teste com uma versão consideravelmente mais engraçada. Os espectadores avaliaram que o longa tinha humor demais, e o diretor decidiu retirar a maior parte das piadas para preservar o terror como elemento principal. Mesmo após pedidos de fãs por um suposto “Cregger Cut”, ele afirmou que a montagem exibida nos cinemas é justamente sua versão definitiva.

Resident Evil mudou, mas Superman resistiu

O resultado de Resident Evil ajuda a defender a decisão. O filme alcançou 96% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes, além de superar US$ 108 milhões (R$ 555 milhões) em bilheteria mundial na estreia diante de um orçamento de US$ 75 milhões (R$ 385 milhões). Ainda assim, o caso levanta uma questão impossível de responder: como seria o longa caso Cregger tivesse mantido integralmente sua proposta anterior?

Superman passou por uma situação diferente. As exibições internas provocaram pequenos ajustes de edição e fotografia adicional, mas uma das discussões mais curiosas envolveu a cena em que o herói interrompe sua ação para salvar um esquilo durante o caos em Metrópolis. Parte das reações considerou o momento desnecessário ou bobo, mas James Gunn decidiu mantê-lo.

A escolha é particularmente importante porque a sequência sintetiza uma característica fundamental desta versão do personagem. O Superman de David Corenswet não mede a importância de uma vida antes de decidir salvá-la. Retirar o esquilo poderia parecer uma mudança mínima isoladamente, mas também eliminaria um pequeno momento que ajuda a definir quem é o protagonista.

Outro ajuste de Superman ocorreu na própria estrutura. Uma versão anterior utilizava cartões indicando os dias da semana para deixar mais evidente que os principais acontecimentos se desenrolavam ao longo de sete dias. Esses letreiros acabaram retirados, enquanto a cronologia de uma semana permaneceu incorporada à narrativa.

David Corenswet em cena de Superman

David Corenswet em cena de Superman

(Foto: DC/Divulgação)

O público nem sempre tem a resposta

É justamente aí que está a limitação das sessões-teste. Elas conseguem identificar problemas de ritmo, humor ou compreensão antes que seja tarde demais para corrigi-los, mas não oferecem uma resposta objetiva sobre como um filme deveria ser. Uma reação negativa também pode atingir justamente uma escolha incomum que diferencia determinada produção das demais.

Resident Evil mostra o lado em que o diretor concorda com o diagnóstico e incorpora as mudanças à própria visão. Cregger não demonstra arrependimento pela retirada das piadas e considera essencial que seu longa funcione primeiro como terror. Superman, por outro lado, mostra por que cineastas também precisam saber quando ignorar esse feedback.

No fim, sessões-teste funcionam melhor como termômetro do que como manual. Elas podem revelar problemas que passaram despercebidos durante meses de produção, mas transformar cada reação em uma ordem corre o risco de tornar filmes menos particulares. Às vezes, aquilo que incomoda uma pequena plateia antes da estreia pode ser exatamente o detalhe que fará outra muito maior se conectar com a história.

Superman segue disponível na HBO Max, enquanto Resident Evil está em cartaz nos cinemas. Assista abaixo ao trailer do novo filme de terror:

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Victor Cierro

Repórter da Tangerina, Victor Cierro é viciado em quadrinhos e cultura pop e decidiu que seria jornalista aos 9 anos. É cria da casa: antes da Tangerina, estagiou no Notícias da TV, escrevendo sobre filmes e séries.

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