GAMES

Pedro Falcão, designer de narrativa de Relic Hunters

Montagem/Tangerina

Entrevista

Do BBB aos games: Pedro Falcão trabalha em jogo da Netflix

Jornalista e ex-participante do BBB 17 foi de representante dos gamers a um desenvolvedor de jogos, e hoje trabalha em Relic Hunters Rebels que integrará o catálogo da Netflix

Jessica Pinheiro

Jessica Pinheiro

Quem acompanha assiduamente o Big Brother Brasil (BBB) talvez se lembre melhor do nome Pedro Falcão. Aos 29 anos, o paulista foi um dos participantes da edição de 2017 do reality show, que teve como vencedora a estudante Emilly Araújo.

Atualmente, quando um participante querido pelo público deixa o BBB, é comum seu rosto estampar campanhas comerciais, ou ainda, que a pessoa invista em uma carreira musical, seja convidada para apresentar programas de TV, participar de outros realities, dentre outras atividades. Falcão, entretanto, foi completamente na contramão.

Após deixar de lado até mesmo a carreira de jornalista que exercia na época, ele se focou no desenvolvimento de jogos. E para falar mais dessa transição e do seu game, Relic Hunters Rebels, marcado para integrar o catálogo da Netflix, a Tangerina conversou com o ex-brother.

Do jornalismo de games para participante de um jogo

Falcão iniciou sua trajetória como jornalista na Vice, em 2010. Posteriormente, agregou ao currículo passagens por outros veículos, incluindo a finada versão brasileira do site especializado em jogos Kotaku, e a editoria de games da Red Bull, que ele ajudou a criar. Nesse período, também produziu o documentário Paralelos, focado em demonstrar a importância da pirataria de jogos no Brasil.

Pedro Falcão

Falcão trabalhou como jornalista cobrindo games em diferentes veículos antes do BBB

Reprodução/Felipe Larozza

A história de como Falcão se tornou um participante do BBB começou em 2016, quando o jornalista realizava apresentações e narrações de campeonatos de games. Além do EVO, principal torneio de jogos de luta do mundo que havia sido televisionado pela primeira vez na história através da ESPN naquele ano, houve também a Capcom Cup, uma competição oficial focada em Street Fighter V.

O local onde aconteceu a final da etapa latinoamericana da Capcom Cup, sediada em São Paulo, foi onde ocorreram também as entrevistas iniciais para a próxima edição do BBB. “Por acaso, no momento em que eu estava lá apresentando, entrou uma produtora da Globo para verificar onde seria a seletiva. E ela me adorou!”, conta Falcão à Tangerina. 

Durante o bate-papo, Falcão detalhou como foi a experiência, revelando até mesmo sua devolutiva à produtora, logo após ter sido abordado: “‘Você já parou para pensar em algum dia participar do BBB?’, e a minha primeira reação (à pergunta dela) foi: ‘e o BBB ainda existe?’”, brinca.

Nessa época, Falcão estava prestes a ser contratado novamente pela Vice, realizando trabalhos freelancer para o veículo. Após oferecer uma reportagem especial onde relataria sua experiência nas seletivas para um reality show, o jornalista passou pelas etapas seguintes com a intenção de concluir a matéria. E foi seu comportamento simpático e interessado que conquistou os produtores.

Pedro Falcão

Com o intuito de produzir uma matéria sobre as seletivas, Falcão acabou sendo escolhido para o BBB 17

Acervo/Pedro Falcão

Ambulância, Estúdios Globo e o experimento social

Como se toda essa situação não fosse maluca o bastante, o dia em que Falcão entrou de fato para o BBB também envolve um acidente de trânsito. Isso porque, no dia em que receberia a produção do programa em sua casa para a última etapa da seletiva, o jornalista caiu de bicicleta durante o trajeto e bateu a cabeça.

Após ser socorrido e levado em uma ambulância, Falcão relata que sua mãe e namorada —hoje esposa, Arielly Costa, mais conhecida como Lelly—, receberam a ligação sobre o acidente enquanto estavam com os produtores da Globo em casa, esperando pela chegada do jornalista. “Comecei a rir muito na ambulância me dando conta do absurdo da situação”, ele relata, revelando que os enfermeiros acreditavam que Falcão estava delirando quando começou a falar de sua participação, praticamente confirmada, no BBB.

O dia seguiu com bastante correria. Depois de receber medicação e pontos no rosto, Falcão voltou para casa com a esposa e recebeu a confirmação de que havia sido selecionado para o BBB 17, mas precisaria ser levado imediatamente. Ele concordou e as fotografias do participante foram tiradas às pressas, escondendo os machucados em sua face. Depois, foi colocado em um Uber, que seguiu para o aeroporto. 

“Eu não lembro de absolutamente nada”, relata Falcão, revelando que não tem memórias sequer de pegar o avião que o levou de São Paulo para os Estúdios Globo, no Rio. Para o jornalista, devido ao recente trauma, o momento em que ele entrou na casa do BBB foi estranho: “Na primeira semana a sensação era a de que eu tinha morrido e de que estava num limbo”.

Pedro Falcão

Morreu, mas passa bem: ex-brother revela que, devido ao trauma do acidente, sentiu como se tivesse em um limbo durante a primeira semana de BBB

Reprodução/Felipe Larozza

Dentro da casa, Falcão detalha como ficou maravilhado com a parte técnica do programa, se atentando às câmeras, aos cenários e provas sendo montados e detalhes desse tipo. Ele também conta que participou ativamente do experimento, aproveitando os bons momentos nas festas e encarando o BBB como um jogo quando era necessário: “Eu tô aqui meio que representando os gamers, vou realmente tentar jogar mais”, afirma o ex-participante. Suas estratégias e o paredão que montou até mesmo lhe rendeu um VT estilo videogame.

Falcão foi o sexto eliminado do BBB 17, e durante a conversa com a Tangerina, ressaltou ainda sobre como as pessoas que fazem parte da produção do BBB são comprometidas para atender “à magia do show”, se esforçando para manter tudo em segredo, desde as seletivas até o andamento do programa. A relação com esses produtores, inclusive, perdura para além da edição de 2017: “Justamente por conta da minha experiência como game designer, eles me chamaram para ser consultor de uma prova no BBB 19”.

O ciclo se completa: Rogue Snail e o jogo Relic Hunters Legend

O experimento impactou bastante Falcão. Com toda a pressão psicológica, momentos de saudades, conflitos e demais comportamentos considerados comuns de participantes do BBB, o então jornalista declara que sua “persona social morreu” no momento em que deixou o programa.

“Eu me descobri muito introspectivo. Tive que voltar um pouco, lembrar da minha jornada pessoal, o que eu gostava e não gostava, e teve esse grande momento que eu larguei uma faculdade de desenvolvimento de games para entrar em jornalismo”, revela Falcão. “Acho que tinha algo que eu precisava completar”.

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Capa de Relic Hunters Legend
Cena de Relic Hunters Legend
Cena de Relic Hunters Legend
Cena de Relic Hunters Legend

Falcão voltou a estudar e, como tinha pouco conhecimento sobre programação e não tinha habilidades artísticas, ele decidiu seguir como game designer. Eventualmente, ele foi abordado por Mark Venturelli, que atuou nessa função nos jogos independentes brasileiros Chroma Squad e Dungeonland

Venturelli convidou Falcão para fazer parte do estúdio Rogue Snail, trabalhando como designer de narrativa de Relic Hunters Legend, um jogo cooperativo online que mescla RPG e tiro para até quatro pessoas. Na época, o projeto tinha apenas alguns meses desde o início de seu desenvolvimento, e contava com um protótipo simples.

Hoje, aos 35 anos, Falcão mora em Sorocaba com a esposa Lelly, e ainda trabalha no projeto com o estúdio Rogue Snail, onde pretende continuar pelos próximos anos. “Essa jornada tá sendo incrível. Parece que eu me encontrei depois de muitos anos. Me trouxe paz”, afirma. “Melhorou muito depois que eu consegui equilibrar esses dois Pedros que existem dentro de mim: o introvertido que gosta de criar, escrever e contar histórias, e o extrovertido”.

Relic Hunters Rebels na Netflix

O projeto Relic Hunters conta com três versões até o momento. O primeiro, Relic Hunters Zero, foi lançado para PC gratuitamente em 2015. O game chegou na época em que títulos do subgênero roguelite e roguelike indie estavam em alta, o que ajudou também na popularização do jogo. Em 2021, recebeu uma remasterização intitulada Relic Hunters Zero: Remix, com novos recursos e melhorias.

Capa de Relic Hunters Zero: Remix

Relic Hunters Zero: Remix - Trailer de lançamento

Distribuído pela Akupara Games, o game é gratuito para jogar

Com o crescimento da comunidade de jogadores, criação de mods e suporte contínuo do estúdio, eis que o Rogue Snail se inspirou em criar Relic Hunters Legend, uma espécie de continuação com opção multiplayer —algo que era amplamente pedido pelos gamers—, além de contar com um novo formato misturando 2D com 3D, sistema de loot, história, e outros recursos.

Na época dos relatos de Falcão, o estúdio tinha apenas oito pessoas e hoje conta com 40. Além de Relic Hunters Zero e Legend, o Rogue Snail lançou ainda Star Vikings Forever, que mistura RPG com quebra-cabeça. Segundo o game designer, existem ainda muitos projetos à vista, previstos para 2022.

Um deles é Relic Hunters Rebels, uma versão exclusivamente mobile do game que chega ao catálogo da Netflix Games em abril, após dois anos em desenvolvimento. O título poderá ser baixado gratuitamente tanto no Android quanto iOS pelos assinantes do serviço de streaming e conta com dublagem em português.

A história gira em torno dos Hunters do jogo, Jimmy, Ace, Pinkyy e Raff, que se juntam a Baru para ajudar tribos guerreiras a encontrar a paz, apesar de suas diferenças, e assim derrotar o império Ducan. O jogador poderá escolher um dos personagens para combater patos e tartarugas do espaço e usar o sistema de loot para fabricar ou melhorar armas de vários tipos e elementos diferentes.

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Capa de Relic Hunters Rebels
Cena de Relic Hunters Rebels
Cena de Relic Hunters Rebels
Cena de Relic Hunters Rebels

Além de Relic Hunters Rebels, a Netflix anunciou recentemente a chegada de mais jogos em seu catálogo no mês de março, incluindo This Is A True Story, Shatter Remastered e Into the Dead 2: Unleashed.

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Jessica Pinheiro

Jessica Pinheiro

Repórter da Tangerina, Jessica Pinheiro já cobriu games e tecnologia em veículos coo IGN Brasil, Loading TV e The Enemy. É streamer nas horas vagas e nasceu no Ceará, mas infelizmente não tem sotaque. Ama karaokê e também assina a Koluna Pop, onde traz todas as novidades do universo do k-pop.

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