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Neal Adams e Batman

Reprodução/Facebook

Luto

Neal Adams, que redefiniu Batman, morre aos 80 anos

O desenhista influenciou gerações com seu estilo de ilustração e foi co-criador de diversos personagens, entre eles um dos primeiros heróis negros da DC

Gabriela Franco

Gabi Franco

Neal Adams, um dos mais influentes quadrinistas da história, morreu na última quinta-feira (28) aos 80 anos. Adams faleceu em decorrência de uma septicemia, infecção generalizada na corrente sanguínea.

A morte do artista foi confirmada por sua esposa, Marilyn Adams, nesta sexta (29), ao site The Hollywood Reporter.

Neal Adams foi responsável pela revitalização visual de alguns dos personagens mais importantes da DC Comics, como o Batman, Lanterna Verde e Arqueiro Verde, conferindo traços mais realistas aos heróis que desenhava. Seu estilo de ilustração se tornou característico especialmente em Batman, por conta da fluidez de movimentos que emprestava à indefectível capa do herói e pelo semblante sisudo com expressões faciais que ultrapassavam a máscara, além das linhas retilíneas do nariz, queixo e orelhas pontudas do Homem-Morcego.

Neal Adams

Traço característico do artista marcou e influenciou gerações

Reprodução/DC Comics

Ele também foi co-criador de John Stewart, que se tornou um dos super-heróis negros mais importantes da editora ao assumir o manto do Lanterna Verde. Também ajudou a criar vilões como Rhas ‘Al Ghul, Morcego Humano e a heroína Harpia (Marvel).

Neal Adams

Primeira aparição de John Stewart como Lanterna Verde

Reprodução/DC Comics

Revolucionário

Adams também é reconhecido por sua luta incansável pelos direitos autorais dos quadrinistas, além de melhores condições de trabalho, sendo porta-voz de muitos, justamente contra gigantes como Marvel e DC Comics para as quais trabalhou. O artista logo percebeu que o direito dos criadores de personagens seria usurpado pelas editoras quando usados em merchandising ou produções audiovisuais e exigiu para si e demais colegas, parte dos lucros quando esses heróis fossem usados fora das páginas dos quadrinhos.

Junto com Stan Lee, formou a Academy of Comic Book Arts, na esperança de criar um sindicato que representasse roteiristas e ilustradores free-lancers ou contratados. A ideia era que a instituição lutasse por direitos e benefícios, ajudando artistas a se organizarem a receberem o justo por seus trabalhos. Lee, no entanto, queria algo menos radical, mais parecido com a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, então os dois se separaram.

Segundo a biografia The Rise and Fall of Stan Lee, de Alan Reisman, ainda não publicada no Brasil, a ação de Adams foi crucial para a conscientização das grandes editoras sobre os direitos dos quadrinistas. No final dos anos 1970, quando a Marvel quis que os artistas freelancers abrissem mão dos direitos autorais sobre os personagens que criavam, Adams rabiscou em todos os contratos que editora distribuiu aos artistas: “Não assine este contrato! Você estará assinando com sua vida!”.

Mudanças em Batman

Neal Adams despontou no mundo dos quadrinhos no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, emprestando aos heróis mais realismo e ajudando a amadurecer os quadrinhos, sempre associados a entretenimento infantil. Começou primeiro na DC com o personagem Desafiador, depois na Marvel com X-Men e Os Vingadores, voltando posteriormente para a DC onde estabeleceu sua influência mais duradoura com seu personagem mais icônico: o Homem Morcego. Em conjunto com o roteirista Dennis O’Neil, revolucionou os quadrinhos do herói, entregando dinamismo, histórias mais sombrias, ajudando a forjar um Batman mais adulto, afastando-o cada vez mais da figura cômica da série de televisão dos anos 1960.

Para isso, criou novos vilões como Ra’s al Ghul, bem como sua filha Talia, que se tornou interesse amoroso de Batman e, posteriormente, mãe de seu único filho, Damian, o atual Robin da cronologia. Pai e filha foram interpretados no cinema por Liam Neeson e Marion Cotillard e foram personagens-chave na trilogia de Christopher Nolan.

Também reformulou o Coringa que, em suas mãos, se tornou menos risível e mais o maníaco homicida que os leitores e espectadores modernos conhecem e amam.

Representatividade e direitos civis

Ainda em dupla com O’Neil, foi responsável por um dos quadrinhos mais corajosos e disruptivos dos anos 1970, na revista dos heróis Arqueiro Verde e Lanterna Verde. Nela, a equipe abordava assuntos controversos como abuso de drogas e álcool, racismo, luta de classes e direitos civis deixando claro, de uma vez por todas, que quadrinhos não eram só para crianças. Foi neste período que também criou o Lanterna Verde John Stewart, que se tornou um dos primeiros heróis negros da DC.

Ainda em meio a este auge criativo, em meados dos anos 1970 que Adams deixou de desenhar para Marvel e DC e criou o Continuity Studios, um estúdio de artistas que produzia quadrinhos, arte comercial e storyboards, entre outros serviços. A divisão de quadrinhos criou personagens independentes como Bucky O’Hare e Ms. Mystic.

Ele também provou ser forte influência entre artistas que acabaram se tornando grandes nomes na indústria. Atuou como mentor de Bill Sienkiewicz, que mais tarde desenhou Cavaleiro da Lua, Novos Mutantes e Elektra Assassina, este último escrito por Frank Miller -aquele mesmo que, mais de uma década depois, reinventaria o próprio Batman inspirado por Adams com O Cavaleiro das Trevas, um divisor de águas dos quadrinhos.

O artista esteve no Brasil durante a CCXP, a maior convenção de quadrinhos do mundo, em 2019, assinando trabalhos e dando palestras, sendo muito acessível à recepção calorosa do público brasileiro.

Neal Adams

HQ de Lanterna Verde e Arqueiro Verde de Dennis O´Neil e Neal Adams

Reprodução/DC

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Gabriela Franco

Gabi Franco

Editora de filmes e séries na Tangerina, Gabi Franco é criadora do Minas Nerds, jornalista, cineasta, mãe de gente, pet e planta. Ex- HBO, MTV, Folha, Globo… É marvete, mas até tem amigos DCnautas.

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