MÚSICA

Gusttavo Lima

Gusttavo Lima (Divulgação)

Polêmica

Tororógate: Como tatuagem de Anitta abalou o mundo sertanejo

Após deboche do Zé Neto (da dupla com Cristiano), diversos contratos de shows sertanejos com verba pública vieram à tona; MP investiga alguns

Luccas Oliveira

Luccas Oliveira

Tudo começou, aparentemente, com uma provocação do sertanejo Zé Neto (da dupla com Cristiano) a uma tatuagem íntima de Anitta. Em um show em 13 de maio, no Mato Grosso, o cantor ainda deu um jeito de associar o desenho ao uso de verbas pela Lei Rouanet. “Nós estamos aqui e não dependemos de Lei Rouanet, o nosso cachê quem paga é o povo. A gente não precisa fazer tatuagem no ‘toba’ para mostrar que a gente tá bem ou não.”

O sertanejo não citou Anitta nominalmente, mas é sabido por muitos —e confirmado pela própria— que a cantora fez uma tatuagem no ânus.

O que Zé Neto talvez não soubesse é que a provocação a Anitta desencadeou uma série de investigações que abalaram a indústria sertaneja. No centro do debate, a relação com o governo Bolsonaro e os cachês com valores acima do mercado pagos em shows de pequenos municípios, com uso de verba pública.

No último sábado, Anitta até fez graça da situação toda. “E eu achando que tava só fazendo uma tatuagem no tororó”, brincou ela.

Está perdide nessa treta? No Twitter, o perfil @nadanovonofront fez um fio compilando os principais acontecimentos do caso. Mas a Tangerina também resume por aqui.

13/5 – Sertanejo cutuca Anitta

No último dia 13, Zé Neto faz o tal comentário alusivo à tatuagem íntima de Anitta. Mas, mais do que a suposta galhofa, o principal aqui é entender que o sertanejo citou que artistas do gênero “não dependem da Lei Rouanet” e que “o cachê quem paga é o povo”.

16/5 – Qual povo paga o cachê?

Diante da repercussão sobre o comentário de Zé Neto, o jornal Extra descobriu que o tal show em que o sertanejo provocou Anitta (e artistas que usam a Lei Rouanet) foi bancado com verba pública. Zé Neto & Cristiano receberam R$ 400 mil para se apresentar em Sorriso (MT).

O discurso do cantor foi visto ainda como um apoio ao presidente Jair Bolsonaro e ao agronegócio, já que Zé Neto fala que o Mato Grosso foi “um dos Estados que sustentou o Brasil durante a pandemia”.

Ainda segundo o Extra, o show foi bancado com dinheiro público através de um contrato “com inexigibilidade de licitação”, ou seja, sem concorrência. E Zé Neto & Cristiano já se apresentaram diversas vezes assim, “com dinheiro desembolsado por prefeituras por meio de contratos sem procedimento licitatório”. Inclusive, em outubro, vão receber R$ 550 mil do município de Extrema (MG).

21/5 – Gusttavo Lima entra oficialmente na história

Gusttavo Lima é um dos artistas mais populares do país, símbolo do sertanejo, e já estava no meio deste debate, mesmo que indiretamente. Afinal, em 14 de abril, Bolsonaro levou ao seu palanque o pai de Gusttavo, Alcino Lima, em Minas Gerais.

O cantor até tentou se manter discreto, mas, com a pressão criada pela polêmica, passou a se manifestar. No dia 21, num show em Brasília, o locutor Cuiabano Lima bradou frases como “aqui nunca vai ser o comunismo” durante a apresentação de Gusttavo Lima.

No dia 27, Gusttavo iria ainda mais longe no apoio público, quando um helicóptero do frigorífico do qual é proprietário sobrevoou a comitiva de Bolsonaro em Goiás, adornado com uma foto do presidente batendo continência.

24/5 – Valor de show público de Gusttavo Lima é alvo

Antes do dia 27, porém, Gusttavo Lima já tinha ido parar de vez no meio da confusão gerada pelo amigo sertanejo Zé Neto e, mal ou bem, pela tatuagem de Anitta. No dia 24, veio à tona que o cantor vai receber R$ 800 mil por um show que será realizado em São Luiz, menor município de Roraima.

A cidade tem apenas 8.232 habitantes e, segundo levantamento da Agência Cenarium, “apenas o cachê de Gusttavo Lima equivale a R$ 97,11 para cada morador de São Luiz, considerando bebês, crianças e idosos”.

Mais uma vez, a produtora do cantor foi contratada sem um processo de licitação. A reportagem lembra ainda que Gusttavo Lima também tinha recebido R$ 850 mil da prefeitura de Santa Terezinha de Itaipu, no Paraná. A título de comparação, o DJ Alok recebeu R$ 250 mil, e o cantor Frejat, R$ 144 mil.

29/5 – Ministério Público entra no caso

Diante da repercussão negativa, outro show veio à tona. A prefeitura de Conceição do Mato Dentro (MG) optou por cancelar o contrato de R$ 1,2 milhão que tinha firmado com Gusttavo Lima —e, de quebra, um de R$ 520 mil da dupla Bruno & Marrone.

O cancelamento foi a uma reação à reportagem da Folha de S.Paulo, publicada dois dias antes. Segundo o jornal, a prefeitura “usou uma verba destinada a saúde, educação, ambiente e infraestrutura” para pagar o show.

O Ministério Público de Minas Gerais entrou no caso e afirmou à Folha que faz uma apuração preliminar para investigar se houve irregularidade.

29/5 – Empréstimo de R$ 320 milhões do BNDES

No domingo, passou a circular nas redes sociais uma informação publicada pela revista Veja em dezembro passado. Desde aquele período, as carreiras de Gusttavo Lima e de outros sertanejos como Cesar Menotti e Fabiano têm sido geridas por uma empresa de investimentos chamada One7 (vale lembrar que Jair Bolsonaro se elegeu presidente com o número 17).

A empresa detém uma fatia do FIC FIDC XP Brasil MPME, fundo que recebeu R$ 320 milhões de um edital do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). E a One7 “lançou um fundo [Four Even] de direitos creditórios que adianta o pagamento de espetáculos a artistas, com desconto, e depois embolsa o valor cheio pago por quem contrata os shows”.

Embora as notícias sejam verdadeiras, o empréstimo de R$ 320 milhões não tem nenhuma relação com as apresentações dos artistas. Conforme a One7 explicou ao UOL, o aporte do BNDES foi decidido em 2020, um ano antes da parceria do fundo Four Even com Gusttavo Lima e outros artistas. O dinheiro é voltado para o crédito de pequenas e médias empresas.

30/5 – Show no Rio é investigado

O capítulo mais recente da polêmica aconteceu no Rio de Janeiro, Estado de Anitta, envolvendo o sertanejo Gusttavo Lima, mais um vez. Segundo a Folha de S.Paulo, agora é o Ministério Público do RJ quem investiga uma contratação de show do cantor.

Desta vez, a apresentação será em Magé, com um investimento de R$ 1 milhão, sem licitação. De acordo com o jornal, “a contratação, embora a princípio não seja ilegal, chamou atenção do MP porque o cachê é dez vezes maior que o valor que a Prefeitura de Magé deve investir em atividades artísticas e culturais durante o ano todo”.

O cantor chorou em um vídeo no Instagram e reclamou por estar “levando muitas pancadas”. “Estou sofrendo perseguições na minha vida pessoal e profissional. Estou cansado, quase jogando a toalha. É triste ser tratado como um criminoso, um bandido”, desabafou. “Não é por ser uma prefeitura que eu vou deixar de cobrar o meu valor. Eu também tenho minhas contas para pagar. Não é por fazermos música que precisamos receber menos.”

Vale lembrar que tanto os investimentos via Lei Rouanet quanto contratações sem processo de licitação (conforme critério da Lei Federal 8.666/1993 vigente até 31 de dezembro deste ano) são previstos em lei. A polêmica só virou uma questão quando Zé Neto, ao implicar com Anitta, fez parecer que os sertanejos não recebem dinheiro oriundo de verba pública.

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Luccas Oliveira

Luccas Oliveira

Luccas Oliveira é editor de música na Tangerina e assina a coluna Na Grade, um guia sobre os principais shows e festivais que acontecem pelo país. Ex-jornal O Globo, fuçador do rock ao sertanejo e pai de gatos, trocou o Rio por São Paulo para curtir o fervo da noite paulistana.

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