MÚSICA

Capa de Clube da Esquina, parceria entre Milton Nascimento e Lô Borges

Divulgação/EMI

Lista

10 discos pra entender por que 1972 foi um dos melhores anos da MPB

Há 50 anos, a indústria musical brasileira entrava numa era de ouro, e uma geração de novos artistas desabrochava, guiada pela bossa-nova e com uma coleção de discos clássicos no forno

Nicolle Cabral

Nicolle Cabral

No ano de 1972, a música brasileira estava fervilhando. Os discos nacionais lançados naquele início de década narram uma parte da história do país com referências sonoras ousadas, versos pulsantes e confessionais. Entre eles, está Transa, o segundo disco no exílio londrino de Caetano Veloso. O álbum traz um dos primeiros acenos à sonoridade jamaicana, que crescia timidamente em meio ao terreno psicodélico pavimentado pelo quarteto mais famoso de Liverpool, os Beatles.

Em Nine Out of Ten, uma das faixas de destaque do disco, o músico cita o reggae que ouvia na Portobelo Road, em Londres, com o apoio instrumental de um violão e uma bateria. A fusão sonora remete ao ritmo tropical disseminado mundialmente anos depois por Bob Marley.

Do outro lado estava o canto revelador de Elis Regina, que a consagrou como uma das intérpretes mais célebres da música brasileira. Foi em Elis que a cantora emplacou as Águas de Março, composição de Tom Jobim, entre as 15 músicas mais ouvidas daquele ano nas principais rádios do país.

Além dos voos (quase) solo, o Brasil viu o florescer das guitarras agitadas e inventivas dos Novos Baianos, sob a supervisão do mestre João Gilberto, guia espiritual e sonoro do grupo. Enquanto isso, Milton Nascimento e Lô Borges também partiam para um “retiro criativo”, onde um dos discos mais simbólicos da música brasileira surgia, alçado pela EMI.

Do rock à bossa-nova, esses discos nacionais lançaram as bases sonoras da década de 1970, que ainda reverberam nas criações musicais contemporâneas. Não por acaso, o ano de 1972 pode ser considerado um dos melhores anos da MPB, com uma produção difícil de igualar.

Ao refletir sobre essa era de ouro da indústria fonográfica, a Tangerina separou os dez discos nacionais mais importantes que completam meio século em 2022.

Transa — Caetano Veloso

Transa é o primeiro disco de Caetano a ser gravado em formato de grupo. A banda, liderada pelo diretor musical Jards Macalé, incluía Moacyr Albuquerque (baixo), Áureo de Souza (percussão) e Tutty Moreno (bateria). À frente dela, Caetano e Jards também contribuíram com dedilhados mágicos no violão.

Naquele ano, o tropicalista seguia exilado em Londres, mas com outra ideia de Brasil —e de si mesmo—, enquanto compunha as canções do álbum. Se no registro que leva seu nome, de 1971, as confissões soavam soturnas e introspectivas, em Transa, Caetano expande os versos com temperos do samba, funk, rock, jazz e também do reggae.

Dessa imersão rítmica, surgiram composições costuradas a trechos musicais de figuras nacionais como Luiz Gonzaga (Hora do Adeus), Dorival Caymmi (Consolação e A Lenda do Abaeté) e Edu Lobo (Reza). O disco é considerado uma das obras mais sólidas e expressivas de Caetano, além de marcar presença em listas de melhores discos nacionais. O vinil é cobiçadíssimo por colecionadores e ganhou recentemente reedições na Rússia e na Espanha.

Capa de Transa, disco de Caetano Veloso

It's A Long Way - Caetano Veloso

Expresso 2222 — Gilberto Gil

Diferente dos acenos de Caetano à terra natal, Gil refrescou a cabeça dos brasileiros em Expresso 2222 com reverências ao forró, xote e frevo. O baiano se dedicou a gravar composições clássicas do nordeste para refletir sobre o próprio Brasil: João do Vale (O Canto da Ema), Onildo Almeida (Sai do Sereno, cantada por Gal Costa) e Sebastião Clarindo Biano (Pipoca Moderna) são resgatados no registro.

Na banda, Lanny Gordin (guitarra), Bruce Henry (baixo), Tutty Moreno (bateria) e Antônio Perna (piano e percussão) sacudiam o rock baiano cantado por Gil. Ao longo do álbum, o uso de instrumentos de percussão nordestina (agogô, pífano, triângulo, zabumba) e a sanfona brilham aos ouvidos. Isso sem ofuscar o brilho do artista baiano, acompanhado apenas do violão nas canções Eu e Ele, O Sonho Acabou e Oriente. Com menção honrosa a Back in Bahia, um dos melhores momentos do disco.

Capa do disco Expresso 2222, de Gilberto Gil

Back in Bahia - Gilberto Gil

Novos Baianos — Acabou Chorare

Da comunidade hippie formada em Jacarepaguá por Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão, Baby Consuelo e Moraes Moreira (1947-2020) nasceu um dos discos mais importantes da música brasileira: Acabou Chorare.

Ao lado de Jorginho Gomes, Dadi Carvalho, Bola e Baixinho e com a mentoria de João Gilberto (amigo de infância de Galvão), o grupo encontrou o equilíbrio sonoro entre o rock ácido dos anos 1970 e a melódica batida da bossa nova.

Dessa combinação ímpar, surgiram hits que ecoam na memória da música nacional, como Mistério do Planeta, Preta Pretinha, Tinindo Trincando, Besta é Tu, A Menina Dança e a refrescante versão de Brasil Pandeiro (Assis Valente).

Ao transitar alegremente pelo forró psicodélico e explorar elementos de percussão afro-brasileira, o quinteto conquistou ficou no topo da lista de melhores discos nacionais segundo a revista Rolling Stone Brasil.

Capa do disco Acabou Chorare, dos Novos Baianos

Mistério do Planeta - Novos Baianos

Clube da Esquina — Milton Nascimento e Lô Borges

Travessia, de 1966, já havia estabelecido Milton Nascimento como um dos principais artistas daquela geração. O nome do mineiro era sinônimo de qualidade, e Milton estava envolvido em gravações de trilhas sonoras para filmes e numa turnê com o grupo Som Imaginário.

No início dos anos 1970, o artista quis revisitar canções que havia escrito ao lado de amigos da capital mineira e criar novas melodias para elas. Com isso, convenceu a gravadora EMI a lançar um disco duplo —feito inédito no Brasil.

Para dar início à nova produção, Milton escolheu passar uma temporada na sua casa de praia de Piratininga, em Niterói. Os companheiros da aventura foram Lô Borges, irmão caçula do letrista Márcio Borges, e o guitarrista Beto Guedes.

Juntos, eles se aprofundaram em ritmos presentes nas celebrações de matriz africana (do congado ao candomblé) e criaram hits indiscutíveis como Cais, O Trem Azul, Um Girassol da Cor do Seu Cabelo e Nada Será Como Antes.

Clube da Esquina não chegou a ser o primeiro álbum duplo —o registro ao vivo Fa-tal, Gal Costa a Todo Vapor saiu antes e levou o mérito—, mas ficou registrado como um dos melhores discos nacionais.

Capa de Clube da Esquina, parceria entre Milton Nascimento e Lô Borges

Trem de Doido - Clube da Esquina

Lô Borges — Lô Borges

No embalo do sucesso de Clube da Esquina, Lô Borges foi convidado pela gravadora EMI a lançar um disco solo ainda em 1972. Mesmo que o convite fosse muito atraente, o cantor e compositor se viu em um impasse: ele tinha gastado todas as suas canções na parceria com Milton.

O estreante então convidou o irmão Márcio, a trupe do Clube da Esquina (Beto Guedes, Toninho Horta e Nelson Ângelo) e outros músicos, como Flávio Venturini, Novelli, Vermelho, Danilo e Dorival Caymmi, para uma espécie de “oficina criativa”.

O ritmo de criação foi, no mínimo, frenético. Enquanto Lô se apoiava no violão pela manhã, o irmão se inspirava liricamente à tarde. À noite, gravavam todos juntos. Do processo, saíram 15 canções guiadas pelas influências roqueiras do artista e pela psicodelia dos anos 1970. Apesar de levar o nome de Lô, o álbum é popularmente conhecido como “disco do tênis”, pela foto da capa.

Capa do disco homônimo de Lô Borges

Eu Sou Como Você É - Lô Borges

Jorge Ben — Ben

Nos anos 1960, Ben Jor não largou o violão. Dedicado a desafiar a própria versatilidade, flertou com vários ritmos, desde a bossa nova, o samba jazz e a jovem guarda até, claro, a tropicália. Na década seguinte, os movimentos não foram diferentes, mas a atitude do artista, sim.

No disco de 1972, batizado de Ben, ele aparece à vontade com um cabelo black power, óculos ousados e com as roupas todas brancas. O registro se tornou um cartão de visitas da carreira do artista e é apontado como um dos melhores discos nacionais de todos os tempos.

Estão nele os clássicos Fio Maravilha, Morre o Burro Fica o Homem, Domingo 23, Caramba, Moça, Que Nega é Essa?, Paz e Arroz e Taj Mahal (anos depois, plagiada por Rod Stewart). Ben abriu os caminhos para a psicodelia dos discos posteriores do artista, como Tábua de Esmeraldas (1974) e Solta o Pavão (1975).

Capa do disco Ben, de Jorge Ben Jor

Taj Mahal - Jorge Ben

Elis — Elis Regina

Ao lado do diretor artístico Roberto Menescal, Elis separou um conjunto de canções refrescantes e ousadas para interpretar em 1972. Muitas delas, inclusive, viraram clássicos pelo encaixe sensível de seu vocal às composições de Tom Jobim (Águas de Março), Aldir Blanc e João Bosco (Bala com Bala), Milton Nascimento (Cais), Belchior, Fagner (Mucuripe) e mais.

Com o auxílio de Luizão Maia como baixista, Hélio Delmiro na guitarra e Paulo Braga na bateria, a intérprete entrou na década com a segurança de quem seria um dos maiores nomes da MPB.

Capa do disco Elis, de Elis Regina

Nada Será como Antes - Elis Regina

Odair José — Assim Sou Eu…

No final dos anos 1960, Odair José queria fazer um disco livre de amarras das gravadoras. Portanto, rompeu o contrato com a CBS, que obrigava o músico a gravar com a mesma banda de Roberto Carlos.

Homem livre, chamou Waltel Branco (maestro e arranjador), José Roberto Bertrami (piano), Alex Malheiros (baixo) e Ivan Conti, o Mamão (bateria) para tocarem juntos. A reunião acabou formando o grupo Azymuth, um marco na carreira de Odair e na história da música nacional. Do outro lado, Luiz Cláudio Ramos (que viria a ser diretor musical dos discos de Chico Buarque) e Hyldon dividiram o violão e a guitarra. Todos esses elementos se juntaram para a construção de Assim Sou Eu…, um disco pop, romântico e melancólico.

Deixa Essa Vergonha De Lado, Cadê Você?, Uma Vida Só, Assim Sou Eu… e Eu Queria Ser John Lennon são algumas das criações que brilharam no registro.

Capa do disco Assim Sou Eu, de Odair José

Eu Queria Ser John Lennon - Odair José

Paulinho da Viola — A Dança da Solidão

A Dança da Solidão é um dos maiores discos de samba da música brasileira. Nele, Paulinho da Viola pôde trabalhar simultaneamente a dualidade de suas emoções com músicas melódicas (Guardei Meu Violão, Acontece, de Cartola, e a faixa-título) e destilar a energia carnavalesca em No Pagode do Vavá, Papelão e Falso Moralista, de Nelson Motta.

Envolvente e afetivo, o músico usou da proximidade que teve com Hermínio Bello de Carvalho, Carlos Cachaça, Cartola e Candeia para desenvolver um canto aveludado e aproximar o samba do jazz de maneira sofisticada e hipnotizante.

Capa do disco de Paulinho da Viola, A Dança da Solidão

Coração Imprudente - Paulinho da Viola

Elza Soares — Elza Pede Passagem

Depois de morar um ano na Itália, Elza (1937-2022) lançou um disco para sinalizar o retorno à indústria fonográfica. O penteado black power e o requebrado da artista, na capa, antecedem a chegada poderosa de Elza Pede Passagem.

Para além disso, ela preparou um repertório inédito, com regravações de parceiros musicais e recheado de sambas, como Mais do que eu (João Nogueira, 1972), O gato (Gonzaguinha, 1972) e Pulo, pulo (Jorge Ben Jor, 1970).

A sonoridade se manteve na bossa negra de Elza, mas com influências do soul e principalmente do funk. Arranjado pelo pianista Dom Salvador e com direção musical do maestro Lindolfo Gaya (1921–1987), o disco marca o início de outro momento da carreira da artista. O que, inclusive, pavimentou o caminho até a chegada retumbante de A Mulher do Fim do Mundo.

Elza Soares posa en foto da capa de Elza Pede Passagem, disco que marca o retorno da cantora ao Brasil

Saltei de Banda - Elza Soares

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Antes de ser repórter da Tangerina, Nicolle Cabral passou por Rolling Stone, Revista Noize e Monkeybuzz. Nas horas vagas, banca a masterchef para os amigos, testa maquiagens e cantarola hits do TikTok.

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