MÚSICA

Imagem do clipe original de Envolvimento, de MC Loma e as Gêmeas Lacração

Reprodução/YouTube/MC Loma

Lista

Deram onda: 15 hits do verão do século 21 para começar seu rebolation

Uma viagem no tempo por algumas das sensações musicais que marcaram a estação mais quente do ano no pós-axé music

Lucas Prata

Lucas Prata

“Música do Carnaval!”, grita Márcio Victor, o genial percussionista e cantor baiano em todo lançamento que sua banda, o Psirico, faz às vésperas do verão e da festa popular. A fala é aquela forçadinha de barra para a realização do sonho de qualquer artista mainstream desse Brasilzão: tomar de assalto as caixinhas JBL nas areias, as jukeboxs dos risca facas e os alto falantes dos comércios populares do país na estação que tem cheiro de suor. 

Tentar cravar todos os anos como uma música se consagra como hit do verão e ganha a sua segunda coroa de música do Carnaval, porém, é desses exercícios que jamais encontrarão uma resposta satisfatória. 

Há casos como Já Sei Namorar, dos Tribalistas, a música do verão de 2003, planejada milimetricamente para estourar, com muita grana envolvida em produção e divulgação. Mas também (e principalmente) sucessos feitos no improviso, que pegam o povo desprevenido. É o caso de Envolvimento das pernambucanas MC Loma e As Gêmeas Lacração. Dá até para captar indícios de como algumas das músicas chegam lá, mas jamais uma fórmula pronta. 

Convite à dança, narrativa inusitada, expressão grudenta, batidas marcadas, duplo sentido, coreografia curiosa, aquela safadeza e alguma dose de amor sempre fazem sucesso. Mas não adianta: há um quê de cair no gosto popular e virar hit do carnaval que não se explica. 

A atual postulante a hit do verão —Malvadão 3, do rapper Xamã— já ganhou centenas de versões de cantores de pisadinha, bregadeira e funk. Enquanto ouvia todas, vasculhei a minha memória afetiva. Assim saiu um ranking das 15 músicas do verão que mais me cativaram desde que o prometido bug do milênio não aconteceu. Vem comigo:

15 – Naldo Benny – Amor de Chocolate (2013)

Toda vez que essa música tocava, eu divagava sobre a tão nobre questão alçada pelo funkeiro do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. “Vodca ou água de coco: que comparação é essa?” 

Para Naldo tanto fazia. A divagação introduzia a canção que em janeiro de 2013 desbancou Gangnam Style, do sul-coreano Psy, a música mais tocada da história do YouTube até então, e Esse Cara Sou Eu, do Rei Roberto Carlos, entre as faixas mais baixadas da iTunes Store. A propósito, me diga uma coisa: você cantava “autoestima” ou “alto, em cima”? 

14 – Thiaguinho MT, Milla e JS O Mão de Ouro – Tudo Ok (2020)

Este bregafunk marcou a transformação do TikTok como balizador de qualquer sucesso de grandes proporções no Brasil a partir de então. O MC pernambucano Thiaguinho MT se inspirou em um tuíte de um rapaz que dizia que seu ex-namorado iria “pagar pelo mal que ele fez”. Já o DJ JS O Mão de Ouro fez a melodia com batidas extremamente marcadas e respiros que ajudavam a encaixar os cortes rápidos de edição do aplicativo. 

O sucesso chegou a partir do challenge na rede social de vídeos postado por Neymar, Bruna Marquezine e outras feras influentes.

Tudo Ok viralizou no TikTok

Veja uma compilação de vídeos de usuários que aderiram ao challenge

13 – Petter Ferraz e Menor Nico – Amor ou Litrão (2021)

O primeiro verão da pandemia foi marcado pela voz tão estridente quanto carismática de um adolescente em plena puberdade. O baiano Menor Nico viralizou ao cantar do seu jeito peculiar uma canção do grupo sergipano Unha Pintada. 

O produtor de funk Petter Ferraz foi de carro de São Paulo até a pequena Antônio Cardoso, no interior da Bahia, para gravar de maneira caseira os versos “E aí, qual vai ser? Agora tu vai ter que escolher. Ou eu ou a cachaça. Se decide, bebê” com o garoto meme. 

A inusitada (pra não chamar de incompreensível) dicção com que o Nico cantava popularizou nacionalmente a bregadeira, gênero eletrônico que bomba nos paredões do sertão.

12 – Rapazolla – Coração (2006)

Dorgival Dantas é uma das maiores canetas da história do forró eletrônico. No São João de 2005, a sua chorosa “Coração” tinha explodido em todo Nordeste na voz dos carismáticos Xand e Solange Almeida, do recém-nascido Aviões do Forró. 

O pessoal do Rapazolla seguiu à risca aquilo que, três décadas antes, Dominguinhos já dizia para Gilberto Gil —“reggae é um xotezinho muito do safado”— e percebeu que fazer do forró Coração um axézinho puxado para o ritmo jamaicano daria certo. A música, enfim, ficou conhecida em todo o Brasil na voz de Tomate, o homem do cabelo vermelho.

Coração, para que se apaixonou?

Relembre o grande hit do Rapazolla que dominou o verão brasileiro em 2006

11 – Latino – Festa no Apê (2005)

No ano de 2003, o saudoso eurodance, o gênero eletrônico que povoou as rádios pops nos anos 1990 e que aqui no Brasil recebeu a gostosa alcunha de poperô, ainda era influente. Dragostea Din Tei do conjunto romeno O-Zone explodia pelas Ibizas da vida e chegava ao topo das paradas de toda Europa. Latino, que desde sempre teve faro para o sucesso, pediu autorização para fazer uma versão brasileira. 

Inspirado em uma festa que rolou na casa de uns amigos em que, por conta de uma crise de sinusite, ficou sóbrio a noite inteira reparando no comportamento dos presentes, escreveu este convite à esbórnia.

10 – MC G15 – Deu Onda (2017)

Cria de Duque de Caxias, Gabriel Paixão Soares, o MC G15, se mudou para São Paulo na época em que o mercado do funk paulistano se firmava como mais lucrativo que o carioca. Explorando o beat rasteirinha, mais lento e com espaços para extensão de notas, criou Deu Onda, em uma homenagem, digamos, apimentada para sua namorada da época. A versão proibidona foi a primeira a estourar. Quando a versão light, sem as expressões sexuais, ganhou clipe no KondZilla, a sua presença no YouTube deu onda. 

9 – LevaNóiz – Liga da Justiça (2011)

Certa feita, Márcio Vitor, o Mr. Psirico, sugeriu para um popular compositor de pagodão baiano de nome J. Romero a criação de uma música sobre os super-heróis da Liga da Justiça. O inusitado tema rendeu uma letra que insinua um certo siricutico entre a Mulher Maravilha e o Superman. Márcio declinou da ideia de gravá-la, e a música foi oferecida a uma pequena banda de pagodão do bairro de Cajazeiras, em Salvador, a LevaNóiz. 

Em poucos dias, virou a canção mais pedida nas rádios da cidade. Seu cantor, André Rhamon, apareceu vestido de super-herói em todos os programas de auditório do Brasil. 

Esse clipe é puro suco de Brasil

O Superman ficou fraco, Pinguim jogou kriptonita; Lex Luthor e Coringa roubou o laço da Mulher Maravilha...

8 – Parangolé – Rebolation (2010)

Um jovem enorme girando sua pelve em uma canção cuja letra não fazia qualquer sentido. Ela te convidava a fazer um tal de rebolation. Foi assim que Léo Santana se apresentou ao Brasil. Aquele seria o hit de verão que cravou o pagodão como o sucessor natural do já moribundo axé music entre as produções musicais soteropolitanas. A partir dali, praticamente tudo que veio de Salvador direto para as paradas nacionais foi do gênero ou influenciado por ele.

7 – MC Créu – Dança do Créu (2008)

Quando era adolescente, o carioca Sérgio Costa, o MC Créu, sonhava em produzir funk, mas não tinha condições de comprar os equipamentos para isso. Enviou mais de 2000 cartas para a Porta da Esperança, do Programa Silvio Santos. O apresentador acabou realizando o seu sonho. Quase duas décadas depois, Créu voltou ao programa. Agora, o MC cantava o hit que apresentou para o mundo a Mulher Melancia, a primeira dançarina a carregar a alcunha de “mulher-fruta”, uma profícua dinastia que dali progrediu na velocidade cinco.

6 – MC Loma e as Gêmeas Lacração – Envolvimento (2017)

“Esse hit é chiclete e na sua mente vai ficar”. A frase era cantada por Paloma Roberta Santos, a MC Loma, uma jovem de Jaboatão dos Guararapes (PE), de apenas 15 anos na época. E funcionou como presságio. Por mais que ela jamais imaginasse que ficaria famosa (seu grande sonho era poder comer um McDonald’s), ao quebrar um galho para um amigo produtor de bregafunk, acabou dando o empurrão para que o gênero pernambucano se popularizasse. 

O clipe amador virou um fenômeno e o Brasil ficou tentando entender que raios significava “escama só de peixe, cêbruthius”.

GIF mostra MC Loma e as Gêmeas Lacração no clipe de Envolvimento

Escama só de peixe. Cêbruthius!

Reprodução

5 – Michel Teló – Ai Se Eu Te Pego (2012)

Era um jogo do Real Madrid contra o Málaga. Bola alçada na área e Cristiano Ronaldo sozinho botou para dentro. Na comemoração, o melhor jogador do mundo na época dançou Ai Se Eu Te Pego em pleno Santiago Bernabéu. 

Para além de consolidar a nova era do sertanejo no imaginário nacional, a faixa virou não só um hit do verão, mas um sucesso global. Michel Teló havia ouvido a música cantada pelo grupo de forró Cangaia de Jegue em uma festa de São João, em Salvador. 

Entrou em contato com a autora, Sharon Aciolly, uma animadora de palco da barraca de praia Axé Moi, de Porto Seguro. Ela tinha escrito a canção a partir de uma brincadeira que estudantes paraibanas fizeram por lá. Uma piada entre amigas criada em uma excursão na Disney inspirou o sexto single mais vendido do mundo de 2012.

4 – Gabriel Diniz – Jenifer (2019)

Para além do carisma, Gabriel Diniz era tratado como uma joia no mercado fonográfico. Nascido no Mato Grosso do Sul mas criado na Paraíba, personificava o intercâmbio entre o forró eletrônico e o sertanejo. Ele batia com as duas pernas com absoluta tranquilidade. Jenifer, a divertida música sobre a garota do Tinder, marcava bem essa capacidade de passear pelos gêneros. 

Uma pena que esse foi seu único grande sucesso nacional, já que meses depois Gabriel se tornava vítima de um fatídico acidente de avião.

Gabriel Diniz e a atriz Mariana Xavier no clipe de Jenifer

Relembre o clipe do hit Jenifer

Gabriel Diniz fez o Brasil cantar seu sucesso meses antes de sua morte trágica

3 – MC Leozinho – Ela Só Pensa em Beijar (Se Ela Dança, Eu Danço) (2007)

Eu tenho uma saudade danada do funk melody. O subgênero carioca mais melodioso e sedutor anda desaparecido nas produções contemporâneas da nossa mais original música eletrônica. Um dos últimos exemplares a explodir foi Ela Só Pensa em Beijar do ex-chapeiro de padaria Leonardo. 

O sucesso contou com uma ajudinha do Ronaldo Fenômeno. Nosso craque interrompeu uma entrevista coletiva para atender o celular. O toque era a canção do MC Leozinho que, de tanto ser executada depois da cena, virou canção obrigatória de casamentos e festas de firma. Quando o DJ é bom já emenda com Tremendo Vacilão, da Perlla.

2 – Bonde do Tigrão – Cerol na Mão (2002)

A coletânea Tornado Muito Nervoso Vol. 2, da equipe de funk Furacão 2000, é uma espécie de santo graal do ritmo carioca. Eu duvido que haja um brasileiro vivo na época que não tenha sido impactado por Cerol Na Mão, do Bonde do Tigrão. Ou ainda pelos outros sucessos do disco tocados à exaustão em programas de auditório com bailarinas vestindo calça da Gang e MCs com seus shorts da Bad Boy. 

O produtor Dennis DJ (sim, o próprio) e seu patrão, Rômulo Costa (dono da Furacão), tiveram que pagar indenização ao grupo belga Front 242 por terem usado o sample da música sem autorização.

1 – Psirico – Lepo Lepo (2014)

Comecei essa viagem no tempo com Márcio Victor e vou terminar com ele. Lepo Lepo é o meu maior xodó entre os hits do verão deste século. Anos antes da batida do arrocha ter virado hype entre grupos como Afrocidade e Attooxxa, o Psirico a trazia para o seu pagodão através de uma letra divertida sobre um sujeito preocupado se sua mulher continuaria com ele em um momento em que estava sem nenhum tostão. 

Seu único seguro era fazer bem o Lepo, Lepo. Impossível não se solidarizar com o eu lírico, se contagiar com a expressão introduzida por aquele marcante “ra, ra, ra, ra” que facilitava a coreografia e se amarrar naquele sax tão cafona quanto aconchegante.

Márcio Victor, do Psirico, em apresentação ao vivo de Lepo Lepo

Faça mais uma vez a coreografia de Lepo Lepo

É impossível você não ter dançado essa pelo menos uma vez na vida

Vai dizer que você não pensou “caramba, dancei muito esse daí” para algum dos hits do verão aqui? E olha que deixei de fora Já Sei Namorar dos Tribalistas, Tô Nem Aí, da Luka, Gordinho Gostoso, do Neto Lx, e Metralhadora, da Banda Vingadora. Será que Malvadão 3, do Xamã, terá espaço em uma próxima atualização?

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Lucas Prata, o Caju, é sergipano morador do Rio, se criou atrás do trio elétrico, vendo escola de samba na TV, ouvindo forró na rádio e sonhando com a MTV. Escreveu sobre música na Época e acredita que Jorge Ben é a maior prova que Deus existe.

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