MÚSICA

Montagem com fotos de Seo Taiji & The Boys, Girls' Generation, BTS e Aespa, representantes das quatro gerações do k-pop

Fotos de divulgação

Linha do tempo

Linha do tempo da onda coreana: Entenda como o k-pop dominou o mundo

A história da música pop sul-coreana é dividida em quatro gerações e tem seu sucesso diretamente ligado ao incentivo do governo

Gabriela Ferreira
Gabriela Ferreira

Quem nunca acompanhou o k-pop de perto talvez se assuste com os números enormes que BTS, Blackpink e outros artistas do gênero alcançam atualmente. Recordes de vendas de álbuns físicos são atualizados constantemente, enquanto o número de visualizações de clipes do YouTube e a presença nas principais paradas musicais do mundo seguem surpreendendo a indústria musical. Mas a história do k-pop não chegou nesse patamar só com fãs divulgando seus grupos favoritos com edits no Twitter.

Saiba o significado de edits e de muitos outros termos no nosso glossário do k-pop

Na real, o governo sul-coreano investe na indústria cultural desde o final dos anos 1990 e esse é um dos principais fatores para o k-pop ser um dos gêneros musicais mais consumidos da atualidade. Vem que a gente te explica como o investimento na cultura fez com que a Coreia do Sul se tornasse a potência que ela é hoje:

Primeira geração

Depois de anos de baladas e de trot (gênero de música pop coreana), o trio Seo Taiji & The Boys estreou em 1992. Ali começava a primeira geração do k-pop. Pioneiros em incorporar o rap no pop coreano, o grupo trouxe para a indústria o new jack swing e uma forte influência da música norte-americana. A iniciativa abriu espaço para que outros grupos fizessem o mesmo. 

Apresentação ao vivo do trio Seo Taiji & The Boys, pioneiro do k-pop na década de 1990

Veja apresentação do Seo Taiji & The Boys na TV em 1992

Trio é considerado pioneiro do k-pop

Ao lado de Seo Taiji & The Boys, os grupos H.O.T, Sechs Kies, S.E.S, Shinhwa e os solistas BoA e Rain foram as sensações da primeira geração do k-pop. Essa galera foi muito influenciada pelo hip hop, tanto na música quanto na moda. A maioria dos grupos masculinos se vestiam como as boybands da época (N’Sync e Backstreet Boys, principalmente), com calças largas, camisetas enormes, correntes, e por aí vai. Já as mulheres se vestiam bem casualmente e usavam maquiagens bem simples.

Foi durante essa época, também conhecida como Onda Coreana ou Hallyu —neologismo criado por jornalistas chineses para explicar a popularização da cultura sul-coreana em outros países da Ásia—, que o k-pop começou a crescer em outros países, como na China e no Japão. Mas, para mensurar o impacto disso, é importante entender o contexto político em que o país se encontrava. 

De 1910 até o fim da Segunda Guerra Mundial, os coreanos foram dominados pelo Japão, época em que tiveram seu idioma proibido, cultura reprimida, mulheres violentadas e vários outros horrores. Em 1950, aconteceu a Guerra da Coreia, resultando na separação das Coreias após três anos de conflitos. Entre 1960 e 1980, o país passou por uma ditadura. Depois de tudo isso, o governo queria dar uma repaginada na imagem da Coreia e melhorar a relação com outros países. 

Foi aí que em 1997 a crise financeira asiática chegou, fazendo com que a Coreia precisasse receber US$ 58 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI). No ano seguinte, Kim Dae-Jung assumiu a presidência e a missão de tirar o país do buraco. Logo no primeiro ano de mandato, o autoproclamado “Presidente da Cultura” baniu produtos culturais importados do Japão. No ano seguinte, o governo criou a Lei Básica Para a Promoção da Cultura e destinou US$ 148,5 milhões para este segmento.

As medidas fizeram com que a cultura local fosse mais valorizada e a indústria crescesse. Pouco tempo depois, o presidente permitiu a disseminação de produtos coreanos em outros países, como a China. Assim, as novelas/séries sul-coreanas, conhecidas como k-dramas, e o k-pop começaram a crescer pela Ásia.

O crescimento do k-pop em outros países fez com que os artistas começassem a explorar outros mercados. Em 2002, BoA estreou no Japão com o disco Listen To My Heart. A fluência da artista na língua e o fato de que o álbum dela foi feito por um time majoritariamente japonês fizeram com que, logo no começo, muita gente pensasse que ela fosse japonesa. 

A aceitação da BoA no país foi tão absurda que, em 2003, a cantora foi convidada para o South Korea-Japan Summit Dinner Party, na casa do primeiro ministro do Japão, em Tóquio. Esse foi um episódio marcante para a reaproximação dos dois países. 

Foi também durante a primeira geração que as três principais empresas de entretenimento sul-coreano surgiram. Em 1995, Lee Soo-Man fundou a SM Entertainment. No ano seguinte, o ex-membro do Seo Taiji & The Boys, Yang Hyun-Suk, fundou a YG Entertainment. Por último, o cantor Park Jin-Young, ou J.Y Park, fundou a JYP Entertainment no ano de 1997.

Segunda geração

Com artistas como Girls’ Generation, Shinee, Super Junior, Wonder Girls, KARA, BIGBANG, 2NE1, IU e TVXQ, a segunda geração do k-pop começou na primeira metade dos anos 2000 e foi até o final da mesma década.

O grupo feminino Girls' Generation é um dos símbolos da segunda geração do k-pop

Assista ao clipe de Gee

Girls' Generation é um dos marcos da segunda geração do k-pop

Nos anos 1990, a história do k-pop estava apenas começando. Já na década seguinte, os artistas moldaram a indústria para chegar ao modelo que conhecemos, uma vez que grande parte —para não dizer tudo— surgiu durante os anos 2000. 

Para começar a listar, é importante falar que esse período ficou muito marcado pela invasão dos idols na TV. Hoje, é super normal ver artistas nos mais diversos programas de variedades da Coreia do Sul, e essa moda começou com a segunda geração. Os lightsticks também apareceram com os grupos da segunda geração.

O primeiro a ter um foi o BIGBANG, com um lightstick desenhado pelo G-Dragon, lançado em 2006. Todos adotaram a ideia e os lightsticks se tornaram super importantes, a ponto dos grupos criarem coreografias especiais para os fãs reproduzirem com os objetos. Eles também servem como forma de demonstrar apoio aos grupos em eventos e apresentações. 

GIF mostra fãs usando lighsticks durante um show de k-pop em estádio

Efeito luminoso dos lighsticks é uma marca dos shows de k-pop

Reprodução

A segunda geração também foi responsável por firmar os conceitos girl crush, bad boy/girl, cute, escolar e sexy dentro do k-pop. Essa experimentação de conceitos por comeback também gerou muita novidade na moda: muitos cabelos ousados e roupas coloridas. Os grupos dessa época lançaram ainda a tendência de soltar vídeos de ensaios de dança.

Como o k-pop já tinha se estabelecido na Ásia, o segundo passo foi apostar mais na indústria ocidental. Nesse período, muitos grupos começaram a se apresentar fora do continente. Em 2003, rolou a primeira edição do Korean Music Festival, em Los Angeles (EUA), que contou com a presença de vários artistas importantes, como BoA, g.o.d e Jang Na-Ra. No mesmo ano, Rain fez uma turnê que passou pela Austrália e pelos Estados Unidos. 

Por falar em Estados Unidos, foi em 2009 que um grupo de k-pop emplacou a primeira música no Hot 100 da Billboard, a parada mais importante do país. A versão em inglês de Nobody, do girlgroup Wonder Girls, estreou em 76º na parada. 

O grupo Wonder Girls na performance em inglês da música Nobody, o primeiro hit de k-pop a entrar nas paradas americanas

Veja o clipe da versão em inglês de Nobody

Música do grupo Wonder Girls foi a primeira do k-pop a entrar nas paradas da Billboard

Durante essa época da história do k-pop, o governo continuou investindo na cultura. Em 2005, foi criado um fundo de US$ 1 bilhão voltado para o k-pop. Além do investimento contínuo, o avanço tecnológico também ajudou muito para que o k-pop começasse a alcançar novos países. Tanto que foi durante a segunda geração que a cultura de fã-clubes ficou mais forte na Coreia do Sul.

Tudo isso fez com o que o mercado musical do país desse um salto enorme. Segundo o Relatório de Música Digital de 2012, da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI, na single em inglês), em 2005, o país estava no 33º lugar na classificação mundial. Já em 2011, a Coreia do Sul tinha pulado para o 11º lugar. 

Terceira geração

A história do k-pop enquanto fenômeno global que conhecemos hoje começou com a terceira geração, que vai do começo dos anos 2010 até 2018. Vários grupos marcaram esse período, como BTS, EXO, NCT, Blackpink, Red Velvet, Seventeen, Mamamoo, Monsta X e GOT7.

O astro coreano PSY no clipe do megahit Gangnam Style

Veja (mais uma vez) o clipe de Gangnam Style

Com o hit, PSY furou todas as bolhas do k-pop

Essa fase coincidiu com a segunda fase da Onda Coreana, que aconteceu em 2012, com a explosão de Gangnam Style, do PSY. Nunca na história uma música sul-coreana tinha feito tanto sucesso. O videoclipe ultrapassou o limite de visualizações do YouTube da época (2,147 bilhões) e continuou a crescer, ficando na liderança da plataforma por anos. 

Hoje, Gangnam Style está em oitavo lugar do ranking de vídeos mais vistos, com mais de 4 bilhões de acessos. O som explodiu nos quatro cantos do mundo e o cantor chegou até a subir no trio elétrico da Claudia Leitte para cantar o hit no Carnaval de Salvador, em 2013. 

E não foi só o Brasil que o k-pop invadiu. A terceira geração focou muito em conquistar o mercado mundial. Deu certo, mas nem tudo é perfeito. 

No começo de 2016, os Estados Unidos e a Coreia do Sul começaram a negociar a instalação de um sistema antimísseis em solo sul-coreano, como uma forma de ficar de olho na Coreia do Norte. A China foi contra a negociação, já que o sistema representava uma ameaça à segurança do país chinês.

Como resposta, a China começou a barrar produtos sul-coreanos. Cosméticos ficaram presos na alfândega, artistas da Coreia do Sul foram impedidos de entrar no país e banidos da TV chinesa. 

Na época, a China era o principal mercado externo da Coreia do Sul e as coisas só não foram por água abaixo porque, em 2017, o k-pop explodiu mundialmente. Naquele ano, o BTS colocou duas músicas na Billboard Hot 100, DNA e Mic Drop. Em maio do ano seguinte, o disco Love Yourself: Tear estreou em primeiro lugar no ranking Billboard 200. Em junho, a revista Time colocou o BTS na lista de pessoas mais influentes da internet. 

Cena do clipe de DNA, do BTS

Assista ao clipe de DNA, do BTS

Música entrou nas paradas americanas em 2019

O BTS virou uma verdadeira febre mundial, que reverteu muito dinheiro para a Coreia do Sul. De acordo com o Instituto de Pesquisas Hyundai, o k-pop movimentou em 2018 US$ 5 bilhões e 72% deste valor total foi relacionado ao BTS. Outro estudo aponta que a expansão da cultura pop movimentou US$ 9.5 bilhões para a Coreia do Sul.

Com tudo isso, os grupos da terceira geração começaram a investir mais na carreira fora do país. Eles fizeram várias parcerias com artistas ocidentais, no esquema um ajuda o outro. Assim, os grupos foram aparecendo cada vez mais na mídia internacional, fazendo diversos shows fora da Ásia, e gerando interesse na cultura sul-coreana.

Quarta geração

A quarta geração da história do k-pop é a que estamos vivendo agora. Com grupos como The Boyz, Loona, Aespa, Tomorrow x Together, Stray Kids, Enhypen, Itzy, STAYC e ATEEZ, a era atual começou em 2018 e o k-pop nunca esteve tão forte. 

As integrantes do grupo de k-pop Aespa no figurino do clipe Next Level

Veja o clipe de Next Level, do Aespa

Grupo surgiu em 2020 e já virou fenômeno

De acordo com relatório divulgado pela Fundação Coreana, em 2019, os fãs da cultura sul-coreana somavam 89 milhões de pessoas espalhadas por 113 países. 70 milhões na Ásia e Oceania, 11,8 milhões nas Américas e 6,6 milhões na Europa. 

Porém, a pandemia da Covid-19 chegou e mudou tudo. A indústria musical foi severamente prejudicada por conta do cancelamento de shows, principal renda de muitos artistas.

Se o k-pop estava em um momento em que as portas de diversos países estavam, como os grupos iam continuar se mantendo relevantes e arrecadando milhões? A indústria precisou se reinventar, mas o governo continuou botando dinheiro. Em 2020, o Serviço Coreano de Cultura e Informação, do Ministério da Cultura, criou 32 centros culturais em 28 países ao redor do mundo para promover a arte local. 

Desde que a Covid-19 começou a se espalhar, não demorou muito para os grupos começarem a fazer eventos online, como apresentações e encontros virtuais com fãs de todos os lugares do mundo. No dia 1º de janeiro de 2022, a SM Entertainment quebrou o recorde de evento coreano online mais transmitido de todos os tempos, com o SMTOWN 2022: SMCU Express@Kwangya. Foram 51 milhões de streams de 161 países. 

Apesar do desafio —principalmente para os grupos mais novos que não chegaram a ter eventos presenciais por conta da pandemia—, o k-pop conseguiu se manter no topo. O Twitter divulgou que, no período de um ano entre o começo de julho de 2020 e o fim de junho de 2021, o k-pop gerou 7,5 bilhões de tweets dentro da plataforma. Um novo recorde para o gênero líder dos assuntos mais falados da rede, que no ano anterior havia somado 6,7 bilhões.

Com o avanço da vacinação e a flexibilização das políticas de combate à Covid-19, os artistas pop sul-coreanos já estão voltando a fazer shows presenciais. Em novembro de 2021, o BTS quebrou o recorde de venda de ingressos com quatro datas esgotadas no Estádio SoFi, em Los Angeles. Na própria Coreia do Sul, grupos como o NCT 127 e o Twice já se apresentaram presencialmente, e vários outros eventos aconteceram com a presença de fãs na plateia.

Público lota estádio em Los Angeles para assistir a show do BTS

Melhores momentos dos shows Permission to Dance on Stage em Los Angeles

BTS esgotou quatro datas no estádio SoFi

Nesses 30 anos, a Coreia do Sul viu sua história mudar e muito se deve ao investimento do governo na cultura do país. A indústria do entretenimento foi uma das grandes responsáveis por ajudar a Coreia do Sul a superar a crise do final dos anos 1990, a crescer economicamente durante os anos 2000 e a se manter mesmo durante a pandemia da Covid-19. 

Com a retomada de eventos, o k-pop volta com o plano de expansão mundial e mostra que segue incansável. Ou melhor: está cada vez mais forte.

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Gabriela Ferreira

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Gabriela Ferreira é repórter de música e fissurada por música pop. K-popper desde 2018, é multi-stan e tem uma bias list maior do que o necessário.

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