MÚSICA

Tim Bernardes lança o disco Mil Coisas Invisíveis

Divulgação/Marco Lafer & Isabela Vdd

Mil Coisas Invisíveis

Tim Bernardes está menos triste em álbum que já tem pinta de clássico

Grande compositor de sua geração, músico lança Mil Coisas Invisíveis, disco que fala de 'coisas profundas de uma maneira meio leve'

Luccas Oliveira

Luccas Oliveira

Tim Bernardes se tornou, por méritos próprios, sinônimo de excelência no que acabamos por chamar de MPB contemporânea. Para comprovar, é só procurar performances de seu power trio de rock, O Terno, no YouTube (esta é uma boa pedida), ou do formato intimista cantor-compositor que adotou em sua carreira solo (cola aqui).

É mais interessado em discos do que em shows? Sem problemas, a discografia nas plataformas de streaming é vasta. Talvez, inclusive, você já tenha escutado uma canção dele nas vozes ímpares de Maria Bethânia (Prudência, do álbum Noturno) e Gal Costa (Realmente Lindo, de A Pele do Futuro).

A ocasião desta introdução é boa: tal discografia ganha agora uma importante adição. Chega no seu tocador favorito, às 21h desta terça-feira (14), Mil Coisas Invisíveis, o segundo disco solo de Tim Bernardes. E, como um artesão de letras e sons em constante evolução, o músico paulistano entrega o capítulo mais coeso e impressionante desta carreira ainda no início —ele completa 31 anos no próximo dia 18.

Capa do disco de Tim Bernardes

Ouça o disco Mil Coisas Invisíveis na íntegra

Álbum é o segundo da discografia solo de Tim Bernardes

‘Tem pessoas que gostam de músicas longas’

Já que este é um papo pautado na recomendação, é importante observar que Mil Coisas Invisíveis é um álbum que vive num tempo próprio. Nele, estamos, sim, na década de 2020, mas conservamos hábitos de outras épocas, como o simples ato de parar para escutar e absorver um disco. Não se assuste com faixas de longa duração, letras extensas e a dificuldade de transformá-las numa dancinha de TikTok.

Tim Bernardes lança o disco Mil Coisas Invisíveis

Ouça e assista ao visualizer de Última Vez

Música é uma das longas (e melhores) do disco

“Eu gosto de ouvir música assim, vejo que tem um público que gosta, me segue e está ouvindo. Sinto que, assim como esse público e como eu, ainda tem muita gente que eu não tive a chance de chegar”, pontua Tim Bernardes, em entrevista exclusiva à Tangerina. “Se você quiser olhar números do streaming, tem letras gigantes de canções do Caetano e do Bob Dylan com milhões de reproduções, porque tem pessoas que gostam disso”.

Para ele, o que está rolando agora na indústria musical é só a versão acelerada e maior do que sempre aconteceu, “e daqui um tempo vai ser mais acelerado ainda e maior”. Resumidamente, a música que tocava incessantemente no rádio nos anos 1980 e 1990 é comparável ao viral de TikTok. Não é isso que Tim Bernardes busca, e o diálogo com o público é claro.

Aviso dado, voltemos a Mil Coisas Invisíveis, lançado pelo Coala Records (selo do Coala Festival). O disco chega depois de Recomeçar (2017), a estreia solo de Bernardes que rendeu uma indicação ao Grammy Latino, e Atrás / Além (2019), o quarto álbum de estúdio d’O Terno. O autor vê ambos os trabalhos como discos conceituais.

Recomeçar “era para ser choradeira mesmo, esse disco forte, melancólico, mas belo” , uma sofrência indie. Enquanto isso, Atrás / Além é “a vida adulta do jovem contemporâneo e os desdobramentos profundos de uma geração que opera muito no superficial”.

Em Mil Coisas Invisíveis, por sua vez, Tim Bernardes está menos melancólico (tirando uma ou outra faixa, como a belíssima Olha), mas talvez ainda mais reflexivo. O disco não tinha a intenção de ser conceitual, até para não tirar o valor daqueles que o são.

“Eu ia fazer um disco que era uma coleção de canções, como a maioria dos discos que a gente gosta, que a gente ouve”, resume o músico, filho do também compositor paulistano Mauricio Pereira.

Tim Bernardes lança o disco Mil Coisas Invisíveis

Assista ao clipe de Mistificar

Música foi o 3º single de Mil Coisas Invisíveis

Acabou que ele encontrou, durante a pandemia, uma espécie de elo entre as 15 faixas que compõem Mil Coisas Invisíveis, o suficiente para entender a sequência ideal delas.

“Tem um maravilhamento com a existência da vida, com a beleza das coisas, com a grande beleza, com a música como algo mais sagrado. E, quando digo um termo como sagrado, tem também o equilíbrio com uma coisa meio cotidiana, simples. É um disco que fala de coisas profundas, mas de uma maneira meio leve. Tipo conversa na padaria”, resume.

Em outra comparação com Recomeçar, álbum que Tim Bernardes via como um filme, Mil Coisas Invisíveis é mais um livro. Um de ensaios, no caso. Então, as faixas com letras longas são, basicamente, um respeito aos caminhos que esses ensaios queriam tratar.

Mas não se confunda: ainda é um disco de música popular. Ele fala tanto sobre “a beleza eterna que às vezes pode se enxergar” quanto sobre “pegar caxumba pela segunda vez”, citando trechos de duas faixas que nele estão.

Tim Bernardes tocou praticamente tudo sozinho

Aliás, é difícil encaixar Mil Coisas Invisíveis numa caixinha sonora, mas num esforço reducionista daria para resumi-lo como algo entre o indie folk e o pop barraco. É grandioso no sentido orquestral que os arranjos de cordas e metais, coros, vozes e aplausos sugerem. Mas também permite ao ouvinte identificar facilmente se cada canção nasceu no violão ou no piano.

Mais uma vez, Bernardes tocou basicamente todos os instrumentos do disco. Teve ajudas luxuosas em coisas como os violinos e viola de Felipe Pacheco Ventura, o trombone e flugelhorn de Douglas Antunes e as vozes de Zé Ibarra e Dora Morelenbaum, integrantes do Bala Desejo, no coro de Beleza Eterna.

Tim Bernardes lança o disco Mil Coisas Invisíveis

Ouça Nascer, Viver, Morrer

Faixa abre o disco Mil Coisas Invisíveis

Por falar em Bala Desejo, Tim Bernardes é um entusiasta da atual geração do que chamaremos aqui de música autoral contemporânea. Nova MPB, para simplificar. É figura carimbada nos shows destes artistas em casas de São Paulo, e sabe se posicionar numa espécie de linha do tempo indie, já que o primeiro disco d’O Terno, 66, completa uma década em 2022.

“Estávamos vindo ainda meio do rádio, né? Tendo que conquistar como gravar do jeito que a gente gostava. O primeiro disco é meio rústico, não é tão bom. Estávamos abrindo uma estrada ali no meio do mato, sabe?”, lembra ele.

“As gerações que vêm agora já começam com uma visão fonográfica da coisa, que já podem desenvolver desde o primeiro disco. O Bala Desejo e todos ali têm uma excelência vocal e instrumental que é muito particular dessa turma. Ana Frango Elétrico tem um conceito artístico muito forte, de ser esteta”, avalia.

‘Eu não sou o novo fulano’

O Terno —e Tim Bernardes— estão entre essa e a geração anterior, de Kassin, Los Hermanos e Cachorro Grande, que provou existir “um alternativo viável”. A diferença entre as duas é o avanço da internet, como agora é a popularização e o barateamento das técnicas de gravação.

“O que a gente aprendeu também foi servindo para quem estava ali com a gente e quem foi vindo depois. Nem que seja num sentido de sonhar ou de acreditar na possibilidade, sabe? A geração antes da minha era uma coisa meio ‘não, música boa não dá’. E era difícil mesmo. Mas a internet, na época d’O Terno, permitiu que fôssemos exploradores ali, do momento”, comenta.

Tim Bernardes lança o disco Mil Coisas Invisíveis

Ouça BB (Garupa de Moto Amarela)

Faixa é um dos singles do disco de Tim Bernardes

Já que o músico tem a consciência de sua importância (e da banda), cabe aquela pergunta típica de entrevista de emprego. Como quer ser visto daqui a 10, 20 anos?

“Como relevante, sendo eu mesmo. Tem muita gente na música brasileira que eu gosto e me identifico. E é muito claro no terreno da MPB o quanto Gilberto Gil e Caetano Veloso são centrais. E muitas vezes têm essa coisa de comparar fulano com eles. Mas tem tantos outros… Tem o Ney [Matogrosso], o Raul [Seixas], a Rita [Lee], o Tim Maia, o Jorge Ben, o não sei quem, o não sei quem lá, tem o Tim Bernardes… É assim que eu gostaria que fosse lá na frente. Eu não sou o novo fulano. Que eu seja alguma pessoa bacana da música popular brasileira que fez bons discos”.

E O Terno?

Enquanto esse momento não chega, Tim Bernardes se prepara para embarcar, na próxima semana, para os Estados Unidos. Por lá, ele vai abrir 17 shows da turnê de arena dos heróis indie Fleet Foxes (eles têm uma música juntos, ouça abaixo). Sozinho no palco, cantando em português, ele fará um aquecimento de luxo do show Mil Coisas Invisíveis. A turnê começa para valer no segundo semestre, com datas no Brasil e na Europa.

As apresentações de Recomeçar recriavam o quarto de Bernardes, onde as faixas foram criadas. Esse formato, sozinho no palco defendendo as canções, também vai basear grande parte da turnê de Mil Coisas Invisíveis. Mas não será o único.

“Vai ter a possibilidade, de vez em quando, de ter situações especiais em que eu possa colocar arranjos de cordas ou sopros. É uma vontade que está crescendo em mim. Não acho impossível que em breve já role algum tipo de show assim”, conta.

Na resposta, Tim Bernardes adianta outra, que os fãs d’O Terno tanto fazem: “Depois dessa primeira leva de shows solo, O Terno pode reensaiar e voltar a fazer coisas juntos. Gosto de ter um show com banda, gente de pé no público, e ter também o show intimista”.

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Luccas Oliveira

Luccas Oliveira

Luccas Oliveira é editor de música na Tangerina e assina a coluna Na Grade, um guia sobre os principais shows e festivais que acontecem pelo país. Ex-jornal O Globo, fuçador do rock ao sertanejo e pai de gatos, trocou o Rio por São Paulo para curtir o fervo da noite paulistana.

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