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Cena da série 3 Tonelada$, da Netflix

Divulgação/Netflix

Netflix

3 Tonelada$: Por que o assalto ao Banco Central marcou o país?

Um dos roubos mais espetaculares da história, que ocorreu em Fortaleza em 2006, permanece forte na memória e agora é tema de uma série da Netflix

Gabriela Franco

Gabi Franco

Estreou nesta quarta (16) a mais nova série documental da Netflix3 Tonelada$: Assalto ao Banco Central— que, em três episódios, resgata um dos capítulos mais espetaculares da crônica policial brasileira: o assalto ao Banco Central em Fortaleza, em 2005. Em 8 de agosto daquele ano, 34 homens que passaram três meses cavando um túnel de 75m —com iluminação, ventilação e até telefone—, invadiram a caixa-forte da instituição e saíram de lá com R$ 164,5 milhões —ou 3 toneladas de cédulas de 50 reais— sem que ninguém visse ou ouvisse nada e sem que nenhum tiro fosse disparado.

A história, que ocupou as manchetes dos jornais por meses, tornando-se um dos maiores casos de investigação do país, é esmiuçada na série documental, com depoimentos e informações inéditas que jogam luz sobre os fatos e esclarecem a mítica em torno do maior assalto a banco já realizado no Brasil. Antes da produção, o crime já havia sido retratado no longa ficcional Assalto ao Banco Central (2011), dirigido por Marcos Paulo.

A Tangerina conversou com o diretor da série Daniel Billio e com Roger Franchini, ex-investigador da polícia civil de São Paulo e autor do livro Toupeira: A História do Assalto ao Banco Central, uma das inspirações para a produção. Eles contam por que o furto foi tão marcante na memória e no imaginário do país, a ponto de gerar duas adaptações, e apontam a crescente tendência das produções brasileiras no gênero true crime, antes restritas ao mercado internacional.

O prédio do Banco Central, em Fortaleza, que aparece na série 3 Tonelada$, da Netflix

O prédio do Banco Central, em Fortaleza, que aparece na série 3 Tonelada$, da Netflix

Divulgação/Netflix

Um crime cinematográfico

“Creio que o que torna o assalto ao Banco Central ainda tão relevante são as dimensões desse crime”, acredita Billio. “Foi uma coisa espetacular. Os caras construírem um túnel, durante três meses, ninguém prestar atenção naquilo, eles irem embora com milhões de reais sem terem disparado um tiro e sem ninguém ter visto nada? Uma coisa meio 11 Homens e um Segredo. No caso, depois descobriu-se que eram 34 homens e um segredo”, comenta o diretor sobre a razão para o crime ter ganhado mais uma produção, agora não ficcional. A série, ao contrário do longa de Marcos Paulo, preocupa-se mais em revelar fatos inéditos e ligações entre facções criminosas de São Paulo e do Ceará.

Aliás, segundo Billio o grande desafio foi juntar todos os fios para recriar uma história coesa e compreensível para o público. Para isso a pesquisa, liderada pela pesquisadora-chefe Claudia Belfort, foi pesada. “Priorizamos as histórias mais interessantes que, tanto do ponto de vista visual quanto narrativo, eram as mais legais de mostrar ao espectador”, explica Billio. Ele também estudou mais de dois anos de reportagem sobre o caso (de 2005 a 2007), para poder esclarecer informações divergentes nas entrevistas com os envolvidos.

Conexões Perigosas

Além de escutas e imagens nunca vistas, a série traz o depoimento inédito de um dos líderes do crime, além de dois policiais que trabalharam infiltrados durante as investigações e que nunca haviam falado sobre o assalto. Foram dois meses de negociação para que se estabelecesse uma relação de confiança entre a produção e os envolvidos e os depoimentos finalmente pudessem ser gravados.

A série também faz uma conexão inédita entre o assalto e os crimes cometidos em maio de 2006 pelo PCC em São Paulo, tese defendida no livro de Roger Franchini. “Quando conversei com Daniel, percebi que a visão que ele tinha do crime era muito diferente das que eu já havia visto em filmes e outras produções sobre o fato. Ele conseguiu ter essa sensibilidade de ver a ação do PCC no meio de tudo isso”, afirma o escritor, que também atuou como investigador da Polícia Civil de São Paulo durante 7 anos.

“O audiovisual brasileiro peca muito nesta questão. Existe uma dificuldade de quem constrói a narrativa de compreender como funciona o PCC. As poucas séries e filmes que retratam a instituição se referem a ela como uma máfia, estereotipada de uma maneira como a gente normalmente vê em filmes, e ele é muito mais complexo que isso”. explica o ex-investigador. “O PCC está estruturado dentro das instituições do Estado de uma forma muito poderosa. Seja na polícia, seja no judiciário, dentro do Ministério Público. Ele tem braços ali que se estendem e alcançam alguns pontos nevrálgicos para uma série brasileira se referir a isso sem tocar em um teto de vidro. 3 Tonelada$ foi muito corajosa”, completa.

True crime à brasileira

Cena da série 3 Tonelada$, da Netflix

No último capítulo da série o diretor Daniel Billio garante que explica a ligação do crime com o Brasil de hoje

Divulgação/Netflix

Sobre a recente tendência de produções brasileiras começarem a explorar o gênero true crime, que já faz muito sucesso em produções norte-americanas, tanto Daniel Billio quanto Roger são categóricos: “Acho que é tendência e que a gente está produzindo coisas muito bacanas. É uma oportunidade de mostrar nossas histórias para o mundo todo. A gente consome série true crime gringa e agora a gente tá exportando série de true crime também”, acredita o diretor de 3 Tonelada$.

“As pessoas gostam de histórias policiais, elas curtem, não importa se é um longa de ficção ou se é uma série documental que tem um crime, que tem mistério, tem reviravolta . Acho que é do ser humano isso, né? “, afirma. Já para Franchini, o segredo do sucesso de uma série true crime “vem da paixão pelos romances policiais”. A paixão estranha que nós temos pelos crimes”, acredita o escritor.

Quando questionado sobre como a série se conecta com o Brasil de hoje, Billio arremata: “No último capítulo, a gente meio que explica conexões entre situações que talvez existam entre o furto ao Banco Central e todo o cenário que a gente vive hoje em dia. Portanto, assistam a série e tirem suas próprias conclusões!”

3 Tonelada$ – Assalto ao Banco Central está disponível na Netflix.

Cena da série 3 Tonelada$, da Netflix

3 Tonelada$: Assalto ao Banco Central

O que parecia o crime perfeito, deixou muitos rastros

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Gabriela Franco

Gabi Franco

Editora de filmes e séries na Tangerina, Gabi Franco é criadora do Minas Nerds, jornalista, cineasta, mãe de gente, pet e planta. Ex- HBO, MTV, Folha, Globo… É marvete, mas até tem amigos DCnautas.

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