FILMES E SÉRIES

Robert Pattinson vive Batman no novo filme dirigido por Matt Reeves

Jonathan Olley/DC Comics

Crítica

Novo Batman tem mais a ver com o mundo de hoje do que você imagina

Não gosta de filmes de super-heróis? O novo Batman talvez seja pra pessoas como você: é um filme pé no chão que reflete muito bem o clima de desilusão em que vivemos

Rafael Argemon

Rafael Argemon

Matt Reeves era um diretor com uma missão nada fácil: renovar a franquia Batman. Mas como inovar com um personagem já tão enraizado no subconsciente da cultura pop? A solução do cineasta foi simples: olhar para trás. Batman, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (3) é muito mais um trabalho de restauração do que de construção.

O batmóvel e as traquitanas de mil e uma utilidades estão lá, mas o protagonista de Reeves, interpretado por Robert Pattinson, é basicamente um detetive, não um super-herói.

A história se repete

É claro que há cenas de ação e até uma longa e espetacular sequência de perseguição de carros entre o Batman e o espirituoso Pinguim de Colin Farrell, mas o filme de Reeves (diretor dos dois últimos filmes da trilogia Planeta dos Macacos) é em sua essência um filme noir. Um subgênero que teve seu auge na década de 1940. Suas histórias de suspense criminal de temática urbana protagonizadas por anti-heróis tinham uma visão fatalista da vida. 

Era a materialização de um sentimento de derrota em um mundo assolado pela ascensão do nazifascismo. O personagem, aliás, nasceu nos quadrinhos exatamente nessa época, em maio de 1939.

Não é necessária uma análise política profunda para reconhecer que vivemos um período histórico muito semelhante ao dos anos 1930-1940. O nazismo voltou aos trending topics e, por consequência, o cinema vem mostrando uma tendência de retorno do noir. E qual melhor personagem para encarnar esse inconsciente coletivo do que o “maior detetive do mundo”?

Batman atormentado e um vilão que mata a charada

O Batman de Reeves começa o filme sem esperanças. Ele não vê seu árduo trabalho nas noites de Gotham surtir lá muito efeito. E a culpa disso é em partes dele mesmo. Cego pela vingança, ele não enxerga o mal maior. 

O inimigo não está nas ruas. Está nas mais altas esferas do poder. Um mal que não se enfrenta com os punhos, mas com investigação. A verdade é sua arma mais poderosa, não um batarang.

Robert Pattinson e Zoe Kravitz como Batman e Mulher-Gato em cena de Batman (2022)

Trailer do filme Batman (2022)

Ainda inexperiente, Batman de Pattinson conta com a ajuda da Mulher-Gato de Zoë Kravitz

Ironicamente, quem abre os olhos do herói é o principal vilão do filme, o Charada. Interpretado muito convincentemente por Paul Dano. Ele, aliás, nos revela muito mais sobre quem é realmente o Batman, um recluso atormentado que tem muito mais em comum com os bandidos que persegue do que com as vítimas que defende. 

O Batman vivido por Robert Pattinson é uma pessoa deslocada e desesperada. Que dá murros em ponta de faca e percebe só mais para frente que ele é muito mais parte do problema do que da solução.

E falando em Pattinson… Seu semblante desconfortável e olhar perdido traduzem essa visão mais cinzenta do herói sem que ele precise dizer uma palavra sequer. Seu Batman, que está apenas há dois anos no papel de vigilante de Gotham, é confuso. Inexperiente. 

Ele apanha bastante. E não apenas fisicamente. É um protagonista destinado ao fracasso assim como os famosos detetives dos filmes noir.

Mulher-Gato fatale ou anti-heroína?

O Batman detetive de Pattinson tem até sua femme fatale, representada pela Mulher-Gato de Zoë Kravitz. Uma figura essencial em um noir, esse tipo de personagem é um arquétipo feminino que geralmente seduz e/ou engana o herói para obter o que realmente deseja.

Mas, apesar de serem tipicamente vilãs, em determinadas histórias, elas podem ser anti-heroínas. E esse é o caso dessa Selina Kyle. Uma mulher independente que não precisa do auxílio dos homens pra se virar. Ela escolhe ajudar o Batman, mas não se deixa levar por sua obsessão.

Zoë Kravitz como Selina Kyle e Robert Pattinson como Batman em cena do novo filme, dirigido por Matt Reeves

A Selina Kyle de Zoë Kravitz é mais anti-heroína do que vilã

Jonathan Olley/DC Comics

Batman traz a versão mais pé no chão do personagem e seu meio ambiente. Um filme que, mesmo beirando 3 horas de duração, não perde tempo com tecnicismos ou histórias de origem. Seu foco é na investigação. Tanto na da trama em si quanto na análise do próprio herói, repaginado com um olhar mais voltado para o passado do que para o futuro. 

Sinal dos tempos que Matt Reeves captou com precisão e conseguiu traduzir muito bem para a tela. É um ótimo filme, que inaugura uma nova trajetória para o personagem voltando às origens dele. 

Dois pelo preço de um: Outro ótimo noir moderno, mas com roupagem mais clássica, é O Beco do Pesadelo, de Guillermo del Toro

Presta atenção, freguesia:  Na cena em que o Batman confronta o Charada. Um diálogo que revela o quanto o herói tem em comum com os vilões que persegue.

Pôster oficial do filme Batman (2022)

Batman

Super-Herói / Policial / Ação
14
Direção
Matt Reeves
Produção
Warner Bros.
Onde assistir
HBO Max
Elenco
Robert Pattinson
Zoë Kravitz
Paul Dano
Jeffrey Wright
Andy Serkis
Colin Farrell
John Turturro
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Rafael Argemon

Rafael Argemon

Rafael Argemon é criador do perfil O Cara da Locadora no Instagram e também assina uma coluna com o mesmo nome na Tangerina, onde indica as pérolas escondidas nas plataformas de streaming. Cinéfilo e maratonador de séries profissional, passou por Estadão, R7, UOL, Time Out e Huffpost. Apaixonado por pugs, sagu e jogos do Mario.

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