FILMES E SÉRIES

O diretor Matt Reeves com os atores Robert Pattinson e Zoe Kravitz como Batman e Mulher Gato ao fundo

Foto: Divulgação. Arte: Tangerina

Batman

Por trás da máscara: Quem é Matt Reeves, o diretor de Batman

Mesmo com poucos longas no currículo, a forma como consegue agradar crítica e público com sua visão fez de Matt Reeves um dos queridinhos da alta cúpula de Hollywood

Rafael Argemon

Rafael Argemon

Amigo é tudo na vida, não é? Para Matt Reeves, por exemplo, uma amizade fez toda a diferença em sua trajetória no cinema até dirigir um dos filmes mais aguardados de 2022: Batman, que estreia nesta quinta-feira (03 de março) no cinema. Se não fosse pela insistência de seu camarada J.J. Abrams, ele nunca teria encarado um projeto como Cloverfield: Monstro (2008), que marcou sua estreia em longas.

“Eu disse algo do tipo: Isso é enorme, cheio de efeitos visuais. É um filme de monstros. Por que você está pensando em mim?”, contou Reeves ao IGN pouco antes do lançamento da produção, no final de 2007.

O cineasta revelou ainda que Abrams disse saber o quanto o amigo ama cinema e estaria interessado no que ele faria em termos de tom, em como ele lidaria com os personagens. “Então fiquei muito animado porque achei a ideia meio ultrajante. Foi realmente empolgante. Então eu pulei de cabeça”. 

Para quem se perguntava: quem é Matt Reeves? Até aquele ponto da carreira, ele tinha apenas escrito e dirigido projetos para a televisão, incluindo Felicity (1998 – 2002), uma série que criou junto com Abrams e que se transformou em um cult na passagem da década de 1990 para os anos 2000. Mas que, convenhamos, não tem absolutamente nada a ver com o tipo de filme que ele faria no cinema mais de uma década depois.

Por isso mesmo, Matt – nascido Matthew George Reeves em 27 de abril de 1966, no vilarejo de Rockville Center, no estado de Nova York – é considerado um dos diretores/roteiristas/produtores mais versáteis de Hollywood. Um cara que mostrou quem é se especializando em aperfeiçoar projetos dos mais diversos formatos e transformá-los em filmes bem recebidos tanto pela crítica como pelo público.

Tanto que seu trabalho depois de Cloverfield: Monstro, o filme Deixe-me Entrar (2010), tinha tudo para ser mais um daqueles remakes desnecessários que os estúdios de Hollywood produzem para ganhar uns trocados com base na ideia de que americano não lê legenda. Mas não foi nada disso que aconteceu. O cineasta conseguiu imprimir seu estilo próprio e deixou sua versão da história de um garoto que se apaixona por uma menina vampira tão boa quanto a do original sueco, dirigido por Tomas Alfredson dois anos antes.

O cineasta americano Matt Reeves no set de filmagem de Deixe-me Entrar (2010)

O cineasta Matt Reeves no set de filmagem de Deixe-me Entrar (2010)

Divulgação

E olha que ele nem queria fazer o filme. Quando foi contatado por produtores com o projeto de Deixe-me Entrar, Reeves não se interessou. Ele tinha achado o filme de Alfredson bom demais para merecer um remake. Mas, eventualmente, acabou mudando de opinião.

“Depois daquele ‘não’, a ideia foi ressoando em mim e eu decidi ler o livro [em que o filme sueco foi baseado, escrito por Ajvide Lindqvist]. Me apaixonei ainda mais pela história”, explicou o diretor em uma entrevista ao site Assingnment X, em 2011.

“Como o romance se passa na década de 1980 e nessa época eu tinha praticamente a mesma idade do autor [que também assina o roteiro do filme], pensei que talvez houvesse uma maneira de ser muito fiel a essa história de amor com toques de terror entre essas duas crianças e relacioná-la com esse contexto que eu lembro. Escrevi para Lindqvist e ele me deu muito apoio. Ele era muito fã de Cloverfield”, completou.

No planeta Hollywood

Com a boa recepção de Deixe-me Entrar, a fama de Reeves nos grandes estúdios de Hollywood cresceu exponencialmente. Tanto que ele foi escalado para dar sequência a um reboot da franquia Planeta dos Macacos, no caso Planeta dos Macacos: A Origem (2011), dirigido pelo inglês Rupert Wyatt. Wyatt não concordou com os rumos que a FOX queria para o filme seguinte da trilogia, Planeta dos Macacos: O Confronto (2014), e acabou substituído por Reeves.

Mas Reeves estava com tanta moral que, mesmo também não concordando com a visão do estúdio, acabou contratado e filmou ainda o seguinte, Planeta dos Macacos: A Guerra (2017). “Eu era obcecado desde a infância pelo universo de Planeta dos Macacos. Mas queria fazer isso de outra maneira. Que não soasse repetitiva”, contou o cineasta à IndieWire em julho de 2014.

“A versão deles começa em uma São Francisco pós-apocalíptica e era mais focada nos humanos e não em César [o macaco que protagoniza o filme, vivido por Andy Serkis]. Mas como isso poderia ser uma história sobre personagem? Eu lancei isso para eles e, para minha surpresa, eles concordaram. Aí não tinha motivos para recusar”, explicou.

Matt Reeves (centro) no set de filmagem de Planeta dos Macacos: O Confronto (2014)

Matt Reeves (centro) interage com os atores Jason Clark (à esq.) e Andy Serkis (à dir.) no set de filmagem de Planeta dos Macacos: O Confronto (2014)

Divulgação

Ao somar outros dois mega blockbusters –que, além de aguardar muito a crítica, renderam ótimas bilheterias– ao seu currículo, Reeves se tornou um dos queridinhos da alta cúpula da terra do cinema, ganhando carta branca para fazer o projeto que quisesse. E ele não se acanhou com a oportunidade. Mesmo com a responsabilidade de “salvar” o universo da DC Comics no cinema, ele escolheu ninguém menos que o Batman como seu objeto de desejo.

Cheio de confiança em sua visão, o cineasta escalou Robert Pattinson para o papel do Cavaleiro das Trevas, gerando atrito com os fãs mais hardcore do herói, que ainda ligavam a imagem do ator inglês à do insosso vampiro Edward, da saga teen Crepúsculo. Mas Reeves já demonstrou que sabe muito bem o que quer e, à medida que os teasers e trailers de The Batman foram pipocando por aí, o hype do público foi crescendo e a “polêmica” sobre a escolha de Pattinson foi se esvaziando.

Segundo o diretor, a grande influência para sua versão do super-herói é Batman: Ano Um, graphic novel escrita por Frank Miller e desenhada por David Mazzucchelli que mostra um Bruce Wayne dando seus primeiros passos como Batman. Além disso, durante o DC Fandome em 2020, Reeves afirmou ter mergulhado de cabeça também em Batman: Ego, gibi pouco conhecido do saudoso Darwyn Cooke no qual o Homem-Morcego descobre que ele mesmo é seu maior inimigo. 

Mas as influências não param por aí, englobando tanto o cinema quanto a música. Entre elas, Reeves inclui clássicos do cinema policial da década de 1970 como Operação França (1971), Chinatown (1974) e Taxi Driver (1976). Além de Kurt Cobain. Isso mesmo, o vocalista do Nirvana, morto em abril de 1994.

“No início, quando eu estava escrevendo o roteiro, comecei a ouvir Nirvana, e havia algo sobre Something in the Way [a música do disco Nevermind, de 1991] que faz parte da voz desse personagem”, revelou o cineasta à Esquire. A canção marcou tanto o diretor que até foi usada em um dos trailers do filme.

Robert Pattinson como Batman em cena do filme The Batman (2022)

Teaser do filme The Batman (2022)

A música Something in the Way, do Nirvana, foi utilizada no primeiro teaser promocional de The Batman, lançado cerca de um ano antes da estreia do filme

Isso diz muito sobre quem é Matt Reeves e sua filmografia. Um profissional que sabe encaixar sua visão pessoal em projetos que normalmente deixam diretores “reféns” das obrigações exigidas pelos grandes estúdios, sempre investindo pesado em seus produtos.

Lembra do quanto J. .J. Abrams queria Reeves para Cloverfield e ele não entendeu a escolha por ser um diretor de “filmes sobre personagens”? Pois é, acabou que, no final das contas, todos os filmes da bem-sucedida carreira de Reeves são, na sua essência, filmes de personagens. E qual melhor personagem para coroar sua carreira do que o Batman?

“Eu amo o Batman. E eu amo aquele homem desde criança. E, você sabe, eu nunca imaginei quando comecei que faria filmes de gênero porque eu adorava certos tipos de filmes que eram muito baseados em personagens. E é realmente interessante o fato de ter me aprofundado em gêneros”, explica ele, em uma entrevista ao AV Club.

Reeves diz ter percebido que essa era uma maneira de fazer histórias muito emocionais, mas sob o disfarce desses grandes contos míticos. “E, em particular, o que me empolgou –e o que me relacionei na história do Batman– foi que ele não é um super-herói no sentido tradicional. Você sabe, ele pode ter uma capa, mas ele não pode voar, ele é como você e eu.”

“Mas se ele tem um superpoder, é a capacidade de resistir. Ele está tão longe de ser perfeito e nós o vemos meio que se tornando o que todos sabemos sobre ele e o enxergamos de novas maneiras. Eu senti que era um jeito de fazer algo que não havia sido feito”, conclui. 

Agora você sabe quem é Matt Reeves.

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Rafael Argemon

Rafael Argemon

Rafael Argemon é criador do perfil O Cara da Locadora no Instagram e também assina uma coluna com o mesmo nome na Tangerina, onde indica as pérolas escondidas nas plataformas de streaming. Cinéfilo e maratonador de séries profissional, passou por Estadão, R7, UOL, Time Out e Huffpost. Apaixonado por pugs, sagu e jogos do Mario.

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