FILMES E SÉRIES

Spencer

Divulgação/AppleTV

Crítica

Em Spencer, Kristen Stewart mostra lado mais humano da princesa Diana

Filme é retrato da angústia e rigidez opressiva dos protocolos reais que levaram a princesa Diana a abrir mão de sua posição e escolher a vida

Gabriela Franco
Gabi Franco

Produções que retratam a vida dos moradores do palácio de Buckingham sempre fizeram muito sucesso. Vide o êxito da série The Crown, da Netflix,  que já vai para sua quinta temporada. Quando o assunto é a vida da princesa de Gales, Diana Spencer, não é diferente. 

Filmes, documentários e especiais de TV sobre Lady Di existem aos montes. Alguns fiéis à realidade, outros que parecem mais interessados em depreciar a imagem de Diana do que prestar-lhe homenagem. Mas nenhum fez questão de mostrar Diana tão humana quanto Spencer, estrelado por Kristen Stewart, com direção de Pablo Larraín.

A realeza, seus costumes, segredos, protocolos e disparates sempre foram assuntos interessantes aos plebeus. A explicação talvez esteja na tentativa de torná-los mais humanos e próximos a nós. Pessoas comuns. E Lady Di, como ficou conhecida, monopolizou a atenção do mundo durante o tempo que passou com a família real britânica justamente por manter-se autêntica.

Spencer

A solidão da princesa de Gales é retratada em diversos planos de Larraín em Spencer

Divugação/Diamond Filmes

Dedicou-se à filantropia e ao trabalho social, sempre se mostrou muito próxima ao povo e, ao contrário do que a etiqueta real exige, sempre foi muito transparente com suas emoções. E por essa razão, acabou ganhando os corações dos súditos e de toda a mídia.

Então é Natal…

A maioria das produções sobre a princesa Diana geralmente mostram um resumo superficial de sua vida, com destaque para um ou outro episódio, exagerando nas questões sobre infelicidade no amor, saúde mental e popularidade. Mas o diretor chileno Pablo Larraín (que também dirigiu Jackie, filme sobre Jacqueline Kennedy) se preocupa em nos mostrar uma Diana muito mais complexa e paradoxal, mais humana e verdadeira do que as abordadas até hoje.

Para isso, o filme se concentra nos três dias do feriado de Natal que a família real passa tradicionalmente em Sandringham House, em Norfolk, Inglaterra, quando, em entrevistas posteriores, Diana afirmou ter tomado a decisão de divorciar-se do príncipe Charles. O período, recheado de protocolos, fotos oficiais, eventos familiares e midiáticos, emana uma atmosfera completamente ríspida e intolerante, onde as intrincadas tramas familiares aos poucos vão tomando forma.

Em meio a esse ambiente inóspito, Diana (Kristen Stewart) tenta desesperadamente fugir. Tratam-se de fugas literais, como quando inventa que se perdeu na estrada, para justificar atrasos no cumprimento da agenda. Mas também fugas psicológicas, como os diálogos que imagina ter pelos corredores do castelo com sua parente distante, a famosa Ana Bolena, segunda mulher do rei Henrique 8º, que foi decapitada pelo marido.  

O diretor Larraín, aliás, abusa dos recursos lúdicos e oníricos durante todo o filme, traçando paralelos entre a realidade e o imaginário escapista de Diana. 

Sinuca de bico

Os demais membros da família real mal aparecem ou interagem, exceto por poucas cenas com a rainha Elizabeth (Stella Gonet) e com o príncipe Charles (Jack Farthing), o que contribui para uma sensação de frieza e distanciamento vindo dos parentes.

As parcas cenas com ambos, no entanto, são extremamente significativas. Uma delas se passa na sala de jogos do castelo, onde estão Charles e Diana, em extremidades opostas de uma mesa de sinuca. Quando ela faz um último esforço para tentar dialogar com o marido, ele a critica e rebate: “Cada um de nós deve ter dois lados. Existe a pessoa real e a das fotos”. – encerrando assim qualquer tentativa reconciliação.

Por outro lado, o contrário parece acontecer com os criados da casa. Diana tem uma estreita relação com a camareira Maggie (Sally Hawkins), a ponto de recusar os serviços de sua substituta. Também é confidente do chef de cozinha  Darren (Sean Harris) e acaba se abrindo com o mestre de cerimônias major Alistair Gregory (Timothy Spall), que desenvolve com ela uma relação quase paternal. 

A princesa do povo em fuga

O clima pesado e opressor é reforçado pela interpretação de Kristen Stewart, que mostra uma Diana esforçando-se para desaparecer e minguar frente à família real, em contraponto a sua fama fora do palácio. Sua fala é sussurrada e ofegante e ela mal olha nos olhos de seus familiares quando eventualmente troca palavras com eles. 

A saúde mental de Diana também é abordada em angustiantes cenas de crises bulímicas. São chocantes, porém jamais exploradas levianamente. A princesa só parece sentir-se livre quando está com os trabalhadores do castelo e com os filhos William (Jack Nielen) e Harry (Freddie Spry). Ali podemos ver uma Diana criativa, vivaz, enérgica, sem deixar de ser extremamente verdadeira e passional com as crianças. 

Diana sempre lutou contra a exposição de sua vida privada, o que aumentava o contraste que por vezes existia entre sua intimidade e sua pessoa pública. Mesmo assim, a imagem que temos dela sempre foi fragmentada. Ao menos Spencer é honesto ao tentar mostrar o quanto ela parecia ser muito maior do que o título nobre que carregava. 

spencer

Spencer

Princesa fragmentada

Leva que tá doce! É interessante a forma como a rainha é retratada. Apesar de parecer distante e fria e gostar mais de estar perto de seus corgis do que de humanos, ela demonstra que, como mulher, entende Diana. Mas, como rainha, não a aprova. Bem parecida com a abordagem que dão a ela em The Crown. 

Dois pelo preço de um Se você gostou do retrato de Diana na série The Crown, vai gostar deste. 

Presta atenção, freguesia: Na fotografia de Claire Mathon e no figurino de Jacqueline Durran, que reproduz os famosos trajes de Diana.

Indicação ao Oscar 2022:

  • Melhor atriz (Kristen Stewart)

Spencer

Drama
12

Direção

Pablo Larraín

Produção

Shoebox Films Komplizen Film FilmNation

Onde assistir

AppleTv (R$ 14,90)
Cinemas

Elenco

Kristen Stewart
Jack Farthing,
Sally Hawkins
Timothy Spall,
Amy Manson,
Stella Gonet
Sean Harris
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QUEM FEZ
Gabriela Franco

Gabi Franco

Editora de filmes e séries na Tangerina, Gabi Franco é criadora do Minas Nerds, jornalista, cineasta, mãe de gente, pet e planta. Ex- HBO, MTV, Folha, Globo… É marvete, mas até tem amigos DCnautas.

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