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Euphoria capa

Divulgação/HBO

Crítica

Segunda temporada de Euphoria mergulha nas drogas, sexo e saúde mental

A segunda temporada de Euphoria abre feridas e revela medos e frustrações que nascem na adolescência

Fernanda Alcântara

Fernanda Alcântara

Depois de um hiato de dois anos e meio desde a primeira temporada, Euphoria encerrou seu segundo ano tratando de assuntos de ainda mais peso, com destaque para saúde mental, relacionamentos e, claro, vício em drogas. A protagonista é Rue (Zendaya), garota que enfrenta o ensino médio sempre às voltas com recaídas, que dão maior gravidade aos dramas típicos da idade.

Criada por Sam Levinson, a série tem como grandes destaques a fotografia e as atuações viscerais do elenco. Mas é preciso fazer justiça e dizer que a produção também ganha pontos por levantar assuntos significativos, comoventes e, porque não, às vezes até divertidos. A segunda temporada começou forte e continuou melhorando, até um final impressionante.

“Há diferença entre o que você acha que deve querer e o que realmente deve querer. (…) É tudo muito confuso e tudo o que você não precisa é se sentir mal por não sentir algo que deveria”. A frase, dita pela personagem Kat (Barbie Ferreira) como um misto de reflexão com pitadas de autoajuda, aparece na segunda temporada e, honestamente, resume o espírito da série, que se coloca como um acesso direto para o que talvez seja a fase mais desconfortável da vivência humana: a adolescência.

Euphoria capa

Euphoria - segunda temporada

Rue é o coração da série

Relembrando a primeira temporada

Para começar a jornada por este intenso mundo da adolescência, é preciso entender que por vezes a série é muito difícil de assistir, em especial por despertar gatilhos dos mais variados com seu estilo quase inebriante de texto, fotografia e trilha sonora. Muitas vezes, ela coloca o espectador tão imerso em suas cenas que as sensações parecem físicas, o que consequentemente pode trazer um incômodo real aos mais sensíveis.

Conhecemos Rue na primeira temporada como uma adolescente de 17 anos que acaba de sair de uma clínica de reabilitação para usuários de drogas. Ela também é a narradora que conduz as histórias que se entrelaçam. Portanto, a narrativa da série parte de sua perspectiva onipresente, que vai mudando o tom de acordo com o desenrolar dos acontecimentos e de seu estado de lucidez e maturidade. Depois de ser liberada da reabilitação, Rue volta para casa e faz amizade com uma garota trans chamada Jules (Hunter Schafer), por quem se apaixona. E esse relacionamento acaba mudando todas as relações da cidade. 

Em quase todos os episódios, os prólogos mostram um pouco da história de cada personagem, mostrando as complexidades de suas vidas, mergulhando em temas como aceitação, sexualidade, vícios e saúde mental dos jovens do ensino médio, de forma quase didática.

Euphoria

Da esquerda para a direita: BB (Sophia Wilson) Cassie (Sydney Sweeney) Kat (Barbie Ferreira) e Maddy (Alexia Demie)

Divulgação/HBO

Na primeira temporada vemos Kat, enfrentar expectativas e realidades sobre sua sexualidade, Jules lidar com sua saúde mental e transexualidade, Nate (Jacob Elordi) questionar a masculinidade tóxica e o quanto isso afeta sua saúde mental, Maddy (Alexa Demie) lutar com sua autoestima e vaidade, McKay (Algee Smith) ser vítima de racismo e Cassie (Sydney Sweeney) tentando definir sua identidade. 

Esta descrição simplista não dá conta da densidade dos personagens, pois a cada situação o roteiro mostra o quão paradoxais podemos ser, indo muito além do que simplesmente humanizar os personagens. A partir das atuações pungentes, temas atuais vão se complementando e criando identificação com o público. Eis o porquê do sucesso absoluto da primeira temporada, que rendeu um Emmy a Zendaya.

Nova temporada, velhos problemas 

Depois de meses e meses de expectativas e publicidade intensa, a segunda temporada de Euphoria não decepcionou, embora tenha deixado novas perguntas sem respostas.

Desde o primeiro episódio, é possível reconhecer todos os elementos que fizeram sucesso até aqui, principalmente no ritmo dos arcos das histórias, ora contemplativos, com uma fotografia impecável, ora caóticos, com energia e interessantes movimentos de câmera. Há sempre algo acontecendo e é uma mudança refrescante em comparação a séries com a mesma temática, deixando o espectador apreensivo e com o constante sentimento de que as coisas vão dar errado. 

Maddy

Maddy (Alexa Demie) conquistou o coração dos brasileiros.

Personagens que na primeira temporada foram colocados em segundo plano ganham novos desenvolvimentos, com destaque para Lexi (Maude Apatow), irmã de Cassie, e Fezco (Angus Cloud), um jovem traficante, casal improvável que encanta o público. Outro personagem em evidência, principalmente no Brasil, agora nas redes sociais, foi Maddy (Alexia Demie), por sua personalidade forte e carismática, uma persona que por aqui adoramos abraçar. 

Como na primeira temporada, a trilha sonora de Labirynth também é um ponto alto, capaz de mergulhar o público ainda mais fundo nesse universo de assuntos muito sérios, mas de uma maneira que não é enfadonha. E todos estes componentes entram em equilíbrio a partir da performance poderosa de Zendaya.

O que esperar daqui para frente?

Com o fim da segunda temporada e a terceira (e provavelmente última) já confirmada, a série deixa várias pontas soltas e expectativas para sua continuação, que deve estrear apenas no final de 2023 ou começo de 2024. 

E o desafio continua grande. Por um lado, fãs sentiram falta do desenvolvimento de personagens como Ali (Colman Domingo), conselheiro de Rue no grupo de Narcóticos Anônimos, Kat e sua carreira de cam girl, McKay e a saída súbita do ator que o interpreta (rumores apontam que Algee Smith teve sua participação reduzida por não ter se vacinado contra a Covid-19), e até mesmo de Jules, parcialmente ofuscada em sua narrativa. Por outro lado, novos personagens ganharam o público e deverão também aparecer na próxima temporada, como Elliot (Dominic Fike) e Faye (Chloe Cherry).

Os criadores precisarão ainda dar conta de perguntas levantadas discretamente nesta segunda parte, como o desfecho do relacionamento entre Cassie e Nate e principalmente sobre “o irmão perdido” de Nate, uma criança que aparece em uma foto de família sem nunca antes ter sido mencionada, trama deixada propositalmente em aberto para as inúmeras teorias que os fãs irão criar nos próximos meses. 

Gia

Gia (Storm Reid) - foi a grande injustiçada nesta temporada.

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Mas a personagem Gia (Storm Reid) ainda é a grande injustiçada por Sam Levinson. Irmã de Rue, ela continua sendo preterida entre as preocupações da mãe, mesmo passando pelo luto da morte do pai, pelas crises da irmã dependente de drogas e tendo que sobreviver sozinha à adolescência. A série dá indícios de que vai explorar mais a história da personagem, já que Rue, que conduz a história, só consegue enxergar de verdade a irmã quando está sóbria.

No final desta temporada, temos o reconhecimento do luto e da esperança com o desfecho de Rue. Um pouco de redenção para a personagem, que mal consegue se reconhecer em sua própria força e amor. Em tempos de pandemia, em que milhões de vidas foram perdidas pela Covid-19, esta reflexão sobre como cada indivíduo é único no tratamento de seus sentimentos, em especial o luto de entes queridos, faz de Euphoria uma série muito especial.

E essa espécie de “pacto” que acabamos desenvolvendo com esses personagens acaba contagiando nossos julgamentos sobre cada um deles. Afinal, a humanidade de uma pessoa é construída no dia a dia, a partir das experiências e sobrevivências. É isso que faz de você o que você é. É isso que faz de Euphoria bombástico e solene. A adolescência é a escola da vida.

Euphoria poster

Euphoria - 2ª Temporada

Drama
18
Direção
Sam Levinson
Produção
HBO
Onde assistir
HBO MAX
Elenco
Zendaya,
Hunter Schafer
Angus Cloud
Jacob Elordi
Sydney Sweeney
Maude Apatow
Alexa Demie
Barbie Ferreira
Storm Reid
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QUEM FEZ
Fernanda Alcântara

Fernanda Alcântara

Fernanda Alcântara é jornalista, mestre em comunicação, mulher negra, mãe da Helena e amante de cartuns nacionais. Aprecia séries, filmes e a arte de criticar tudo.

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