FILMES E SÉRIES

Montagem com animes da Netflix

Divulgação

Netflix

Muito além de Pokémon: Os 15 melhores animes da Netflix

Quer ver animações japonesas na Netflix e não sabe por onde começar? Confira as melhores da plataforma

Igor Lunei

Igor Lunei

Animes se tornaram uma febre mundial, sendo hoje distribuídos em diferentes serviços de streaming, especializados ou não no gênero, como é o caso da Netflix, que têm investido bastante nesse mercado, seja na produção de obras originais, seja na aquisição de animes consagrados em seu catálogo.

Anime é um termo originado da palavra japonesa de mesma pronúncia, usada por lá para se referir a qualquer tipo de animação, seja feita dentro ou fora do Japão. Internacionalmente, o termo foi apropriado para se referir aos desenhos animados feitos na Terra do Sol Nascente.

Geralmente, esses desenhos compartilham de um estilo visual e narrativo próprio e bem destacado, imediatamente reconhecível. E eles se dividem em vários sub gêneros, voltados para meninos, meninas, crianças, adultos, com tramas escolares, de fantasia, de ficção-científica, terror, sobre o cotidiano e muito mais.

Mas quais animações da Netflix merecem o seu tempo? Nessa lista, a Tangerina separa 15 indicações com o que há de melhor na plataforma, incluindo filmes e séries de animação japonesa. Essa lista será constantemente atualizada, à medida que novos animes estrearem no serviço.

Pokémon

Cena de Pokémon: Indigo League

Lançado em 1997, anime Pokémon transformou a série de jogos em fenômeno global

Divulgação/The Pokémon Company

Se Pokémon é hoje a maior franquia da cultura pop internacional em faturamento, parte disso se deve ao anime, que estreou em 1997 e segue firme até hoje. Ao adaptar livremente conceitos da primeira encarnação de jogos, Red, Blue e Green, lançados em 1996, o diretor Kunihiko Yuyama criou uma obra que mudou a maneira como enxergamos o entretenimento e marca infâncias há mais de 25 anos. 

Nessa fase, apelidada como “Saga Indigo”, temos Ash Ketchum, um menino de 10 anos que recebe seu primeiro companheiro, o fofinho roedor elétrico Pikachu, e sai em aventuras pela região de Kanto para se tornar um mestre pokémon. Junto de seus amigos Misty e Brock, Ash nos traz bons momentos de diversão e emoção durante essa jornada, que envolve capturar monstrinhos e colocá-los para lutar, além de bater de frente contra seus adversários atrapalhados, a Equipe Rocket.

A “mágica” de Pokémon está no roteiro e na direção, que conseguem transportar locais, eventos e demais partes dos jogos para o clima que é construído na série. A adaptação se torna ainda maior que o material de origem e dá vida, da melhor maneira possível, àquele pensamento de “e se eu estivesse nesse jogo, como seria?”. É um dos animes mais importantes e divertidos de todos os tempos.

Leva que tá doce: Pokémon tem bichinhos fofinhos brigando, vilões com uniformes legais, um tema musical icônico e maravilhosas frases de efeito.

Dois pelo preço de um: Pokémon é uma obra quase universalmente conhecida, mas o anime é uma pedida certa se você gostou de Pokémon: Detetive Pikachu ou Sonic: O Filme.

Presta atenção, freguesia: Pokémon foi um sucesso tão grande em sua primeira exibição no Brasil que chegou a ganhar um álbum com sua trilha sonora em português. Intitulado “Pokémon – Para Ser um Mestre”, o disco foi lançado em 1999 pela gravadora Abril Music, contou com 13 faixas, e recebeu certificado de Disco de Ouro, com mais de 100 mil cópias vendidas.

Akira

Cena do filme de Akira (1988)

Akira é um dos clássicos da animação japonesa

Divulgação/Toho

É possível creditar o sucesso de Akira como um dos maiores motores para a consolidação da cultura pop japonesa no mundo. O longa-metragem dirigido por Katsuhiro Otomo é um marco na animação como “forma”, e sua assombrosa qualidade técnica se tornou referência de excelência para profissionais da área. Sua importância é justificada quando damos play e nos deparamos com uma obra-prima de um pouco mais de duas horas onde cada minuto vale a pena. Não à toa, ela também está inclusa na nossa lista de melhores filmes da Netflix em geral.

A história se passa numa Tokyo futurista, reconstruída após uma explosão que iniciou a Terceira Guerra Mundial. Nesse cenário, acompanhamos a dupla Kaneda e Tetsuo, membros de uma gangue de motociclistas adolescentes. Quando Tetsuo quase atropela uma criança deformada com capacidades sobrenaturais procurada pelo governo, seus próprios dons afloram e ele é sequestrado por militares.

Porém, o moleque consegue escapar e deixa um rastro de desgraça por onde passa. Só que essa escalada de loucura pode ter uma consequência ainda mais devastadora: o despertar de “Akira”, uma criatura sem controle que pode ser fatal à humanidade.

Akira apresenta as mesmas atmosferas sociais opressoras vistas nas obras de Philip K. Dick e Isaac Asimov, nas quais a tecnologia evoluiu em proporção inversa à qualidade de vida da população. 

O roteiro tece claras críticas a regimes autoritários, com o exército e a polícia sedentos por poder e sangue, a população e a imprensa sendo reprimidas violentamente e uma figura “messiânica” que atrai a atenção popular. Pungente, incômodo, icônico e assustadoramente atual, Akira é nas telas um espelho exagerado da realidade.

Leva que tá doce: Akira consegue ser uma obra política e tratar de temas importantes como repressão, violência policial, fascismo, obscurantismo, etc., ao mesmo tempo que entrega cenas de ação sensacionais, que não devem em nada aos longas pipoca de Hollywood.

Dois pelo preço de um: Se você gostou de Robocop, clássico de Paul Verhoeven, vai gostar de Akira, que traz a mesma mistura de ação com crítica afiada à sociedade.

Presta atenção, freguesia: A cena em que Kaneda derrapa de lado com sua moto vermelha se tornou emblemática a ponto de diferentes animações a imitarem, como Hora da Aventura, Steven Universo, Os Jovens Titãs, Star Wars: Guerras Clônicas, As Tartarugas Ninja, Pokémon e mais.

Little Witch Academia

Imagem promocional de Little Witch Academia

Little Witch Academia é comédia com os clichês de histórias sobre aprender magia

Divulgação/Netflix

O estúdio Trigger é uma casa de grandes ideias trabalhadas em grandes execuções. Obras como Gurren Lagann, Kill La Kill e Inferno Cop demonstram o quão transgressores seus diretores e animadores podem ser em temáticas mais fora da caixa. E em Little Witch Academia, o grupo atinge um novo patamar ao levar seu estilo para o universo infantil e entregar um anime doce e colorido para toda família.

A história gira em torno da aspirante a bruxa Akko. Desde criança, ela é fã de Chariot, uma feiticeira famosa. Mesmo sem talento para a magia, Akko se matricula na alma mater de sua musa inspiradora, a Academia Mágica Luna Nova. A partir daí, acompanhamos as trapalhadas da garota e suas amigas no ambiente escolar, que se prova muito mais desafiador e divertido do que ela imaginava. É como um Harry Potter e a Pedra Filosofal animado e de comédia. 

As situações em que Akko se mete pela falta de talento têm desfechos hilários. Para completar, a obra é cheia de referências à cultura pop e histórias clássicas, e sobra ainda espaço para discussões políticas no enredo, como manipulação de massa, preconceito, machismo e conflito de classes, sempre com um verniz acessível para a molecada. Little Witch Academia é, acima de tudo, um anime cheio de coração.

Leva que tá doce: Little Witch Academia é um anime que te deixa com um sorriso no rosto. Ainda assim, consegue inserir discussões sociais mais sérias, mas sempre de um jeito leve de acompanhar.

Dois pelo preço de um: A referência óbvia é Harry Potter. Se você gostou da obra de J.K. Rowling, vai gostar desse anime, que segue a mesma batida dos bruxinhos de Hogwarts, mas com um foco maior na comédia.

Presta atenção, freguesia: Os trabalhos do estúdio Trigger são caprichados na animação. Eles desenham os personagens com aparência mais cartunesca que o habitual e isso é um charme a mais em Little Witch Academia.

Olhos de Gato

Imagem promocional de Olhos de Gato

Olhos de Gato brinca com situações inusitadas sobre troca de corpo

Divulgação/Netflix

Durante um festival tradicional japonês, a estudante Miyo Sasaki compra uma máscara mágica que pode transformá-la em gata. Na primeira experiência dela como bichana, enquanto assiste a explosão de fogos do festival, ela é acolhida por um colega de classe que costuma ser mais frio com pessoas, mas solta seus sentimentos com a gatinha. Miyo se apaixona pelo rapaz e, como humana, precisa quebrar as paredes que ele coloca e conquistá-lo.

É uma graça de filme juvenil, que mistura uma porção de clichês de histórias colegiais com uma viagem lisérgica que até demora um pouquinho pra acontecer, mas bate forte quando vem. No fundo, é uma grande alegoria para a adolescência. Nesse período, é como se os problemas ganhassem uma proporção bem maior na cabeça daqueles que os vivem. Só que aqui as consequências são literalmente surreais.

Olhos de Gato aproveita esse gancho místico para brincar com estereótipos de romances teen de um jeito divertido de assistir. Mesmo cenas frequentes em animes do tipo, como aquela em que o casal divide um guarda-chuva, são feitas às avessas. E se romances nesse estilo não forem sua praia, no terceiro ato, o filme se transmuta numa fantasia maluca com elementos de thriller, paranóia, numa espécie de pacto fáustico que sempre tem de tudo para terminar em confusão.

Leva que tá doce: Olhos de Gato leva clichês de filmes colegiais românticos para um outro lado ao inserir um elemento sobrenatural no enredo. É bacana ver como ele se desenvolve a partir dessa diferença.

Dois pelo preço de um: Se você gostou de Sexta-Feira Muito Louca, vai gostar de Olhos de Gato. Embora o filme com Lindsay Lohan e Jamie Lee Curtis trocando de corpo fale sobre a relação de mãe e filha, é possível traçar um paralelo entre as duas obras no sentido de a protagonista estar em outro corpo e utilizar isso como uma vantagem para algo.

Presta atenção, freguesia: As cenas no mundo dos gatos remetem bastante ao estilo de cinema do estúdio Ghibli, o que deixa o filme com uma cara de mistura entre o clássico e o contemporâneo da animação.

Dorohedoro

Imagem promocional de Dorohedoro

Dorohedoro é prato cheio para fãs de Tarantino

Divulgação/Netflix

Dorohedoro é um anime que, para o bem ou para o mal, não passa incólume. Ele conta a história de um grandalhão com cabeça de lagarto que tem a memória apagada e investiga seu passado com a ajuda de uma cozinheira. Eles moram em um lugar imundo e perigoso chamado Buraco, onde feiticeiros vindos de outra dimensão praticam magia nos moradores. Para juntar pistas, eles capturam os bruxos que aparecem no bairro. Assim, o réptil pode abocanhar (literalmente) suas cabeças para que um homem que mora em sua garganta diga se são ou não o culpado pela transformação.

O roteiro deixa regras narrativas mais óbvias de lado e nos entrega uma trama no estilo de Pulp Fiction, em que ninguém é realmente bom, mas mesmo o sujeito mais perverso consegue despertar nossa afeição. Pois tal como no filme de Quentin Tarantino, o anime dedica vários momentos à interação desses personagens macabros entre si em situações rotineiras. 

O visual parece retirado de uma revista punk dos anos 1970. É uma estética suja extremamente detalhada que exprime uma confusão mental antagônica entre nojo e limpeza que a história quer passar. Tudo agravado ainda pelo estilo violento do gênero gore de virar o estômago em momentos totalmente fora da casinha. Quem diria que cogumelos poderiam ser tão angustiantes?

Essa é uma opção de série lindamente agressiva, grotesca, surtada, bastante estilizada, imaginativa e quase anárquica. Há um balanço ideal entre os discursos políticos questionadores e os momentos de puro entretenimento escapista. Ela não se deixa levar por soluções fáceis e surpreende a cada episódio. Sem dúvidas, um dos animes mais legais dos últimos anos.

Leva que tá doce: Dorohedoro é legal por ser uma série que rasga o manual de regras mais básicas de roteiro e empurra alguns limites sobre como protagonistas e antagonistas devem se portar. E por ser extremamente estiloso em seu visual punk underground dos anos 1970.

Dois pelo preço de um: Dorohedoro é feito para os fãs de Tarantino. O anime caminha ao lado de obras como Cães de Aluguel, Pulp Fiction, Kill Bill e Os Oito Odiados, nas quais os bandidos esbanjam carisma a partir de diálogos espertos.

Presta atenção, freguesia: O anime inteiro é feito utilizando computação gráfica que imita o estilo de traço 2D. Diferente de outras obras com essa proposta, ele de fato consegue enganar e exibir bastante fluidez nas cenas.

Neon Genesis Evangelion

Imagem promocional de Neon Genesis Evangelion

Evangelion é um dos animes mais cultuados de todos os tempos

Divulgação/Netflix

Um dos animes mais celebrados da história, Evangelion tem diferentes versões. Em 2021, o diretor Hideaki Anno lançou o quarto e último capítulo de um remake cinematográfico dessa história, que está, inclusive, no serviço rival Amazon Prime Video. Mas sua melhor versão ainda é a da animação original da década de 1990. Nela, Anno mostra o quanto desenhos seriados para TV podem fugir dos padrões e adquirir uma mão autoral pesada que leva as coisas para outro patamar.

Num futuro pós-apocalíptico, a Terra constantemente é invadida por “anjos”, criaturas gigantes extremamente destrutivas. Para impedir esses monstros, uma organização paramilitar japonesa, a NERV, utiliza robôs gigantes pilotados por adolescentes, os EVAs. No meio disso está Shinji, o filho do diretor da organização, que precisa comandar o EVA principal, mas não acredita em si mesmo para essa tarefa.

O lance não é nem só o que o anime conta dessa história, mas como ele faz isso. A direção explora vários artifícios narrativos para que, em tela, as coisas tenham uma camada de semiótica que aumente a experiência e para que as informações sejam passadas de maneira não expositiva. 

Esses artifícios vão de brincar com as escalas dos personagens e dos cenários para ilustrar o quão pequenos eles são em relação às situações até colocar as informações prévias daquele mundo como uma aula de fundo em que os alunos nem estão prestando atenção. O resultado é sensacional.

Leva que tá doce: Evangelion é legal por ser uma fábula sobre autoconfiança contada com robôs gigantes e batalhas escalafobéticas.

Dois pelo preço de um: Evangelion é uma obra fundamental para qualquer fã de histórias com monstros e robôs gigantes, o que deve agradar os fãs de Círculo de Fogo. O filme de Guillermo del Toro é uma ode às histórias de mecha e Evangelion é uma das maiores nesse estilo, mas com uma veia filosófica maior.

Presta atenção, freguesia: À época do lançamento, o estúdio Gainax ficou sem dinheiro para animar a ideia original dos episódios finais, de modo que, na série, eles são improvisados utilizando materiais de gaveta em uma narrativa esquisita que se passa dentro da cabeça do protagonista. Em 1997, ano seguinte ao fim da exibição original do anime, foi lançado um longa chamado The End of Evangelion, também disponível na Netflix, com o que seria o final original pensado para a história.

Devilman Crybaby

Cena de Devilman Crybaby

Original da Netflix, Devilman Crybaby é união de dois mestres da animação japonesa

Divulgação/Netflix

Devilman Crybaby é o que acontece quando as ideias de dois gênios pirados colidem. De um lado, temos Go Nagai, um dos maiores autores de mangá da história do Japão, responsável por obras seminais, como Cutie Honey, Mazinger Z e Devilman. De outro, temos o diretor Masaaki Yuasa, conhecido por expandir a loucura suas animações, como fez em Ride Your Wave, Keep Your Hands Off Eizouken! e Ping Pong. O resultado é brilhante.

Devilman Crybaby é uma releitura quase sexual de Yuasa sobre a obra de Nagai. Essa reinterpretação não só faz jus aos pontos principais da obra original, mas eleva seu conceito e execução para um patamar ainda mais enlouquecido, onde o erotismo tem um papel bem grande. 

No anime, um moleque é convencido a se unir a um demônio para impedir um eventual apocalipse. Mas ele também pode ser lido como uma metáfora para os desafios da adolescência, as concepções de bem e mal ditadas pela religião, e os sentimentos conflitantes de admiração, amor, inveja e tesão que sentimos por alguém próximo que não conseguimos atrair.

Caso fosse um live-action, Devilman Crybaby estaria em casa na filmografia do diretor holandês Paul Verhoeven. O jeito que a narrativa vai desenvolvendo a corrupção de uma alma “limpa” foge de moralidades. Na verdade, é como se o anime questionasse se essa corrupção é ruim mesmo ou só vista assim socialmente. 

O protagonista sai de uma figura praticamente ilibada, tamanha é sua falta de confiança, para alguém mais seguro de si conforme a monstruosidade (e sensualidade) vai se apossando dele. Talvez não seja um anime para todo mundo, mas parte do papel da arte é tirar aqueles que a consomem da zona de conforto.

Leva que tá doce: A espiral de perigo e loucura é muito bem desenhada. As conversas a respeito de controle pelo conservadorismo e puritanismo propostas pelo anime são interessantes.

Dois pelo preço de um: Se você gosta de obras que desconstroem o sentido de “pecado”, vai gostar dessa. Sabe filmes como Garota Infernal, Druk e outros que dão uma invertida na culpa cristã e colocam o ato de pecar como o bom? É mais ou menos nessa linha.

Presta atenção, freguesia: O traço esquisitão ajuda na estranheza que a história parece querer despertar.

Cowboy Bebop

Imagem promocional de Cowboy Bebop

Em Cowboy Bebop, música e animação dialogam de forma magistral

Divulgação/Sunrise

Ignore a série live-action feita pela Netflix e vá direto para o anime original, que também está no catálogo. Cowboy Bebop é uma das maiores animações japonesas já feitas. 

Essa é a obra-prima do diretor Shinichiro Watanabe, que também tem em seu currículo joias como Samurai Champloo (2004), Space Dandy (2014) e mais. São várias as marcas do autor: a construção de universos detalhados e imersivos, uma multiplicidade de personagens que caminham em camadas de cinza, um humor ácido que ridiculariza a própria história, a trilha sonora inusitada como elemento da própria narrativa.

Cowboy Bebop traz tudo isso ao máximo. Ambientado em um futuro no qual a humanidade passa a habitar o espaço, vemos o dia a dia de uma trupe de caçadores de recompensas. Para contar essa história, o anime joga num liquidificador referências do cinema western, com cenários desolados, onde a lei é feita na bala; do cinema noir, com personagens tridimensionais, fotografia expressionista e a figura da mulher fatal; e o conceito de futuro usado, em que as tecnologias avançaram tanto que já são desgastadas para os personagens. Mas Cowboy Bebop fica ainda melhor quando percebemos o quão destacada e importante para a história é a trilha sonora, que vai de rock clássico, metal e blues até jazz e bossa nova. 

Vale ressaltar também como o anime que envelheceu bem, pois já era atento a questões de representatividade quando nem produções norte-americanas investiam tanto nisso. Há aqui personagens de diferentes cores, gêneros, sexualidades, credos e nacionalidades. E suas representações fogem de estereótipos óbvios. Some a isso tudo o estilo charmoso de animação que imperava no Japão nos anos 1990 e o resultado é matador. Um dos melhores animes já feitos.

Leva que tá doce: Em qualidade de roteiro e produção, é como se cada episódio fosse um mini filme. A trilha sonora é bem esperta dentro da narrativa. As referências aos cinemas western e noir na ideia de futuro usado dão muita personalidade ao visual. E há uma representatividade bacana entre os personagens, com uma das coadjuvantes podendo atualmente ser lida como uma pessoa de gênero não binário.

Dois pelo preço de um: Cowboy Bebop está no meio-termo entre o exagero maravilhoso de O Quinto Elemento e a tensão western espacial empoeirada de O Mandaloriano.

Presta atenção, freguesia: Rola um agrado para o Brasil no nome de três figurantes recorrentes da série, os “Three Old Men”. Eles se chamam Antônio, Carlos e Jobim.

Great Pretender

Imagem promocional de Great Pretender

Inspirado em filmes de assalto, Great Pretender capricha na animação

Divulgação/Netflix

Alguns dos momentos mais memoráveis em histórias são os que personagens recheados de carisma, com suas personalidades bem delineadas, interagem e trazem o lado mais “humano” das tramas em que estão inseridos. É nisso que está o grande trunfo de Great Pretender. Por mais que o roteiro escalone em fios gigantescos, o grupo de personagens cativantes cujas diferenças se completam traz um sentimento “família” para essa trama sobre um grupo de golpistas.

Great Pretender começa quando o jovem Makoto Edamura tenta passar a perna no turista francês, o Laurent Thierry, mas descobre que o gringo é bem mais rodado nesse universo. Makoto é atraído para uma espiral de artimanhas internacionais bem mais elaboradas e sérias que a rotina do moleque. O anime escolhe contar esse universo por meio de mini arcos, como se fosse uma antologia com vários filmes de roubo, divididos em episódios com as missões que eles se metem. 

Essa acaba sendo uma boa decisão narrativa, já que permite um desenvolvimento maior dessa “família” a qual somos apresentados. E é ainda melhor quando Great Pretender se aproveita da falta de amarras físicas por ser uma animação e decide pirar nas possibilidades disso. As cenas de corrida aérea em Singapura são de tirar o fôlego. Uma jóia que vale ser vista e revista. E tem o Freddie Mercury cantando o tema de encerramento.

Leva que tá doce: Great Pretender tem personagens inesquecíveis, capricho na animação, alto nível de ação e humor.

Dois pelo preço de um: Great Pretender usa muito do estilo hollywoodiano de filmes de assalto, como Onze Homens e um Segredo, nos quais um grupo de pessoas executa um plano complexo para roubar um local fortificado.

Presta atenção, freguesia: A animação de encerramento dos episódios é uma recriação do videoclipe da música tema, The Great Pretender, de Freddie Mercury, mas utilizando gatos.

Hi Score Girl

Cena da segunda temporada de Hi Score Girl

Hi Score Girl tem romance fofinho e pegada nostálgica

Divulgação/Netflix

Hi Score Girl é um dos melhores animes sobre cultura nerd dos últimos tempos. Ele usa um artifício parecido com o de The Big Bang Theory, inserindo referências da cultura pop como piadas ou parte integrante da narrativa, mas é focado em um único nicho: o de jogos retrô.

O anime se passa no Japão dos anos 1990, onde ocorria a explosão de videogames caseiros e fliperamas no mainstream de lá. Haruo, um moleque gamer daqueles que compra revistinha e frequenta fliperama, entra em um triângulo amoroso com duas meninas gamers, Ono e Hidaka.

O legal é que não só acompanhamos os personagens jogando medalhões como Mortal Kombat, Darkstalkers ou Street Fighter II, mas esse universo se torna parte fundamental da narrativa. Em um dado momento, o protagonista literalmente conversa com personagens dos jogos. Guile, de Street Fighter II, se torna um tipo de mentor para ele. É uma história bem bonita, divertida e com peso extra para quem tem paixão por jogos de antigamente.

Leva que tá doce: A utilização dos games dentro da história de Hi Score Girl é criativa. O romance dos personagens é bonitinho.

Dois pelo preço de um: É o anime perfeito para fãs de jogos antigos, porque o anime todo presta homenagens a jogos e a era de ouro dos fliperamas de forma geral.

Presta atenção, freguesia: Assim como Dorohedoro, Hi Score Girl é um dos poucos animes feitos em 3D emulando o estilo 2D que consegue convencer nisso.

A Viagem de Chihiro

Cena de A Viagem de Chihiro

A Viagem de Chihiro é a única animação japonesa a ganhar o Oscar

Divulgação/Studio Ghibli

Chihiro é o filme definitivo do diretor Hayao Miyazaki e do estúdio Ghibli. É também um dos filmes de animação definitivos do cinema japonês. Durante anos, foi a maior bilheteria caseira da história do Japão, recorde que só foi desbancado em 2021 pela febre Demon Slayer: Mugen Train. Foi também o primeiro e único representante do país a ganhar o Oscar de melhor filme de animação, em 2003, ainda no segundo ano da categoria.

É como uma perspectiva japonesa de Alice no País das Maravilhas, mais exagerada, mais exuberante e certamente mais perturbadora. Começa quando a garotinha Chihiro e seus pais vão parar em uma dimensão governada por deuses e habitada por seres do folclore asiático. Sua mãe e seu pai encontram uma barraca com alimentos que eles julgam ser grátis. E quando começam a comê-la, se viciam e são transformados em porcos. Para salvar os dois, Chihiro precisa trabalhar numa casa de banhos para seres mitológicos.

A partir daí, temos a jornada do herói completa. A menininha passa por situações de perigo que exigem coragem e inteligência para se safar. Ela amadurece nesse processo, quase que na marra, pois tem na liberdade dos pais um norte para todo aquele pesadelo fantástico. 

Hayao Miyazaki é um gênio quando o assunto é escrever personagens femininas. E também é um gênio em todos os outros aspectos do filme, cujo visual é arrebatador e a trilha sonora é um desbunde. A Viagem de Chihiro é um petardo cinematográfico e serve como uma excelente porta de entrada para o universo de filmes do estúdio. Por isso, é um anime que também está incluso na nossa lista de melhores filmes da Netflix.

Leva que tá doce: Chihiro tem personagens femininas muito bem escritas. O visual é de derreter o cérebro. Algumas das cenas mais inesquecíveis do cinema de animação mundial estão aqui.

Dois pelo preço de um: Um paralelo bacana no cinemão hollywoodiano para A Viagem de Chihiro são filmes infantis de fantasia com um pé no macabro que eram feitos na década de 1980, como Labirinto – A Magia do Tempo, O Mundo Fantástico de Oz, O Cristal Encantado e História Sem Fim.

Presta atenção, freguesia: O modo como as criaturas mitológicas são desenhadas é igualmente fofo e perturbador.

Carole & Tuesday

Imagem promocional de Carole & Tuesday

Carole & Tuesday brilha na trilha sonora

Divulgação/Netflix

Outro anime de Shinichiro Watanabe, dessa vez dividindo a direção com Motonobu Hori (de Super Crooks, também na Netflix). Sabe programas de calouros, como Ídolos, The Voice e The X-Factor? Imagine essa premissa aplicada a um anime que busca discutir os males sociais que os avanços tecnológicos e a automação podem provocar. Parece loucura, mas a dupla consegue tecer uma trama política afiada partindo disso.

Carole & Tuesday é ambientado no futuro, em que Marte foi colonizado pela Terra. O planeta vermelho abriga uma sociedade que é tão evoluída quanto desigual em termos de oportunidades, justiça e distribuição de renda. O que fica ainda pior pela expansão de inteligências artificiais, que tomam trabalhos braçais e invadem também os campos culturais. Os computadores pensam, criam e delimitam os repertórios de uma porção de DJs, bandas e cantores. Eles preveem, inclusive, o que as pessoas irão sentir ao ouvir aquilo.

Nesse contexto, o desenho nos faz acompanhar a ascensão contrastante de duas carreiras: a da ex-atriz mirim Ângela, apoiada por um grande investimento financeiro e amparada pelo que de melhor há em inteligências artificiais, e a da dupla Carole e Tuesday, cujo repertório é composto por ambas e conquista o público pela “alma”. O primeiro arco, com o reality show musical, é encantador. A animação é radiante e a trilha sonora, que rendeu dois discos, é matadora.

Leva que tá doce: Há diversidade racial no elenco. O debate proposto sobre a automação da cultura é interessante. A trilha sonora é especial.

Dois pelo preço de um: É possível traçar paralelos com Black Mirror, pois a série britânica já trouxe temas parecidos, discutindo como a tecnologia pode ser invasiva em alguns dos seus episódios.

Presta atenção, freguesia: Na trilha sonora. Em especial, tem uma música da personagem Ângela, “Move Mountains”, que não sai da cabeça.

Violet Evergarden

Cena de Violet Evergarden

Violet Evergarden mistura drama com histórias de guerra

Divulgação/Netflix

Alguns animes envelhecem como um bom vinho. Violet Evergarden é um deles. Seu capricho visual é maior que o normal, onde traços, cores, tonalidades, luzes e sombras são bem exploradas. E isso dá um ar cinematográfico que abarca bem o tipo de história que está sendo contada.

O anime é protagonizado por uma ex-militar de 14 anos, Violet, cujos braços foram substituídos por próteses, que tenta a vida como escritora de cartas no pós-guerra. O problema é que, no exército, ela era treinada e utilizada como uma arma viva, praticamente sem emoções. Com o fim da batalha, ela perde sua utilidade no mundo. Ao longo dos episódios, acompanhamos sua evolução social, ao abandonar seu lado máquina de escanteio e assumir sua humanidade.

Numa comparação nada pejorativa, Violet Evergarden é como uma novela de época das 6, sendo um melodrama desenvolvido com a delicadeza certa. É uma boa opção para quem busca um entretenimento mais sóbrio, com conflitos diferentes, internos, em vez de batalhas e explosões. O episódio em que ela trabalha como ghostwriter de uma princesa, em especial, é bem tocante.

Leva que tá doce: Em Violet Evergarden, é interessante acompanhar o desenvolvimento dela em sociedade.

Dois pelo preço de um: Se você gosta de dramas leves em períodos de guerra, vai gostar de Violet Evergarden. O anime vende bem o clima de uma sociedade tentando se reconstruir após o rombo causado pela guerra. Bons dramas podem ser retirados disso.

Presta atenção, freguesia: A fotografia é muito bem feita. Dá a impressão de que os animadores tentaram ao máximo deixar as cenas com iluminações que teriam em live-action.

Cannon Busters

Imagem promocional de Cannon Busters

Cannon Busters é raríssimo exemplo de anime comandado por um diretor negro

Divulgação/Netflix

LeSean Thomas é um dos personagens mais interessantes da cena atual de animações. Assumidamente otaku (apelido utilizado por fãs da cultura pop japonesa), ele está presente em ao menos duas séries ocidentais que beberam muito da fonte nipônica de traço e narrativa: A Lenda de Korra (2012-2014) e The Boondocks (2005-2014). Em 2019, ele realizou o maior sonho de um otaku: lançar animes no Japão.

Seu melhor projeto é Cannon Busters. A série é ambientada num cenário que mistura filmes de faroeste com o Japão do período Edo (1603-1868), mas retratado com tecnologia futurista de ficção-científica e elementos de fantasia medieval. Parece esquisito lendo assim, mas funciona em tela.

Nós seguimos aqui as aventuras de S.A.M, uma androide que atua como dama de companhia e segurança particular. Programada para fazer amigos, ela precisa da ajuda de um bandido lendário e imortal, Philly the Kid, para chegar até o castelo distante onde está seu príncipe.

É muito legal acompanhar a viagem do grupo. Os personagens acumulam experiências, amizades, inimizades e cadáveres por onde passam. As referências cinematográficas são um toque extra. Tem uma com O Massacre da Serra Elétrica que é de embrulhar o estômago. E é sempre muito bom ver animes protagonizados por personagens negros, algo que Thomas repetiu recentemente em Yamato (também disponível na Netflix) e que poderia se tornar mais frequente entre diretores.

Leva que tá doce: É um anime protagonizado por personagens de pele negra, algo raríssimo nessa indústria, com uma história excelente, ambientação legal e referências bacanas.

Dois pelo preço de um: Embora sejam histórias bem diferentes, Cannon Busters e Westworld têm um cenário parecido nisso de western com sci-fi carregado na violência.

Presta atenção, freguesia: Há uma cena de tiroteio num saloon logo no início lindíssima de assistir.

Samurai 7

Cena de Samurai 7

Samurai 7 é releitura futurista dos filmes de Akira Kurosawa

Divulgação/Gonzo

Em 1954, o diretor Akira Kurosawa lançou Os Sete Samurais, um dos filmes mais marcantes de sua carreira. Ele se passa no período Sengoku da história japonesa (1467-1615) e acompanha a ação de sete samurais, contratados para treinar e defender uma aldeia de agricultores de arroz. O longa-metragem influenciou outros filmes, ganhando inclusive uma adaptação western em Sete Homens e Um Destino, de John Sturges.

Samurai 7, o anime, pega essa premissa do filme de Kurosawa e a reimagina dentro de uma ficção-científica futurista, porém medieval. Pois a história acontece num futuro muito distante, num planeta que costumava ser chamado de Terra. A sociedade, porém, parece ter voltado ao passado, como no período Sengoku, com pobreza extrema, fome e hábitos antiquados. Em contraste a tudo isso, há uma tecnologia que permite que samurais substituam seus corpos por partes robóticas, andando como mechas e intimidando moradores.

É muito interessante observar como o diretor Toshifumi Takizawa, responsável pela animação, utiliza a mesma ideia central do longa-metragem para criar um épico envolvendo política e robôs gigantes, recheado de batalhas inventivas, armas e apetrechos curiosos e um cgi impressionante para a época. Aqui no Brasil, o anime acabou se tornando um daqueles clássicos esquecidos, pois foi exibido no canal fechado Animax, com dublagem do extinto estúdio Álamo, mas não chegou a passar por outras emissoras posteriormente.

Leva que tá doce: Samurai 7 é legal porque é a reimaginação de uma história muito famosa, mas inserindo elementos fantasiosos que funcionam dentro do nicho de animes de ação. E as lutas são incríveis.

Dois pelo preço de um: É um ótimo anime para os fãs de Naruto, pois também se passa num cenário no qual a tradição e a modernidade japonesa se encontram, além de caprichar nas sequências de ação como um de seus maiores chamarizes.

Presta atenção, freguesia: A mistura de animação em 2D com robôs gigantes em computação gráfica nunca ficou melhor do que em Samurai 7.

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Igor Lunei

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Igor Lunei é jornalista e escreve na Tangerina sobre cultura pop asiática, tema que também pesquisa. Do Rio de Janeiro, é fã de cinema, música, gibis e animes. Tem textos também no JBox.

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