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Capa de Unsighted

Reprodução/Humble Games/Studio Pixel Punk

Entrevista

6 meses depois, criadoras de Unsighted equilibram sucesso e burocracia

Criado por duas mulheres trans, Tiani Pixel e Fernanda Dias, Unsighted foi um dos melhores títulos indies de 2021 e continua fazendo sucesso. Elas contam o que mudou (ou não) depois do game

Jessica Pinheiro

Jessica Pinheiro

Em 30 de março, Unsighted vai completar seis meses de seu lançamento. O jogo independente foi criado por duas brasileiras trans, Tiani Pixel e Fernanda Dias, que compõem o Studio Pixel Punk. O primeiro projeto autoral das duas foi desenvolvido ao longo de quatro anos, e contou com a participação de outras quatro pessoas. Entre elas, o artista Glauber Kotaki e a roteirista Amelia Molino.

Após o lançamento, Unsighted arrancou elogios de crítica e público. O ditado popular diz que após a tempestade vem a calmaria, mas será que isso se aplica à vida de Pixel e Dias? A Tangerina conversou com as duas devs para descobrir.

O que é Unsighted?

Inspirado em jogos de subgêneros como metroidvania e soulslike, Unsighted é um jogo com limite de tempo. O recurso pode ser desabilitado para jogadores que venham a se sentir desconfortáveis com o conceito. Afinal, quanto mais tempo você demorar para cumprir seus objetivos, mais a vida dos personagens é colocada em risco à medida que o tempo passa. No entanto, o elemento é a grande sacada do jogo, e lhe dá um propósito diferente.

A história de Unsighted gira em torno de Alma, uma androide —aqui chamada de autômata— que desperta sem memórias em um laboratório. A jornada envolve recobrar suas lembranças, descobrir o que aconteceu com Arcadia e reencontrar Raquel, sua grande paixão antes da guerra.

Cena de Unsighted

Alma, a protagonista, deitada no colo de sua amada Raquel

Reprodução/Humble Games/Studio Pixel Punk

Apesar de terem sobrevivido à guerra, os autômatos foram privados de um recurso chamado Anima e, por isso, tornam-se Unsighted, androides irracionais e mortais. Por isso, Alma corre contra o tempo para salvar seus semelhantes da insanidade e deterioração, ao ir atrás dos fragmentos de um artefato que pode resolver a questão.

A partir daí, Unsighted permite que você explore os cenários na ordem que quiser, e vai se adaptando às suas escolhas. Como manda o estilo de jogo, novas habilidades desbloqueiam o acesso a novas áreas. Com elas, vêm também batalhas desafiadoras contra chefes —e contra o tempo.

Para sobreviver, Alma usa uma arma de fogo e uma arma branca. A experiência é muito prazerosa, tanto pela câmera com visão de cima, que funciona bem com a movimentação fluida e bem animada de Alma, quanto pela resposta rápida dos comandos.

Completam as qualidades de Unsighted a ambientação futurista e melancólica, a trilha sonora inspirada em chiptune, jazz fusion e música eletrônica, e o visual em arte pixelada leve e espontânea.

Cena de Unsighted

Além de recobrar suas lembranças, Alma precisa correr contra o tempo para salvar outros autômatos

Reprodução/Humble Games/Studio Pixel Punk

Colhendo os louros, apesar do pouco glamour

Com a soma de fatores citados acima, não é à toa que Unsighted se tornou popular, com críticas positivas especialmente fora do Brasil. Inclusive, o sucesso não reconhecido gerou indignação entre os fãs, já que o game foi esnobado no The Game Awards 2021, principal premiação de jogos.

Mas enquanto público e crítica se revoltaram com a não indicação do indie brasileiro ao prêmio, Pixel e Dias estavam ocupadas com burocracias e tributações, além de trabalharem em correções de bugs e outros problemas.

“Pode parecer meio sem graça, mas desde o lançamento nós só estamos lidando com burocracia”, conta Tiani Pixel, principal programadora e designer do game. “É uma parte de ser dev indie que não se ouve falar por aí. Honestamente, nem nós estávamos esperando por tanta dor de cabeça desse lado.”

A demanda burocrática parte do fato de que o Studio Pixel Punk é composto apenas pelas duas desenvolvedoras. Em alguns passos do desenvolvimento, elas tiveram ajuda, especialmente da produtora americana Humble Games, que, segundo Fernanda Dias, foi essencial para garantir a qualidade do jogo.

Desenvolvedoras de Unsighted

Fernanda Dias (à esq.) e Tiani Pixel (à dir.) são as criadoras de Unsighted

Acervo/Tiani Pixel e Fernanda Dias

Dias foi responsável pela trilha sonora e auxiliou Pixel na programação e design. Ela complementa: “Nos meses iniciais do lançamento, além de lidar com essas questões empresariais, foi uma correria danada para responder o feedback dos jogadores, fazer patches (de correção), etc. Tivemos sorte que o jogo não teve tantos problemas com bugs ou coisas assim.”

Ainda assim, a repercussão após o lançamento foi muito positiva. Unsighted apareceu em diversas listas de melhores títulos de 2021, ganhando inclusive alguns prêmios de melhor jogo indie, ou até mesmo de melhor jogo no geral.

Pixel enfatiza ainda que não estava esperando que alguns “figurões” da indústria comentassem sobre o jogo. Alguns inclusive falaram pessoalmente com a dupla sobre Unsighted. “Até o Neil Druckmann (diretor de The Last of Us) elogiou publicamente o jogo!”, se entusiasma a desenvolvedora.

“Justamente por Unsighted ter mecânicas tão únicas que não se vê em outros jogos, ele acabou sendo uma experiência marcante para algumas pessoas. Sem contar a parte da diversidade LGBT e cultural que colocamos nos personagens do jogo”, explica Dias. “Isso ressoou com bastante gente. Ficamos sempre felizes de ver as pessoas comentando que, com Unsighted, foi a primeira vez que elas se sentiram representadas de verdade em um jogo.”

Cena de Unsighted

Unsighted combina ainda mecânicas de criação de equipamentos, chips de aprimoramento, busca por diagramas e outros itens

Reprodução/Humble Games/Studio Pixel Punk

O futuro é invisível, mas promissor

Dentre os conteúdos complementares já lançados para Unsighted, estão recursos extras de acessibilidade e novos modos de jogo. Existem mais planos para o futuro do game, mas por ora, Pixel ressalta que ela e Dias se sentiram muito sobrecarregadas nos primeiros dias pós-lançamento: “Ninguém te prepara pra, da noite pro dia, milhares de pessoas que você nem conhece estarem julgando o seu trabalho, te mandando mensagens, comentando em fóruns sobre o que você fez”.

“Ficamos muito assustadas com a perspectiva de ter que encarar isso pra sempre, mas, com o tempo, aprendemos a lidar melhor e não ocupa mais tanto do nosso dia”, relembra Pixel. Dias, inclusive, explicou que a dupla criou regras como não olhar mensagens antes de dormir, separar uma hora do dia para ler comentários e evitar alguns locais da internet.

Apesar de Unsighted ter sido extremamente bem avaliado e bem recebido, ainda existe uma pesada nuvem sobre a comunidade gamer, repleta de ódio e discursos direcionados a pessoas LGBTQIA+ e latinas. “É normal para quem é artista dar muito mais atenção aos comentários negativos, mas se você não aprende a lidar com isso, não tem como continuar”, desabafa Dias.

Mesmo com o sucesso do trabalho, a vida da dupla não mudou tanto, de acordo com Pixel. “Continuamos acordando todos os dias e dando comida para nossos gatinhos (Pom e Panqueca), lavando louça, assistindo desenho na hora do almoço… Parece um pouco anticlimático, mas nós achamos isso muito reconfortante”, pontua a desenvolvedora.

Gatos das desenvolvedoras de Unsighted

Panqueca (à esq.) e Pom (à dir.) ajudaram no processo de desenvolvimento e agora desfrutam seus merecidos sachês

Acervo/Tiani Pixel e Fernanda Dias

A compositora também reforça seu medo de não saber exatamente o que aconteceria após o lançamento do jogo, e como foi “legal saber que não é o fim do mundo”. Isso gerou mais confiança para as devs em relação aos próximos lançamentos do Studio Pixel Punk. 

Apesar do sucesso de crítica e público, a dupla ainda não sabe exatamente como o número de cópias vendidas vai impactar suas vidas, já que o jogo ainda faz sucesso comercialmente. Mas os planos para o futuro já existem: “Nosso plano inicial é conseguir finalmente sair do aluguel, e talvez vamos conseguir! Além de já termos conseguido bancar o nosso próximo projeto, o que traz uma segurança muito legal para nós”, comemora Dias.

Unsighted está disponível para PC (via Steam), Xbox One, PlayStation 4 e Nintendo Switch.

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Jessica Pinheiro

Jessica Pinheiro

Repórter da Tangerina, Jessica Pinheiro já cobriu games e tecnologia em veículos coo IGN Brasil, Loading TV e The Enemy. É streamer nas horas vagas e nasceu no Ceará, mas infelizmente não tem sotaque. Ama karaokê e também assina a Koluna Pop, onde traz todas as novidades do universo do k-pop.

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