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O ator Jesuita Barbosa caracterizado como o Jove em cena de Pantanal

Reprodução/TV GLOBO

JOVE APRENDIZ

Quem bate cartão não vota em patrão: Falta CLT para Jove em Pantanal?

José Lucas enfim levanta um ponto importante: há realmente um problema em Jove nunca ter trabalhado em Pantanal?

Daniel Farad

José Lucas (Irandhir Santos) enfim pegou a viola, não para tocar Cavalo Preto, mas para dar –ao menos metaforicamente– na cabeça de Jove (Jesuita Barbosa) em Pantanal. O caminhoneiro macetou o próprio irmão ao levantar uma questão não resolvida na novela das nove da Globo. “Eu só acho estranho ouvir isso da boca de um sujeito que nunca teve carteira assinada na vida”, disparou.

O folhetim de Bruno Luperi trouxe mais uma discussão sobre agronegócio no sábado (4), com direito a mea-culpa de José Leôncio (Marcos Palmeira). O fazendeiro deixou a pose de “homem do campo” para se assumir como um empresário, questionando até que ponto não teria uma participação na degradação do bioma.

A cena obviamente não promoveu a desconstrução por completo de um dos seus protagonistas, já que o mito dos “bons Leôncio” é uma das estruturas centrais da trama. A simbiose entre a família e o Pantanal tem explicações quase sobrenaturais, ainda que soem extremamente contraditórias para parte do público em 2022.

Em seguida, Jove se pôs a falar sobre a meia dúzia de “privilegiados” com o atual modelo de agronegócio, voltado para a exportação de commodities. Ele, inclusive, chegou a esfregar o termo técnico na cara de José Lucas –em vez de falar simplesmente que quem coloca comida na mesa das pessoas é a agricultura familiar.

O personagem de Irandhir Santos lavou parte da alma do público ao lembrar que o meio-irmão fazia parte dessa elite econômica. “É engraçado ouvir isso da boca de um deles. Estamos numa fazenda. Deve ser muito fácil criticar o resto do país quando se nasce com a borra cheia”, lembrou ele.

Jove é antissistema?

As críticas, por outro lado, estão muito mais nos ouvidos dos telespectadores do que no próprio texto de Pantanal. O foco da sequência claramente não estava em expor as fragilidades de Jove, mas em gerar um conflito –culminando na briga de José Lucas e Tadeu (José Loreto) pela sela de prata deixada pelo avô. 

A construção do fotógrafo, no entanto, é tão mambembe que fica difícil não ver os furos em sua identidade. O protagonista da primeira versão era assumidamente um playboy, mas ganhou contornos de um cara antissistema para atualizar o contexto do remake.

A questão é que essa camada, em vez de criar um verniz de herói, deu mais um telhado de vidro para o personagem de Jesuita Barbosa. Afinal, as redes sociais estão arrebatadas de piadas sobre como ele quer mudar o mundo, mas não consegue arrumar a própria cama.

Essa questão é até abordada indiretamente, sobretudo na relação dele com Mariana (Selma Egrei), mas ganha força mesmo do outro lado da TV. O público da produção é formado por pessoas que estão mais próximas de José Lucas: como uma pessoa que nunca teve um emprego na vida quer falar sobre exploração e força de trabalho?

Esse ponto contribui para que Jove siga mais uma vez como uma “metamorfose ambulante” dentro da história. Ele é vegetariano, mas quer ter o próprio rebanho; fotografa com uma câmera analógica, mas bate de frente com o pai para colocar internet no campo; é fruto de uma elite econômica, mas quer questioná-la como se não fizesse parte dela.

Esse personagem com uma identidade muito fluida facilita o trabalho de Luperi em navegar por Pantanal, já que o sobrinho de Irma (Camila Morgado) pode assumir qualquer função dentro da história. Por outro, ele dificulta a aproximação com o público –sempre com uma interrogação gigante de “quem é você?” no meio da testa.

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QUEM FEZ

Daniel Farad

Repórter. Além do Notícias da TV, também se juntou ao Tangerina para combater a mesmice e o escorbuto. Escreve do Rio de Janeiro, onde se sente eternamente em uma novela do Manoel Carlos. Aqui, porém, a gente fala mexerica. Fale com o Daniel: [email protected]

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