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A atriz A Maia como Morte em Quanto Mais Vida, Melhor

Divulgação/TV GLOBO

FIM DA LINHA

Por que quem morre em Quanto Mais Vida, Melhor é a própria Morte?

Quanto Mais Vida, Melhor representa um retrocesso na discussão sobre os tabus sobre a morte, especialmente em tempos de pandemia

Daniel Farad

O juízo final de Quanto Mais Vida, Melhor decidirá qual dos quatro protagonistas enfim baterá as botas. A decisão pouco importa, porque a novela das sete acendeu a vela de sétimo dia para um dos personagens centrais antes mesmo da estreia. A Morte (A Maia) chega ao último capítulo nesta sexta (27) como uma vítima de si mesma.

O autor Mauro Wilson não enfrentou problemas apenas de ordem prática para tirar a história do papel com a pandemia de Covid-19. Ele tinha limitações por conta dos protocolos sanitários, mas igualmente uma questão que obrigaria a Globo a mudar o título da produção –os até então 613 mil mortos na crise sanitária.

O folhetim originalmente se chamaria A Morte Pode Esperar. A emissora optou por Quanto Mais Vida, Melhor para celebrar os que aqui estavam, que aqui eram vacinados e que aqui dariam continuidade à marcha incansável da humanidade. Um erro que talvez tenha custado o sucesso da trama.

A médica Ana Claudia Quintana Arantes, médica especialista em cuidados paliativos e uma das consultoras de Bom Sucesso (2019), explica que morte e vida não são antônimos: o contrário de morrer é nascer. Viver é justamente o que você faz entre esses pontos cardeais.

O atual folhetim, inclusive, representa um retrocesso ao lidar com o tema como um tabu que havia sido desfeito diante dos exames trocados de Paloma (Grazi Massafera) e Alberto (Antonio Fagundes) três anos atrás. O rito de passagem volta a ser cercado de uma série de liturgias desnecessárias, de medos ancestrais e da ideia de que “a morte é só o começo”.

Um dos trunfos de Bom Sucesso foi refazer esse chavão não ao tratar uma doença terminal como a chance de um novo começo por meio da reencarnação ou de salvar alguém com uma doação de órgãos. A notícia foi suficiente para a costureira e o editor darem uma guinada no que tinham ali naquele instante e momento –recomeçando do mais fácil, do mais óbvio e do mais primário.

O fim não era a chance de corrigir os erros e preparar os outros para continuarem sozinhos, como fizeram Paula (Giovanna Antonelli) e Neném (Vladimir Brichta), mas de dar sentido à própria existência. Uma das forças mais revolucionárias possíveis, que não enchia Paloma e Alberto de medo, mas de esperança –a de que cada minuto valia à pena.

A pior das mortes

Em vez de rejeitar, o texto de Wilson ironicamente reforçou a imagem da Morte junto à necropolítica praticada pelo Governo Federal durante a pandemia. Ela vem para separar, para cortar, para punir. O “anjo” das valas abertas a trator, dos que não puderam se despedir, dos que não puderam ter um velório.

Um dos traumas da pandemia é justamente interromper os rituais associados à finitude da vida, e os protagonistas de Quanto Mais Vida, Melhor também os rejeitaram. Eles não pensaram em aproveitar um possível último ano, mas em como estendê-lo a qualquer custo –à exceção de uma cena muito bonita em que Guilherme (Mateus Solano) gravou um vídeo para o filho que ainda não havia nascido.

Essas sequências deveriam dar o tom da novela, mas o foco estava em pormenores mais cristãos como a culpa, o sacrifício e a abnegação. Um ajuste que deveria começar justamente pelo personagem de A Maia.

Um dos principais pontos na personificação da Morte na cultura popular é ser muito mais próxima à humanidade do que qualquer outro ser imortal. Ela é a única a compreender o conceito de finitude e, não à toa, a que sempre busca dar um sentido à própria existência –tediosa, a que é eterno. Paradoxalmente, ela nos ensina a viver porque sabe exatamente como é morrer.

A Morte das graphic novels de Sandman está sempre de bom humor; a Dona Morte tem um senso de humor capaz de rivalizar com o Louco nos gibis de Mauricio de Sousa; o Puro Osso é tão humano que nunca se recuperou do bullying em As Terríveis Aventuras de Billy e Mandy (2003-2008).

A ceifadora até teve a chance de rir de si mesma, mas fechou a cara ao trocar os corpos dos protagonistas. Ela preferia a postura de um fantasma sempre à espreita, pronta para dar um susto, mas escondida pelos capítulos. Havia um risco de rejeição, diziam.

Dois anos ininterruptos de pandemia não tornaram as pessoas avessas à morte, mas à frieza de quem deixa outro ser humano sufocar ser ar em um leito de hospital. O público está sim, pronto, para celebrar a vida. E só é possível viver se houver alguém a nos esperar no último capítulo.

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QUEM FEZ

Daniel Farad

Repórter. Além do Notícias da TV, também se juntou ao Tangerina para combater a mesmice e o escorbuto. Escreve do Rio de Janeiro, onde se sente eternamente em uma novela do Manoel Carlos. Aqui, porém, a gente fala mexerica. Fale com o Daniel: [email protected]

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