MÚSICA

Integrantes do Coldplay posam para foto de divulgação

Divulgação/Arte: Tangerina

Colplay

Quem são os fãs que esgotam tantos shows do Coldplay?

'Banda meio família', 'agrada todas as faixas etárias' e 'explosão de cores' são algumas das justificativas citadas pelo público brasileiro, que não para de comprar ingressos da banda britânica

Nicolle Cabral

Nicolle Cabral

A banda liderada por Chris Martin é um fenômeno. Em atividade há pelo menos duas décadas, o Coldplay arrasta milhões de fãs para os seus espetáculos coloridos e iluminados pelo mundo —“mágicos” é um adjetivo que os admiradores usam. Mesmo com tantas mudanças na indústria fonográfica —e nos caminhos sonoros da própria banda—, o público que curte os britânicos nutre uma relação extremamente fiel com eles. E dá de ombros para quem fala mal, como a crítica especializada.

Não à toa, o grupo esgotou os ingressos para a noite que encerrará o Rock in Rio 2022 em apenas 27 minutos. O Coldplay se apresenta no dia 10 de setembro na Cidade do Rock. Diante da imensa procura, a banda decidiu já marcar a volta para o país, um mês depois: acrescentou três datas na agenda, uma delas no Rio de Janeiro, no dia 11 de outubro, e duas em São Paulo, nos dias 15 e 16 de outubro. Todos os ingressos esgotaram com poucos minutos de venda.

No Twitter, o público reclamou da plataforma oficial de vendas e implorou por mais datas. O pedido, embora parecesse improvável, foi atendido. No total, o grupo já marcou seis apresentações em solo brasileiro, tirando o Rock in Rio. Todas em estádios, vale lembrar. Para as datas, eles trazem a nova turnê, Music of the Spheres

Mas, afinal, quem são os fãs apaixonados pelo universo musical colorido —e meio nostálgico— criado pelo Coldplay? A fim de responder essa questão, a Tangerina foi atrás do público que não aguentava esperar por um show do quarteto, que visitou o Brasil pela última vez em 2017.

A saga online para conseguir ingressos

“Eu meio que já sabia [que eles vinham para o Brasil]”, conta Iaci Gomes, de 30 anos, de Belém, capital do Pará. Segundo a comunicadora, a relação de carinho que o Coldplay mantém com o público da América Latina é explícito. Com isso, na primeira oportunidade “pós-pandemia”, era esperado que eles viessem ao país. “Minha aflição foi saber se teria show solo, pois prefiro”. Iaci conseguiu um lugar no show do dia 11 de setembro, no Rio de Janeiro, embora não fosse a data ideal.

“O deslocamento para o Sudeste é bem caro para ver os shows que eu gosto. São Paulo costuma ser mais barato. No desespero, comprei para o Rio. Mas o importante é assistir”, justifica. Ela se conectou no site oficial de vendas em dois notebooks e dois celulares diferentes. A compra veio “depois de muito F5”.

Para Gabriella Caruso, 25 anos, de São Paulo, a compra foi um pouco mais tranquila: ela já havia garantido o Rock in Rio Card. O passe é um ingresso antecipado que dá direito ao comprador escolher em qual dia do festival deseja ir, antes da abertura das vendas gerais. Mas a vontade de ver, mais uma vez, a banda de infância falou mais alto. Para isso, garantiu presença também no dia 19 de outubro, no Allianz Parque. Ela coleciona quatro shows vistos e garante: “o show do Coldplay é o melhor espetáculo do mundo”.

Fã comprou ingresso para todos os shows em SP

Quem se aventurou para realizar a compra online não economiza reclamações. “Fiquei mais de três horas nesse processo [de tentar concluir a compra] e por muita sorte consegui”, conta Matteus Bernardes da Silva Santos, de 22 anos, residente de São Paulo. Embora o processo tenha sido tortuoso, ele comemora que vai nas quatro datas extras. “Acompanho fielmente há anos, então, toda oportunidade que tiver de vê-los, eu vou. Sem pensar duas vezes”.

“Conseguir ingresso é sempre um horror. Fisicamente [para mim] é inviável, pela distância até o estádio. Digitalmente, dependemos da sorte, já que o site de vendas é péssimo. Acabei encontrando um amigo com um cartão Elo, que me ajudou a conseguir o ingresso na pré-venda”, conta Leandro Rizzardi da Costa Oliveira, de 32 anos. O coordenador de projetos é fã do grupo desde os 13 anos. “Foi paixão instantânea”, conta. “A melancolia e as letras combinaram muito com a época que eu estava vivendo”.

No presencial, não foi diferente

“Foi um pouco assustador”, conta Gabriela Rodrigues, co-fundadora do fã-clube oficial do Coldplay no Brasil. Responsáveis por informar mais de 35 mil fãs da banda britânica nas redes, a equipe presenciou diversos relatos de quem tentava adquirir ingresso na fila do Estádio do Morumbi, ponto oficial de vendas para os show em São Paulo. “Uma fã, Ingrid, nos relatou que chegou às 4h da manhã para conseguir os ingressos para as primeiras datas. Haviam 40 pessoas na fila. Porém, por volta das 9h, começou a encher”. Após esse horário, Ingrid presenciou a chegada de cambistas, prontos para comprar os passes e revender mais caro depois.

“Uma pessoa guardava lugar para eles na fila e mais de 20 entravam no lugar. As pessoas faziam barulho, se manifestavam, mas eram muitos cambistas em relação aos fãs”, explica. A equipe de segurança do local chegou a ser acionada, mas nada pôde ser feito. “São clientes como quaisquer outros”, justificaram. Com isso, muitos acabaram ficando sem os ingressos.

Mas o que mantém os fãs ávidos pelo grupo?

“Banda meio família”, “agrada a todas as faixas etárias”, “explosão de cores” e “ajudou a formar o gosto musical” são algumas das declarações que aparecem entre os fãs. Enquanto uns conheceram o Coldplay por meio do ambiente familiar, ouvindo os CDs em viagens de carro, outros foram encantados pelos registros visuais do grupo —característica muito presente até hoje.

“Vi o clipe de God Put a Smile Upon My Face [2003]. Fiquei simplesmente encantada. Desde então, acompanhei absolutamente tudo o que eles lançaram”, relembra Iaci. O amor pela banda é tamanho que a primeira tatuagem dela foi em homenagem ao Coldplay.

Já veterana nas apresentações dos autores de Yellow —ela foi a quatro shows—, Iaci considera “uma experiência transcendental, muito emocionante e cheia de vida, alegria e, claro, música”. Embora prefira os primeiros discos da banda, a comunicadora não deixa de apoiar os lançamentos mais recentes.

“Acredito que o Coldplay passou de uma banda de indie rock para ser uma banda mais pop, com músicas para estádio. Foi uma banda que decidiu ir passar mensagens mais otimistas, o que é excelente. A gente realmente precisa de mais otimismo e esperança”, pontua.

‘Amo as fases antigas, mas me divirto com as novas’

Por outro lado, Rizzardi encara os processos da banda de forma mais conflituosa. “Sinto que a banda acabou entrando em um caminho de autoconhecimento que ainda não entendeu bem quem é ou gostaria de ser”, avalia. “Eu acabo acompanhando o movimento: amo as fases antigas, mas me divirto com as novas. Fico na torcida para que a banda consiga encontrar um equilíbrio em algum momento”. Além dos britânicos, ele cita Paramore e Avril Lavigne como artistas preferidos.

Se uns acreditam que a banda “perdeu o fio da meada”, outros apontam o motivo que, possivelmente, está por trás do sucessi ba venda de ingressos. “Eles conseguem se encaixar muito bem na sonoridade musical que está em alta, mas sem perder a essência deles. É muito difícil você ouvir uma música do Coldplay —mesmo que você não conheça— e não reconhecer que é do Coldplay. Eles parecem ter uma unidade musical”, observa Caruso.

Bernardes, contudo, defende o Colplay do “hate” sofrido nos últimos anos, especialmente pelas mudanças musicais. “Isso acontece com toda banda ou artista. De Parachutes para Music of the Spheres, há uma grande diferença, mas essa sempre foi a essência deles: fazer o que querem e gostam, não algo para a [agradar a] indústria. Acho que por causa disso eles conquistaram o mundo e tem muitos fãs fiéis à banda”.

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Antes de ser repórter da Tangerina, Nicolle Cabral passou por Rolling Stone, Revista Noize e Monkeybuzz. Nas horas vagas, banca a masterchef para os amigos, testa maquiagens e cantarola hits do TikTok.

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