'É impossível viver Freud sem se transformar', entrega ator - Tangerina

NO PALCO

Odilon Wagner e Claudio Fontana

Divulgação/João Caldas

TEATRO

‘É impossível viver Freud sem se transformar’, entrega ator

Com 52 anos de carreira, Odilon Wagner encara experiência única na peça A Última Sessão de Freud, em cartaz em São Paulo

Luciano Guaraldo

Com 52 anos de carreira, Odilon Wagner já interpretou todo tipo de papel na TV, no cinema e nos palcos. Mas nenhum personagem o impactou tanto quanto Sigmund Freud (1856-1939), a quem ele dá vida na peça A Última Sessão de Freud, em cartaz em São Paulo. “É impossível viver um personagem desses sem se transformar”, resume o ator.

O espetáculo mostra um encontro fictício entre o pai da Psicanálise e o escritor C. S. Lewis (1898-1963), autor de As Crônicas de Nárnia –que no teatro é vivido por Claudio Fontana. Dois dos intelectuais que mais influenciaram o pensamento científico e filosófico no século 20 se enfrentam no palco durante 80 minutos em um duelo de ideias e palavras.

Temas como a religião e a existência de Deus, a vida e a morte, o sexo e as relações humanas são discutidos por Freud e Lewis. Mas os confrontos nunca deixam o plano da oralidade, o que mostra o profundo respeito de um personagem pelo outro. “A peça é um exercício absoluto da escuta, algo tão necessário nos tempos de hoje”, explica Odilon Wagner à Tangerina.

“As pessoas não se ouvem mais, só emitem suas opiniões e brigam com quem pensa o contrário, é quase uma torcida de futebol. A peça tem um debate intenso, até com uma certa força, com uma energia, mas nunca perde o respeito. E o interessante é que, mesmo nos momentos mais intensos das discussões, os dois se ouvem. Falam mais alto, mas escutam o que o outro tem a dizer”, filosofa o ator na conversa exclusiva.

Odilon Wagner admite que, justamente pelo fato de a peça focar tanto no diálogo, a produção acreditava que seria difícil agradar ao grande público. “Um dos nossos medos era de que as pessoas achassem chato porque tem muito diálogo, que elas não teriam paciência porque é um espetáculo sem nenhuma pirotecnia”, reconhece.

Em um caso muito positivo de expectativa x realidade, A Última Sessão de Freud se tornou um sucesso de público e caminha para suas últimas apresentações com sessões praticamente esgotadas. “Em 52 anos de carreira, eu nunca tinha passado por isso. Entre os teatros de prosa, sem considerar os musicais, acho que é o maior sucesso da temporada, lota todo dia”, valoriza o ator. “E o público fica esperando a gente na saída, quer conversar. Psicólogos e psicanalistas têm ido em peso, professores mandam seus alunos assistirem para fazerem trabalhos depois.”

Experiência transformadora

Para Odilon Wagner, a transformação vai além do contato intenso com o público e do sucesso surpreendente. “É uma das experiências mais fascinantes da minha carreira, por várias razões. Não é fácil encontrar um papel como esse, são raras as oportunidades de um encontro tão mágico entre intérprete e personagem. E os psicanalistas falam que, quando o paciente encontra o terapeuta certo, é a mesma magia”, compara ele à reportagem.

“Às vezes você encontra o personagem, mas não tem maturidade como artista pra fazê-lo. E o teatro é uma arte coletiva, quando a gente não está com as pessoas certas, não acontece. Tanto que essa peça já tinha sido montada antes e não aconteceu absolutamente nada. Precisa ter a harmonia da criação, todo mundo entrar com os mesmos propósitos, se jogar no projeto sem disputas. Eu aprendi nesses anos de carreira a construir isso, só trabalhar com gente que também acredita, que está na mesma página”, filosofa o veterano.

Odilon Wagner confessa uma curiosidade sobre a preparação para viver Freud no teatro: ele até hoje não terminou de ler a biografia do pai da Psicanálise. “A biografia mais importante dele tem mais de mil páginas, não consegui acabar ainda. Quando você coloca na mesa, o livro tem uns 15 centímetros de altura, é uma coisa gigante. Freud teve uma vida impressionante, como médico, cientista, neurologista, mas sua obra literária e filosófica também é enorme.”

“Ele é um personagem que a gente acha que conhece, mas aí comecei a estudar e descobri que não sabia quase nada. Agora posso dizer que conheço um pouco mais, mas ainda assim muito superficialmente, porque os psicanalistas passam a vida deles toda estudando”, ressalta o ator.

A Última Sessão de Freud fica em temporada no Teatro Porto (Al. Barão de Piracicaba, 740, São Paulo) até 7 de agosto, com sessões toda sexta, às 20h; sábados, às 17h e às 20h; e domingos, às 18h. Ingressos custam entre R$ 50 (R$ 25 meia) e R$ 90 (R$ 45 meia) e podem ser adquiridos no site Sympla. Depois, a peça vai viajar pelo país.

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QUEM FEZ

Luciano Guaraldo

Editor-chefe da Tangerina. Antes, foi editor do Notícias da TV, onde atuou durante cinco anos. Também passou por Diário de São Paulo e Rede BOM DIA de jornais.

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