NA GRADE

Rock the Mountain, festival realizado em meio ao verde da região serrana do RJ

Divulgação/I Hate Flash

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Após edição memorável, o Rock the Mountain merece entrar na sua lista

Festival em Itaipava superou expectativas e recebeu grandes shows de Caetano Veloso, Gal Costa, Djavan, Marina Sena e outros; nova edição está confirmada para novembro

Luccas Oliveira

Luccas Oliveira

O Rock the Mountain 2022 superou qualquer expectativa. Realizado em Itaipava, região serrana do Rio de Janeiro, o festival teve um público estimado em 20 mil pessoas no primeiro fim de semana de evento, segundo a organização. Nos próximos dias 23 e 24, feriado de Tiradentes, a mesma escalação caprichada de artistas volta ao Parque de Exposições.

E, se estivesse no lugar do leitor, eu tentaria ir —caso o orçamento permita, claro. De qualquer forma, uma nova edição já está confirmada para este ano, nas primeiras semanas de novembro.

Enquanto o festival mineiro Breve, realizado no fim de semana anterior, foi alvo de críticas à organização e por não entregar o que prometeu, com o Rock the Mountain aconteceu o contrário.

Nas últimas semanas, as redes sociais se movimentaram com pessoas vendendo seus ingressos às pressas, num misto de desânimo com falta de planejamento —afinal, um festival de dois dias em Itaipava/Petrópolis demanda muito mais logística do público do que um evento a alguns bairros de distância.

Havia, também, um receio quanto às condições climáticas. O período tem sido de fortes chuvas na região, e os dias que antecederam o festival preocupavam.

Na prática, porém, as cerca de 20 mil pessoas que viajaram de diferentes regiões do país e insistiram na experiência foram premiadas. O Rock the Mountain 2022 foi um festival de alto nível organizacional, com shows memoráveis e um clima típico de outono —sol à tarde e frio à noite, sem chuva.

Abaixo, listo alguns pontos para provar que o Rock the Mountain merece sua visita num futuro breve (e também umas sugestões de melhorias).

Rock the Mountain: Escalação para milhões

À primeira vista, poderia causar estranheza um festival que trazia nomes históricos como Caetano Veloso, Gal Costa, Djavan, Alceu Valença, Marina Lima e Marcos Valle ao lado de jovens como Marina Sena, Majur, MC Tha e Jaloo. No primeiro dia, inclusive, teve a peculiar dobradinha de shows Dibob e Djavan.

Mas, na prática, a mistura de épocas, estilos, gêneros e públicos se mostrou um grande acerto. Os medalhões receberam carinho, respeito e calor da multidão majoritariamente jovem. Gigantes como Caetano, Gal e Djavan não esconderam a felicidade de cantar para uma amostra de geração que fez questão de valorizar a obra que construíram. E entregaram shows à altura desta história.

Esta sinergia geracional passa muito também pelas novas estrelas que exaltam as que vieram antes. Marina Sena é uma que sempre cita Djavan, Gal e Caetano como suas grandes referências, com presença constante em playlists. Rubel subiu ao palco de Gal para cantar Baby e Sorte. Francisco Gil (neto de Gilberto) fez questão de agradecer por estar entre Marina Lima e Gal na programação.

Isto sem falar no BaianaSystem, a grande atração do domingo, um poço de respeito à história da Música Popular Brasileira e dos laços que a unem à música africana.

Rock the Mountain mostra como se antecipar à crise

Outro golaço do festival foi na comunicação. Depois das chuvas que atingiram o Parque de Exposições de Itaipava ao longo da semana, a presença da lama era irreversível. A partir disso, o Rock the Mountain fez questão de deixar o público ciente da situação em suas redes ao mostrar ações como a instalação de tendas e a contratação de caminhões de brita para amenizar os pontos mais sensíveis.

Porém, acima de tudo, reforçou que o público deveria priorizar o conforto, investir em botas/galochas e estar ciente da questão. Assim ocorreu, e a festa não chegou a ser prejudicada por toda a lama que efetivamente marcou presença, mesmo com o sol. Depois dos problemas de comunicação de eventos maiores, como o Lollapalooza e o Breve, a postura é digna de nota.

A beleza e o clima

Para além do shows memoráveis, o Rock the Mountain soube aproveitar bem outro dos seus privilégios: a natureza. O parque onde o festival acontece é belíssimo, cercado por verdes e montanhas. Um dos momentos mais marcantes do fim de semana foi assistir ao show de Gal Costa no pôr do sol, com o céu mudando de cor a cada minuto.

Além disso, o fim de semana pegou o primeiro dia de lua cheia e, com o céu limpo, foi uma atração à parte. Curiosamente, no domingo, pouco depois de Alceu Valença cantar Táxi Lunar, ela foi surgindo aos poucos, por cima do morro que ficava atrás do palco.

Organização sem grandes estresses

Em um festival para mais de 15 mil pessoas, não ter grandes reclamações costuma ser um luxo. A consumação não era barata, é verdade —uma lata de cerveja custava R$ 13—, mas está pareada à de festivais concorrentes. Em compensação, foi raro ver filas tanto para a compra de fichas quanto para o bar, a praça de alimentação (100% vegetariana e bem servida) e o banheiro.

Os melhores shows do Rock the Mountain 2022

Caetano Veloso no Rock the Mountain

Caetano Veloso fez o grande show desta edição

Divulgação/Larissa Kreili

Aqui, uma (breve) lista dedicada a quem vai ao segundo fim de semana, para não marcar bobeira. Vale lembrar que, com tanto show ao mesmo tempo, alguns ganharam menos atenção de minha parte do que mereciam —como Djonga e Luedji Luna.

  • 1) Caetano Veloso: As imperfeições técnicas no som não atrapalharam a versão para festivais da turnê Meu Coco. Caetano está em grande forma, sua nova banda também, e o repertório vai de antes do cinquentão Transa aos Anjos Tronchos. Os coros e balés improvisados mais bonitos do fim de semana rolaram aqui.
  • 2) BaianaSystem: A pausa forçada pela pandemia não impactou em nada o poder catártico de um show do grupo. Ninguém lembrou da lama do parque quando Russo Passapusso pediu para a roda abrir.
  • 3) Marina Sena: Recém-chegada de uma turnê europeia, quando tocou para públicos pequenos, a mineira se agigantou diante da multidão que a esperava no festival. Postura e performance de popstar.
  • 4) Gal Costa: Até improviso, algo raro na história recente da cantora baiana, rolou quando Rubel participou de duas músicas. Da segunda, ela nem sabia. Mas Gal tirou de letra e ainda fez uma bela homenagem a Rita Lee, recém-curada de um câncer.
  • 5) Djavan: Caso você se pergunte por que Djavan está em festivais como o Rock the Mountain e o Rock in Rio em 2022, esta performance tirou qualquer dúvida. Um desfile de hits, coros e mãos para o alto. Show de festival, mesmo.

  • 6) Teresa Cristina: Uma das pessoas mais carismáticas do Brasil atual é, também, talentosíssima. A sambista reuniu uma banda só de mulheres em show que exaltou a arte preta no país. Uma aula de história, de luta, fé, com muito samba no pé.
  • 7) Black Alien: O Mr. Niterói segue afiadíssimo em seu flow particular, feliz e saudável no palco e entregando entretenimento consciente para o público que o venera.
  • 8) Majur: Em show poderoso e pop, a cantora recebeu Hiran e Luedji Luna no palco e segurou bem a responsabilidade de apresentar depois de Caetano Veloso.
  • 9) MC Tha: Depois de se destacar no Lollapalooza, a cantora que mistura funk com umbanda voltou a fazer um grande show de festival. Ansioso para ver os próximos passos da paulistana.
  • 10) Criolo: O MC paulistano está em momento de reconexão com o rap, após se dedicar a projetos com o samba. Os singles lançados por ele criam boas expectativas, mas o show ainda precisa ganhar estrada e se azeitar com o tempo. Mas já há muitos méritos, principalmente pelo formato potente em trio Criolo-DanDan-DJ Marco e por permitir aos fãs revisitarem clássicos como Não Existe Amor em SP, Grajauex e Convoque seu Buda.

Nem tudo foi festa no Rock the Mountain

Pouco caso com a Covid

Do lado da organização, houve uma negligência na cobrança do certificado de vacinação contra a Covid-19. Tanto no sábado quanto no domingo, dificilmente alguém era parado na entrada para mostrar o documento. Embora uma etapa a mais possa atrapalhar o andamento da fila, esta é fundamental para que possamos seguir curtindo, com segurança, festivais neste período de pandemia.

O drama da saída

Mas o problema mais urgente tem ligação direta com a prefeitura de Petrópolis: o transporte para o evento. Por mais que seja um festival privado, o Rock the Mountain trouxe 20 mil pessoas de diferentes lugares para uma cidade que muito depende do turismo. Ainda mais após as tragédias recentes com a chuva na região. O RtM até oferece transfers para o centro de Petrópolis, para Teresópolis e para o Rio, mas não há qualquer esforço do poder público para oferecer opções de transporte após o encerramento do evento.

O que se viu na prática foi uma farra protagonizada por motoristas de aplicativo. Ou melhor, supostamente, já que era raro encontrar algum que aceitasse fazer a viagem pelos apps, que trazem alguma segurança ao usuário. Viagens para alguns quilômetros de distância eram oferecidas por até R$ 200, preço fechado. Quem não aceitava, tinha que esperar e contar com a sorte para achar um valor razoável.

É urgente, caso a cidade entenda a importância de um festival como este para a economia criativa e de serviços, que haja maior fiscalização e uma oferta de linhas de ônibus em esquema especial para o evento.

Erros pontuais na distribuição dos shows

Claro que com um line-up recheado de grandes atrações é preciso um certo malabarismo para montar a programação. Mas ficou evidente desde a primeira nota cantada pela voz (rouca, graças a uma gripe) de Alceu Valença que ele não poderia ser escalado para o palco secundário. O show da lenda pernambucana acabou prejudicado não só pela enfermidade de Alceu, mas também pelo excesso de pessoas amontoadas ou em constante peregrinação em busca de um espaço mais confortável.

Popstar do momento, Marina Sena também deveria estar no palco que melhor recebe um público grandioso. E o belo show da sambista Teresa Cristina merecia um horário melhor do que 14h e pouco de um domingo —por mais que o sol tenha abrilhantado a experiência.

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QUEM FEZ
Luccas Oliveira

Luccas Oliveira

Luccas Oliveira é editor de música na Tangerina e assina a coluna Na Grade, um guia sobre os principais shows e festivais que acontecem pelo país. Ex-jornal O Globo, fuçador do rock ao sertanejo e pai de gatos, trocou o Rio por São Paulo para curtir o fervo da noite paulistana.

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