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Capa de Ghostwire: Tokyo

Reprodução/Bethesda

Crítica

Excêntrico, Ghostwire: Tokyo falha no equilíbrio entre ação e terror

Novo jogo da Tango Gameworks tem combate, conceitos e ambientação interessantes, mas oferece doses de ação que destoam demais do terror —e vice-versa

Jessica Pinheiro

Jessica Pinheiro

Desenvolvido pelo estúdio Tango Gameworks de Shinji Mikami (o criador de Resident Evil), Ghostwire: Tokyo é descrito como o mais novo jogo de ação e aventura distribuído pela Bethesda. Mas classificá-lo como parte desses gêneros não parece muito acurado, já que o game traz muitos elementos de terror japonês, incluindo uma atmosfera típica de títulos com essa premissa.

Claro que Ghostwire: Tokyo não se resume apenas doses desequilibradas de ação e terror, pois existem muitos conceitos e mecânicas que o tornam um dos games mais interessantes da leva inicial de 2022. A partir daqui, a Tangerina lista onde exatamente o mais recente jogo da Tango Gameworks se sobressai com sua excentricidade, e onde deixa a desejar.

Intrigas familiares

Akito é o protagonista do jogo e os poderes que ele utiliza são emprestados pelo espírito KK

Reprodução/Bethesda

Ghostwire: Tokyo começa com um acidente. Você não o vê acontecer, mas entende que foi brutal em poucos segundos. Nos momentos seguintes, uma entidade invisível navega até um dos corpos que sobreviveram ao trágico evento; e após se apossar do gentil Akito Izuki, o espírito do esperto KK percebe que o rapaz não estava morto, pois ele logo recobra sua consciência.

Os acontecimentos a seguir são ainda mais surreais: enquanto KK briga pelo domínio do corpo de Akito, um misterioso nevoeiro varre a cidade, e todos os cidadãos subitamente desaparecem, deixando apenas seus pertences e roupas. Determinado a conferir o estado de sua irmã Mari, o protagonista precisa ir até o hospital onde ela está internada.

A primeira hora de Ghostwire: Tokyo é intrigante e, ao percorrer uma Tóquio completamente deserta e adentrar o hospital que se encontra igualmente abandonado, a sensação é a de estar jogando um game de terror. Os inimigos são chamados de Visitantes aqui, mas nem todas as criaturas místicas são hostis, pois existem também os yokais, que podem auxiliar o jogador. Todos eles são inspirados no vasto folclore japonês.

Cena de Ghostwire: Tokyo

Os inimigos e os amigáveis yokais de Ghostwire: Tokyo são todos baseados em lendas do folclore japonês

Reprodução/Bethesda

Voltando ao hospital, os corredores reservam momentos de alucinações e até mesmo um susto para os mais desatentos; tudo para mexer com o psicológico do protagonista —e talvez do jogador. Mas quando o reencontro entre Akito e sua desacordada irmã Mari acontece, a trama parece desenrolar em um sentido diferente do que aparentava, ainda que mantenha as intrigas de diferentes famílias em foco.

Jogo de medo, só que não

De volta às ruas para conseguir pistas sobre o vilão —um homem com a máscara de um Hannya— e as demais figuras que o acompanham e que levaram Mari, Akito e KK unem forças, já que os dois possuem objetivos semelhantes. Aos poucos, o espírito ensina magias e técnicas espirituais, além de apresentar talismãs e equipamentos que o protagonista pode usar em sua jornada. Afinal, a missão principal evolui para além de reencontrar sua irmã: é necessário salvar o mundo.

As missões principais e as paralelas logo se tornam mais evidentes e, conforme você limpa as ruas da neblina corrompida após purificar portões torii —ampliando assim as áreas exploráveis—, o jogo começa a ganhar cada vez mais aspectos de mundo aberto e de ação, colocando seu distinto terror japonês em segundo plano. Esse desequilíbrio nos gêneros, pessoalmente, é uma das características que mais incomodou. Isso vindo de alguém que não é entusiasta de jogos que causam medo.

Cena de Ghostwire: Tokyo

Purificar os portões torii é essencial para avançar na exploração

Reprodução/Bethesda

Afinal, a limitação inicial na exploração por conta do miasma (que suga energia vital caso você se aproxime) intensifica a atmosfera de mistério tanto em planos abertos quanto fechados de Tóquio. Além disso, as criaturas sobrenaturais inspiradas no folclore japonês tem potencial para entregar mais segmentos intrigantes que beiram o assustador. Algumas batalhas contra chefes, por exemplo, conseguem satisfazer nesse sentido, mas as temáticas de medo e terror não vão muito além disso.

Ainda assim, é realmente uma pena que Ghostwire: Tokyo abandone essas características e foque cada vez mais na ação com o passar das horas, criando uma sensação esquisita em muitos momentos de que o jogo deveria ter mais terror do que aparenta.

Combates e mecânicas prazerosas

Se Ghostwire: Tokyo deixa a desejar na dosagem dos gêneros, em contrapartida entrega combates e mecânicas muito interessantes, que tornam a experiência mais prazerosa de jogar. A câmera em primeira pessoa pode ser um impedimento para quem não gosta muito desse tipo de visão e movimentação, mas se você ultrapassar essa barreira inicial, poderá desfrutar de um dos melhores aspectos do game.

Cena de Ghostwire: Tokyo

Ghostwire: Tokyo - Trailer de jogabilidade

Vídeo que mostra mais do gameplay do jogo

Ainda assim, por conta da abordagem em primeira pessoa, o combate de Ghostwire: Tokyo é voltado para disparos à distância, só que ao invés de armas de fogo, Akito e KK utilizam as artes místicas japonesas, incluindo as Tecelagens Etéreas que são basicamente magias elementais, e os Kuji-Kiri que são encantamentos feitos com gestos (semelhante aos jutsus de Naruto).

Akito, por sua vez, pode ainda utilizar um arco e flecha e talismãs para diferentes propósitos (incluindo imobilizar inimigos). Já as habilidades espirituais são evoluídas com pontos comuns e magatamas, um recurso que pode ser adquirido ao selar yokais em Shibuya ou ao capturar Kappas (anfíbios demoníacos), e assim por diante.

Vale apontar que as magias ensinadas por KK precisam de Éter para serem utilizadas, e a energia vital de Akito pode ser recuperada com comidas, encontradas em sacolas abandonadas ou adquiridas em lojas de conveniência gerenciadas por Nekomatas, yokais na forma de gatos.

Cena de Ghostwire: Tokyo

Os Nekomatas são yokais amigáveis, na forma de gatos comerciantes

Reprodução/Bethesda

Também é necessário purificar os portões torii para livrar as áreas do miasma corrompido  como já citado anteriormente; e coletar espíritos com um amuleto conhecido como katashiro e depois, guardá-los em segurança em cabines telefônicas —essa missão faz parte de um propósito maior do game e a recompensa é uma boa quantidade de experiência. Para tanto, você deve explorar tanto horizontalmente quanto verticalmente as ruas da cidade, utilizando um gancho espiritual que se prende a Tengus (outra criatura do folclore japonês).

Um verdadeiro passeio por Tóquio

Ghostwire: Tokyo é visualmente impecável. A cidade é recriada fielmente em um nível de detalhe impressionante, e até mesmo um ou outro ponto turístico pode ser visitado, como a praça com a famosa estátua do cão Hachiko, por exemplo. E por falar em cachorros, é possível acariciar pets perdidos pelas ruas, inclusive.

Com a ampla possibilidade de exploração que se abre aos poucos, espere por missões paralelas que ajudam a aprofundar a história do jogo, e muitas referências ao já citado folclore japonês. Afinal, a variedade de inimigos não é muito alta —e com o tempo, torna-se cansativo reencontrar as mesmas figuras pelas ruas—, mas em compensação, algumas criaturas são muito bem estruturadas em lendas.

Galeria
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Cena de Ghostwire: Tokyo
Cena de Ghostwire: Tokyo
Cena de Ghostwire: Tokyo
Cena de Ghostwire: Tokyo

Os Tanukis (yokais em forma de cães-guaxinim), por exemplo, precisam da ajuda de Akito para reencontrar o caminho de casa, enquanto a sanguinária Kuchisake (baseada na lenda da mulher de boca cortada) é uma Visitante hostil e precisa ser eliminada para que seja possível purificar um portão torii; dentre outros.

Vale à pena?

A história principal de Ghostwire: Tokyo leva em torno de 12 horas para ser concluída. Isso significa que, caso você não seja o tipo de jogador que gosta de realizar todas as missões secundárias e explorar cada canto do mapa, então essa não é a melhor opção para você jogar. Com todo o conteúdo extra além da campanha principal, a duração do game sobe para 30 horas, em média.

O game oferece muitas mecânicas interessantes e que conversam entre si, excelente exploração por uma Tóquio fielmente recriada, e um combate bem prazeroso, além de pesar a mão nas referências à lendas japonesas. Do lado negativo do espectro, porém, está a pouca variedade de inimigos, a confusão entre ação e terror (apesar do início do jogo), uma história intrigante mas com vilões esquecíveis, e a já mencionada pouca duração. A balança final é quatro de cinco gominhos de tangerina.

Capa de Ghostwire: Tokyo

Ghostwire: Tokyo - Trailer de pré-lançamento

Vídeo com inúmeras cenas inéditas e mais do vilão, "Hannya"

Ghostwire: Tokyo está disponível para PC (via Steam e Epic Games) e PlayStation 5. A análise foi feita com uma cópia digital cedida pela Bethesda à Tangerina.

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QUEM FEZ
Jessica Pinheiro

Jessica Pinheiro

Repórter da Tangerina, Jessica Pinheiro já cobriu games e tecnologia em veículos coo IGN Brasil, Loading TV e The Enemy. É streamer nas horas vagas e nasceu no Ceará, mas infelizmente não tem sotaque. Ama karaokê e também assina a Koluna Pop, onde traz todas as novidades do universo do k-pop.

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