MÚSICA

Jovem Dionísio: A banda sensação com o hit Acorda, Pedrinho

Divulgação

Entrevista

Messi, pastel, sinuca: Conheça Jovem Dionísio além de Acorda, Pedrinho

Em feito raríssimo, banda indie de Curitiba está há mais de uma semana no topo do Spotify; 'A gente nem usava TikTok', contam em entrevista exclusiva

Luccas Oliveira

Luccas Oliveira

Os curitibanos do Jovem Dionísio conseguiram um feito e tanto na última semana. Com o hit Acorda, Pedrinho, a banda se mantém desde o último dia 20 no primeiro lugar entre as músicas mais tocadas do Spotify Brasil. E com certa folga. A marca impressiona por se tratar de um grupo de indie pop, que em nada se assemelha aos forrós eletrônicos, sertanejos e traps que habitam o ranking.

Para ser mais exato, Jovem Dionísio é a única banda a figurar no top 50 —os demais são artistas solo ou duplas. E, nesta sexta-feira (27), Acorda, Pedrinho passou a liderar o ranking mundial de virais na plataforma (veja abaixo).

Acorda, Pedrinho no ranking global viral do Spotify

Acorda, Pedrinho no ranking global viral do Spotify

Reprodução

Claro que teve um dedo e tanto do TikTok para embalar esse marco histórico, já que a música viralizou por lá. Mas o fato é que os cinco amigos seguem firmes e fortes à frente de nomes muito populares, como Xand Avião, Gusttavo Lima e Matuê. E estão aproveitando bem os holofotes.

Pedrinho para todos os lados

Da Fátima Bernardes ao Domingo Legal, a turma do Jovem Dionísio rodou pelas principais emissoras, programas e sites do país na última semana. Em todos eles, contou quem é o tal Pedrinho da letra, explicou a piada interna, enfim, falou o que tinha para ser dito sobre o hit viral que alçou uma banda independente a sensação nacional da última semana.

Por isso, a Tangerina propôs fazer algo diferente: que tal uma entrevista que evitasse ao máximo falar sobre o que já foi dito de Acorda, Pedrinho? Bernardo Pasquali (voz), Fufa (guitarra), Gustavo Karam (baixo), Ber Hey (teclado) e Mendão (bateria) toparam. Além disso, ainda mostraram suas preferências num bate-bola-jogo-rápido, digamos, inusitado.

Jovem Dionísio

Assista ao filme de Acorda, Pedrinho

Curta-metragem serve como clipe do hit

Vem com a gente nessa.

Como é o primeiro dia depois de saber que sua música é a mais escutada do Spotify?

Gustavo Karam: O mais impressionante é ver que ela está ali no meio de músicas tão diferentes. É uma sensação meio chocante e gratificante. Todo mundo ficou bem emocionado. Ao mesmo tempo, a gente quer ficar acompanhando, saber se ainda rola crescimento, o que estão falando… Você fica em alerta.

Ber Hey: No primeiro dia, a gente ia tocar num festival (o Coolritiba) e rolou uma ansiedade, né. Para saber se era isso mesmo, se a galera ia cantar… Até porque éramos a primeira banda do palco, eu estava muito nessa. Daí, quando tocou Acorda, Pedrinho, já no fim do show, estava muito cheio e a galera deu a vida. Foi gratificante.

É uma notícia que impacta também a cena alternativa, mostra que é possível uma banda indie chegar no topo, apesar de raro. Vocês pensam nisso?

Ber Pasquali: Sim. O pop do Brasil não é o gênero pop, propriamente dito. A música popular brasileira mesma é o sertanejo, o funk. É o que a grande massa ouve. Obviamente, quando você faz algo fora desses gêneros, a primeira reação é achar que você não tem espaço dentro daquele jogo ali, né? Você entende que nos 200 primeiros só tem essa galera e que não tem espaço para quem é de fora. Mas, quando vimos Acorda, Pedrinho lá, a gente olhou e falou “bom, ou alguém hackeou o Spotify para fazer a música subir ou realmente dá, é possível”.

Antes da pandemia, vocês não eram exatamente conhecidos. Mas desde a reabertura já vinham fazendo shows com um público considerável, antes mesmo da explosão do hit. Qual é a principal descoberta que fizeram desde que começaram a tocar para mais gente?

Karam: É muito engraçado quando você começa a levantar o braço, balançar e do nada tem um monte de gente fazendo o mesmo (risos). Essas brincadeiras que você só via do público, e não do palco. Nós fazemos show há muito tempo, tínhamos um banda de covers e tocamos juntos há quase dez anos. E sempre nos preocupamos muito com shows, com a ordem das músicas, como mexer com as pessoas. Hoje em dia, fazemos isso, só que para muito mais gente. Ainda estamos curtindo muito isso tudo.

Fufa: A primeira parada pós-pandemia foi descobrir que a gente tinha público e podia fazer show fora de Curitiba. Foi o que mais me impactou, sair da cidade com a banda. Fomos ao Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, e muita gente colou para assistir aos nossos shows. Não era mais só nossos amigos da cidade.

O que vocês acham que rolou nesse disco para terem chegado a um público maior, que não fosse só os amigos?

Pasquali: A gente tem conseguido traduzir as coisas que gostamos de uma forma que não sejam só piadas internas, mas piadas que todo mundo entende. Óbvio, tem muita coisa ali que a gente bota do jeito que a gente pensa mesmo sem dar explicação. Por exemplo, a música Acorda, Pedrinho não se explica por si só, mas cada vez mais a gente está conseguindo desenvolver o diálogo com as pessoas. Tipo, o que funciona, o que faz sentido sair da nossa boca. Por isso que o disco, agora, está conseguindo comunicar melhor com as pessoas. Afinamos essa comunicação. E também estamos nos divertindo cada vez mais fazendo música. Acho que isso fica claro quando você ouve o disco.

Mendão: Começamos a fazer um monte de música atrás da outra e fomos ficando melhores nisso. E a gente perdeu a vergonha, começou a expor aquilo que a gente realmente queria falar, canta, mostrar um pouco mais de nós. Foi o que pensamos quando terminamos Acorda, Pedrinho, que perdemos a vergonha e colocamos tudo o que queríamos colocar ali. E a letra é diferente, né? Não é uma letra normal de se ver, ainda mais entre as mais tocadas. Mas a gente fez porque era verdadeira e boa demais.

Lembro de uma entrevista que fiz com Marina Sena, antes mesmo de Por Supuesto viralizar, e ela já mirava o mainstream. Falamos sobre as concessões que você precisa fazer quando sai da bolha indie. Tipo, sei lá, ir para o BBB, ajustar discursos e posturas para agradar mais pessoas… Vocês pensam nessas coisas? Ou só estão deixando rolar?

Mendão: Eu não entraria para o BBB, não (risos).

Pasquali: A gente nunca almejou ir para o mainstream, nunca tratamos como o lugar que precisamos nos adequar para poder chegar nele. Adequamos nosso som às ideias que tínhamos para gostar cada vez mais do que estávamos fazendo. Nunca foi como “isso aqui comunica com mais gente, então temos mais chances de entrar para o mainstream”. Até com a própria Acorda, Pedrinho. Nunca pensamos como uma música que viralizaria. Foi só uma que achamos engraçada fazer, porque estávamos falando de um amigo nosso e ela tinha um ritmo bom. Foi esse o mote da música. E deu certo. Por isso, acho difícil a gente querer moldar nossa criação por conta do sucesso.

Em que momento vocês passaram a viver financeiramente da banda? É agora?

Pasquali: A gente foi levando, fazendo conta… O rolê da banda independente tem muitas preocupações com a grana. Porque quando você está botando grana num clipe, é do seu que sai. Mas por conta da nossa banda de covers criamos essa regra de que o dinheiro da banda fica com a banda e não vem pra gente. Até o momento que estiver sobrando, daí você tira. Mas é tudo muito recente, cara. Nunca foi nossa motivação. Se fosse pra ganhar dinheiro, o Ber Hey é advogado, podia ter o escritório dele, o Fufa é economista e trabalhava em empresa, eu sou engenheiro civil… Se fosse pra ganhar dinheiro, a gente não tinha banda.

Nesta semana, explodiu um debate sobre o TikTok e a pressão de gravadoras para artistas já consagrados, como Halsey e Florence + The Machine, pensarem em conteúdos para a rede social. E vocês vêm na contramão, já que explodiram a partir da ferramenta. Como vocês se veem nesse debate?

Karam: Quando você bota pressão na parte criativa, você está ferindo muito o artista. E bloqueando ele, de certa maneira. A criatividade tem muito mais a ver com a liberdade para pensar a partir de qualquer ideia que apareça na tua cabeça. Se você acredita naquilo, vale muito mais do que fazer uma música pensando em viral.

Mendão: A gente está perdido no meio dessa discussão, porque a gente não está em nenhum dos lados. A gente nunca pensou em fazer uma música para o TikTok, a gente nem usava o TikTok até pouco tempo atrás, então nunca tivemos essa discussão. Nem pediram nada disso pra gente, até porque estamos independentes. Acabou sendo um acaso muito bom, encaixou a música, o que a gente pensa, com o que estava acontecendo no TikTok. Dia desses vi o vídeo de uma moça especializada nisso que falava assim: “Tem pessoas que reclamam do TikTok, e tem o Jovem Dionísio”. E eu pensei “cara, será que ela sabe que não fazíamos ideia de nada disso?”.

Jovem Dionísio

Em pé: Ber Hey, Pasquali e Karam; sentados: Mendão e Fufa

Divulgação

Enquanto surfam o hit, qual tem sido o pensamento sobre o futuro da carreira, a longevidade?

Pasquali: Esse ano estamos muito focados em shows. Acontecendo o que aconteceu com o TikTok ou não, a gente estaria pensando no que faremos na tour do disco, sabe? Ia ser o mesmo caminho. A diferença é que agora temos o cenário diferente, a gente sabe que vai rolar mais show, mais público… Mais trabalho pela frente. Mas não vamos mudar nada porque pegamos o top 1. A gente não virou um pro outro e falou “beleza, agora vamos pensar na próxima Acorda, Pedrinho para voltar ao top 1”. É legal ver número até a página 2, mas maneira mesmo é a página 3, que é ver como isso se reverte no show.

Então, quais são os planos para a turnê, especificamente?

Pasquali: A situação do momento é que tem muita gente querendo show nosso, e a gente está querendo fazer muitos shows. Então, isso é bom. Nossa preocupação é como fazer o show mais divertido possível. A gente sabe que tem artistas com números, público, grana, que chega no palco, na hora do vamos ver, e não dá certo. Porque é difícil pra cacete. Mas somos uma banda que veio de show para depois ir ao estúdio, então nascemos com isso. O foco sempre vai ser os shows.

Bate-bola com Jovem Dionísio

Caetano Veloso ou Gilberto Gil?

Ber Hey: Gilberto Gil, com todo respeito ao Caetano Veloso.

Curitiba realmente está sempre mais fria do que o resto do Brasil?

Todos: Sim!

Karam: A gente fez essa comparação hoje. No RIo, estava frio, sim. Em São Paulo também, bastante. Mas em Curitiba estava mais.

Pastel ou coxinha?

Todos: Pastel.

Estão conseguindo ver Pantanal?

Pasquali: Pior que não. A Fátima Bernardes perguntou isso ontem pra gente.

Cristiano Ronaldo ou Messi?

Mendão: Messi.

TikTok ou Instagram?

Pasquali: Instagram porque já somos meio velhos.

Billie Eilish ou Olivia Rodrigo?

Todos: Billie Eilish.

Rock in Rio ou Lollapalooza?

Pasquali: O Rock in Rio tem mais história, né, cara, é o maior festival da história.

Fufa: Eu sei de mais história do Rock in Rio do que do Lollapalooza, o primeiro foi logo depois da ditadura, uma galera foi…

Karam: Mas que fique claro que, podendo escolher as duas opções, a gente escolhe as duas.

Sinuca ou pingue-pongue?

Todos: Sinuca.

Karam: Fácil. Sinuca catimbada e violenta.

Beatles ou Rolling Stones?

Todos: Beatles.

Harry Potter ou Senhor dos Anéis?

Maioria: Harry Potter.

E-book ou livro físico?

Fufa: Livro físico, mas audiobook é muito legal.

Praia ou serra?

Todos: Praia.

Coca-cola ou Pepsi?

Maioria: A mais gelada.

Hit viral ou orgânico?

Todos: Orgânico.

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QUEM FEZ
Luccas Oliveira

Luccas Oliveira

Luccas Oliveira é editor de música na Tangerina e assina a coluna Na Grade, um guia sobre os principais shows e festivais que acontecem pelo país. Ex-jornal O Globo, fuçador do rock ao sertanejo e pai de gatos, trocou o Rio por São Paulo para curtir o fervo da noite paulistana.

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