O LADO FRUTA DA FORÇA

Montagem com Robert Pattinson e o símbolo do Batman

Fotos: Divulgação. Montagem: Tangerina

O Lado Fruta da Força

E se Gotham City fosse mais “alegre” no novo Batman?

Novo filme, estrelado por Robert Pattinson, segue “tradição” de deixar personagens LGBTQIA+ só nas entrelinhas

Christian Gonzatti

Christian Gonzatti

Santa gayzisse, Batman! Definitivamente, não dá pra imaginar uma expressão como essa no mais recente filme do bilionário mais amado e odiado —as duas coisas ao mesmo tempo, isso mesmo— das adaptações da  DC nos cinemas. 

Ah, pode ir lendo sem medo se você ainda não assistiu ao filme. Quando eu for citar algum spoiler, eu aviso, mas garanto que não vou falar de nada que atrapalhe as surpresas com a nova história. 

Se você não tem familiaridade com a expressão que abriu o texto, deixa eu te ajudar. Ela pertence a série  do Batman da década de 1960 e era o jargão do Robin. Adam West dava vida ao Homem-Morcego e Burt Ward ao “garoto prodígio”. Ele acrescentava o “Santa” em várias das suas frases.

Uma curiosidade meio inútil, mas não tão inútil assim, é que o ator que dava vida ao parceiro de Bruce Wayne foi criticado por religiosos conservadores por ter muito “volume” na cueca do uniforme e considerou fazer uma cirurgia para diminuir a “neca”. Uma aula de “aquendar” com a Pabllo Vittar seria o suficiente hoje.

A produção que foi exibida de 1966 a 1968 na ABC é a adaptação mais “alegre” já feita do super-herói. “Alegre”, na verdade, é o código que eu encontrei para o termo camp. Fiz isso pra você não sair correndo desse texto por ficar com medo que ela seja acadêmico demais. Foi um ato de “criptogayzisse”. 

Mas vamos lá: o que, afinal, é camp? Camp é uma expressão estética que remete ao que é exagerado, teatral, artificial e até mesmo cafona.

Sabe quando o gay é representado como uma “bicha afeminada”? Isso é camp. A drag queen, na maioria das vezes, também é camp. O camp é a “Santa gayzisse!”.

É uma palavra lindona, né? Eu sou viciado em categorizar as coisas como “camp” desde que eu aprendi o que era. Pra saber mais sobre o tema, vale buscar o famoso texto da Susan Sontag, Notas Sobre o Camp. 

O seriado do Batman ser tão camp irritou muita gente, incluindo fãs. Não foi só com a internet que surgiu o nerd que ataca aquilo que foge do que ele espera. Eles já estão aí há muito tempo. O livro A Cruzada Mascarada: Batman e o Nascimento da Cultura Nerd, de Glen Weldon, é uma baita aula sobre esse assunto. 

Antes disso, inclusive, Batman e Robin já tinham sido perseguidos por “fiscais moralistas” incomodados com um suposto subtexto gay que haveria nas suas histórias em quadrinhos e influenciaria as crianças a serem homossexuais (alô, Crivella!).

Robert Pattinson e Zoe Kravitz como Batman e Mulher-Gato em cena de Batman (2022)

Trailer do filme Batman (2022)

Ainda inexperiente, Batman de Pattinson conta com a ajuda da Mulher-Gato de Zoë Kravitz

Essa interpretação foi denunciada por Fredric Wertham, em 1954, no livro A Sedução dos Inocentes. Embora  o estudo de Wertham tenha sido uma farsa, ele levou a criação do Comics Code Authority, código de censura de HQs, fez com que famílias queimassem os gibis de seus filhos e reestruturou várias abordagens de personagens históricos da cultura pop.

As histórias do seriado eram, inclusive, também uma tentativa de fazer uma versão do Batman mais divertida, para a família, “menos gay”. Eu conto ou vocês contam? 

Bom, depois disso há uma longa trajetória do Batman na cultura pop. Incluindo, os polêmicos uniformes com mamilos nas adaptações de Joel Schumacher lançadas na década de 1990. Batman e Robin, de 1997, cabe destacar, parece uma parada LGBTQIA+.

Tem uma Hera Venenosa que é quase uma drag queen, um Robin “boy magia” que ajudou muitos meninos (eu incluso) a perceberem que eram gays, uma “princesa” congelada, uma “patricinha de Beverly Hills” interpretando a Batgirl. Mas sim, o filme é considerado péssimo pela maioria dos fãs e da crítica, eu entendo, e tá tudo bem, não é sobre isso. 

O fracasso dessas adaptações contribuiu para que a cultura pop se fechasse para a possibilidade de inserir mais “cores” na estética de Gotham City. Ou entregasse caracterizações de personagens, principalmente os vilões, mais exageradas, mais “camp”. Parece existir uma compreensão de que, para que um filme seja sombrio, sério, imponente, ele precisa construir uma identidade realista que apaga qualquer signo “alegre”.

É óbvio que eu não esperava que Mat Reeves entregasse algo como o que foi feito com Jim Carrey. Inclusive, é muito importante dizer isso: eu gostei muito do novo Batman. É um filme político, que responde a algumas críticas feitas à fortuna de Bruce Wayne de maneira muito inteligente, e com um fundo social que me agradou demais. Eu também não acho que o Bruce Wayne deva ser criticado por não sorrir no filme (risos). 

Como já expliquei, não é sobre isso o “alegre” do qual eu falo. 

O filme me surpreendeu. Eu só gostaria de ver, também, uma abordagem nos cinemas que fosse sombria, violenta, séria e, ao mesmo tempo, mostrasse um lado mais camp. Na verdade, essa adaptação já existe em outras mídias, como nos games. A trilogia Batman: Arkham apresenta uma Gotham City na qual não é muito difícil imaginar a existência de personagens mais exagerados, como Hera Venenosa.

CONTÉM SPOILERS! CUIDADO PARA NÃO AZEDAR O SEU DIA!

Três versões do vilão Charada, inimigo do Batman

Adaptações do Charada no seriado de 1960, em Batman Eternamente, de 1995, e no mais recente, Batman, de 2022

Fotos: Divulgação

E há um pouco dessa pegada no novo Batman, na cena no Arkham, em que o Charada aparece sem o uniforme de “serial killer”. Uma das minhas preferidas do filme.

De maneira geral, há uma mensagem sobre gênero em muitas histórias do Batman. Ele é visto como um símbolo de masculinidade para muitos fãs homens, e os vilões são representados como desviados dos padrões considerados mais adequados do que é ser masculino. O que também remete ao estereótipo histórico do “vilão afeminado”. 

Robert Pattinson incorpora uma masculinidade que não lembra, em nem um fio de cabelo, o vampiro que brilha no sol, Edward Cullen. E quer algo mais camp que um vampiro que tem a pele transformada em glitter? Talvez só  Lestat e Louis em Entrevista com o Vampiro. 

E só para lembrar que, como disse o Rob em entrevista, não é mais legal falar mal de Crepúsculo, viu? 

Foi pelo papel do ator na Saga Crepúsculo que, inicialmente, muitas reações odiosas sobre a escolha dele para interpretar o Batman surgiram nas redes sociais. No entanto, não vou ficar surpreso se grupos que costumam atacar qualquer leitura política ou sobre diversidade na internet passarem a se identificar com essa versão do personagem. O Batman masculino, viril, forte, está no filme e isso vai agradar a rede de fãs que riam de Crepúsculo e debochavam do ator.  

O único apagamento da Gotham City de Batman que realmente me incomodou —e não é uma reflexão, foi, ao meu olhar, problemático mesmo— envolve Selina Kyle. Zoë Kravitz está ótima como a personagem. Ela contou antes da estreia do filme que interpretou a Mulher-Gato pensando nela como bissexual.O que já está dado nos quadrinhos.

No entanto, a sua relação supostamente romântica com a colega de quarto, Anika, fica apenas nas entrelinhas. Uma baita oportunidade perdida! Mas nós, LGBTQIA+s, já nos acostumamos a viver nas entrelinhas. 

E são muitas entrelinhas em Batman. Uma das mais importantes que eu notei foram as críticas aos fóruns masculinistas da internet e aos atentados com armas.

Resta aguardar se teremos uma Gotham City mais sombria, realista e, ao mesmo tempo, “alegre” em futuras adaptações audiovisuais para o cinema  do Homem-Morcego. Há muitas possibilidades abertas de termos diferentes versões dos personagens, com a proposta da DC de criar filmes que não estão conectados no mesmo universo.

Eu amaria, por exemplo, ver uma versão mais velha da Selina Kyle da Michelle Pfeiffer, já que teremos o retorno do Michael Keaton. Afinal, o universo imaginado por Tim Burton para Batman traz diversos elementos camp, mas sem deixar de lado o sombrio. A Mulher-Gato com seu chicote, roupa de couro e frases de efeito foi eternizada por essa versão. E nunca entendi porque amava tanto essa personagem na infância, mas aí cresci e me dei conta do motivo: era meu lado “alegre” se manifestando.

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Christian Gonzatti

Christian Gonzatti

Christian Gonzatti assina na Tangerina a coluna O Lado Fruta da Força, que fala do universo nerd com um olhar bem colorido. Ele preferia ser Mestre Jedi ou o Doutor Estranho, mas a vida só permitiu ser mestre e doutor em comunicação. LGBTQIA+, é criador da plataforma Diversidade Nerd nas redes. Um dos seus maiores sonhos é ser um X-Men e frequentar uma escola para mutantes em que a Lady Gaga seja a diretora.

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