Afinal, é aceitável que conteúdo adulto romantize abuso? - Tangerina

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365 Dias

Divulgação/Netflix

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Afinal, por que está tudo bem conteúdo adulto romantizar abuso?

A literatura e o audiovisual sofrem com a produção de conteúdos que não se importam em banalizar abuso. Por que isso ainda é aceitável?

Beatriz Duranzi
Beatriz Duranzi

Histórias sempre foram baseadas em algum aspecto real da vida. É por isso que gostamos de escutá-las, de nos identificarmos por termos vivido algo parecido ou simplesmente de nos imaginar naquela situação. Mesmo aquelas inventadas sempre têm algum fundo de verdade. No audiovisual, na literatura, as histórias (até as fictícias) têm o compromisso de mostrar algo da vida real, não é mesmo?

Esse pensamento levou a uma discussão generalizada no Twitter nas últimas semanas. Tudo começou com um vídeo no TikTok em que um perfil comentava uma passagem do livro Todas as Suas (Im)Perfeições, escrito por Colleen Hoover, em que a personagem principal Quinn descobria que seu marido Graham havia sido infiel.

O que iniciou a polêmica foi a pergunta feita pelo usuário que publicou o vídeo: “Você perdoaria o Graham?”. A questão pode parecer absurda e toda a confusão em cima dela sem sentido, mas não se preocupe, tudo vai se encaixar! 

Não é a primeira vez que Colleen Hoover é alvo de críticas. Uma de suas obras de maior sucesso, É Assim que Acaba, trata de violência doméstica em uma história complexa em que, no final, o abusador não sofre nenhum tipo de punição e chega a ser “perdoado” pela mocinha.

365 Dias, de Blanka Lipinska, também voltou a dar o que falar após o lançamento do segundo filme, 365 Dias: Hoje (2022), na Netflix. Na trama, Laura (Anna-Maria Sieklucka) é sequestrada pelo chefão da máfia Massimo (Michele Morrone) e mantida em cárcere durante um ano inteiro até que se apaixone por ele. Eventualmente, a moça de fato acaba caindo de amores por seu sequestrador. Uma história digna daquelas fanfics que líamos em 2013. 

O público-alvo desse tipo de filme são mulheres na faixa dos 20 a 40 anos; ou seja, algumas delas eram meninas na faixa dos 11 quando começaram a consumir esse tipo de conteúdo. As fanfics nunca tiveram compromisso com a realidade, e tudo podia acontecer naquelas histórias. Harry Styles poderia ser um mafioso; Justin Bieber, um traficante; e a mocinha era constantemente humilhada por eles. Tudo isso era apresentado como uma meta de relacionamento para meninas de 12 anos! 

Mas o que isso tem a ver com os dias atuais e a polêmica envolvendo Colleen Hoover? Todas as suas (Im)Perfeições é uma história sobre um casal que está passando por um momento complicado da relação por não conseguir ter filhos. O livro aborda toda a questão da infertilidade e como isso pode afetar um casamento. Como dito anteriormente, a protagonista descobre que seu marido estava sendo infiel, mas isso é perdoado e a história segue normalmente. Foi aí que surgiu o questionamento levantado pelo usuário do TikTok: você perdoaria o Graham?

“Livros não têm nenhum dever moral, não precisam retratar o mundo como ele deve ser, ou como você quer que seja”, escreveu uma conta do Twitter. Olhando pelo lado prático da coisa, faz sentido. Afinal, um livro escrito por adultos para adultos pode contar uma história complexa, que não deve ser replicada na vida real. Mas não é bem assim que funciona. 

Se no início dos anos 2010 meninas já tinham acesso a leituras adultas, hoje não seria diferente. Novembro 9 –também de Colleen Hoover– conta a história de Fallon, uma menina insegura que ficou com um lado do rosto desfigurado após um incêndio. Tudo corre muito bem no livro, a mocinha aos poucos se sente mais segura, sua relação com Ben também vai muito bem, até que descobrimos que foi ele quem colocou fogo na casa dela. Já pode imaginar o que acontece no final, né? Felizes para sempre! 

É importante que os jovens de hoje (que estão começando a entender o que é se apaixonar) aprendam que, se alguém coloca fogo na sua casa, essa pessoa não é um partidão. Esses tipos de relacionamentos considerados abusivos são retratados mais e mais em livros, filmes e séries. Claro que a classificação indicativa existe como uma forma de controle, mas desde a criação do audiovisual sabemos que ela não é seguida à risca. 

Então surge a questão: tudo bem retratar relacionamentos abusivos, comportamento tóxico e romantizar crimes só pela classificação +18? Esse é um assunto que poderia ser discutido durante horas, dias, semanas… E ninguém chegaria a uma conclusão de fato. 

Colleen Hoover é uma autora conhecida por escrever histórias “problemáticas”. Seus livros são trágicos, cheios de assuntos sérios e diversos tipos de abuso. Por isso, não são recomendados para todos os públicos. É importante consumir livros e filmes adultos com responsabilidade. E a abordagem de assuntos tão importantes e atuais deve ser feita com o máximo de cautela possível.

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Beatriz Duranzi

Beatriz Duranzi

Estudante de jornalismo na Anhembi Morumbi, Beatriz é estagiária na Tangerina. Apaixonada pelo mundo do entretenimento, ela é especialista em cuidar da vida alheia nas redes sociais.

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