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Medida Provisória

Divulgação/Na Lata Filmes

Crítica

Medida Provisória: Por que filme de Lázaro Ramos irrita bolsonaristas?

O longa, que se passa em um futuro distópico, teve problemas com órgãos do governo e sofreu ataques de apoiadores do presidente

Yasmine Evaristo

Yasmine Evaristo

Estreia no dia 14 de abril, nos cinemas brasileiros, o longa-metragem Medida Provisória, dirigido pelo ator global Lázaro Ramos e baseado na peça Namíbia, Não, de Aldri Anunciação. Sua história é ambientada em um futuro distópico na sociedade brasileira. Nele, o governo promulga uma lei que obriga pessoas com muita melanina a voltarem para a África como uma espécie de “reparação” pelos anos de escravidão.

A produção passou por inúmeros problemas que atrasaram seu lançamento no circuito nacional desde 2020. A Agência Nacional de Cinema (Ancine) alegou que os atrasos de mais de um ano na liberação do longa estavam relacionados à demora no cumprimento de prazos e protocolos pela produção. Posteriormente, a assessoria do filme, postou em suas redes sociais relatos de que a tramitação burocrática estava em dia, mas a Ancine por sua vez não deliberava o lançamento. Assim, ficou subentendido que dependia realmente da resolução do órgão público. Por conta da demora, a agência foi diversas vezes acusada de censura velada ao filme.

Como consequência, toda a espera gerou burburinho e expectativas, bem como ataques e negativas ao seu lançamento. Assistimos ao filme e selecionamos alguns motivos pelos quais a produção tem irritado algumas pessoas.

Lacração

Medida Provisória

O cantor Emicida também está no elenco do filme

Reprodução

Bem antes de sua estreia, Medida Provisória já vinha sendo boicotado pelos bolsonaristas por, segundo os mesmos, ser uma obra feita apenas com o “intuito de lacrar.” Além disso, pessoas ligadas ao governo como o ex-presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, afirmaram em suas redes sociais que o longa difama Bolsonaro.

Entretanto, o filme é baseado em uma peça escrita em 2011, teve sua concepção como filme logo em seguida no ano de 2012 e, foi escrito e filmado em 2015 e 2019, respectivamente. Ou seja, muito antes do atual mandato presidencial.

Ademais, a narrativa ambientada num futuro distópico, da margem para que as críticas feitas se encaixem em inúmeros momentos do dia a dia do Brasil. Tanto é que percebemos o quanto vários momentos da história racista brasileira estão representados em posturas e diálogos ao longo de todo o filme.

Somos todos um só povo

Medida Provisória

A atuação de Seu Jorge prova seus múltiplos talentos

Reprodução

Talvez “Somos todos iguais” seja a frase mais repetida pela população brasileira, sobretudo ao ser indagada sobre seus preconceitos. Crescemos em meio a uma democracia racial que nos leva a acreditar que com o fim da escravização as discriminações acabaram e passamos a residir em um país adorável e acolhedor para todos. Só que na realidade a situação é outra.

Desse modo, o filme de Lázaro mostra que o autointitulado cidadão de bem brasileiro se sente ofendido ao ser questionado sobre os anos de racismo existente no país. Assim, para eles a solução é “ofertar” às pessoas negras um retorno às suas origens. Um retorno a fim de promover reparação histórica, mas que no fundo segue a mesma lógica da captura de negros africanos para a escravização mercantil durante o período colonial: violência e deslocamento compulsório para uma terra desconhecida.

Mas, já deixamos aqui o spoiler de que os mesmos brancos que criaram tais leis não se voluntariam para ir embora. Não há no filme quem esteja disposto a voltar para suas “origens europeias” devolvendo assim o Brasil, para os indígenas. Provando que, somos todos iguais, mas uns sempre serão mais iguais que os outros.

Um retrato cotidiano

Provavelmente o que mais assombra em Medida Provisória são as semelhanças dos personagens com pessoas e ações da vida real o que transforma a distopia em possível. Por exemplo, a semelhança dos discursos políticos veiculados nas mídias onde representantes do povo no executivo bradam como em seus palanques suas decisões pessoais (por minha mãe/pai/filhos/Deus), também são retratados no filme. Da mesma forma, isso fica claro nos diálogos com a vizinha do casal Capitu (Taís Araújo) e Antônio (Alfred Enoch) que tenta disfarçar sua intolerância em meio a sorrisos e piadas.

As situações propostas pelo roteiro são tão prováveis que, outro dia, ali no fim do século 18, a American Colonization Society deu todo apoio financeiro e auxílio na fundação da Libéria. A premissa era a de que ex-escravizados estadunidenses teriam maior liberdade para construir uma nação só sua, ao invés de continuarem nos EUA. Portanto, a razão pela qual o longa incomodou e ainda desagrada tanta gente é o fato de escancarar de modo cru e direto o racismo no Brasil e a forma como ele é enraizado e institucionalizado em todos os âmbitos de nossa sociedade. Um filme imprescindível e necessário.

Leva que tá doce: Medida Provisória coloca em prática o famoso “Não entendeu? Então vou desenhar.” Ao longo do filme vemos o racismo explícito em formas que podem até surpreender as pessoas. Principalmente as que acreditam não serem afetadas ou não serem reprodutoras deste tipo de preconceito.

Dois pelo preço de um: O cinema brasileiro já vem discutindo aspectos da questão racial em filmes feitos por e com pessoas negras. Um deles é M8 – Quando a Morte Socorre a Vida, de Jeferson De. O filme parte de pontos da vida real para construir uma ficção que discute a vivência do racismo cotidiano. Disponível na Netflix.

Presta atenção, freguesia: Mais uma vez Seu Jorge mostra seus múltiplos talentos. O ator e cantor protagoniza tanto cenas divertidas quanto emocionantes se destacando em cena.

Medida Provisória

Medida Provisória

Medida Provisória

Medida Provisória

Drama
14
Direção
Lázaro Ramos
Produção
Lereby Produções, Lata Filmes
Onde assistir
Nos Cinemas
Elenco
Alfred Enoch
Taís Araújo
Seu Jorge
Adriana Esteves
Renata Sorrah
Mariana Xavier
Emicida
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QUEM FEZ
Yasmine Evaristo

Yasmine Evaristo

Yasmine Evaristo é crítica de cinema associada à Abraccine e pesquisa o gênero fantástico e representação e representatividade de pessoas negras no cinema. Devota da santíssima trindade Tarkovski-Kubrick-Lynch, também é artista visual, desenhista e cursa graduação em letras.

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