MÚSICA

Foto do palco Budweiser no Lollapalooza Brasil 2022

Divulgação/Lollapalooza

Lollapalooza 2022

‘Show de horror’: Como foi o Lollapalooza para as PcDs

Denúncias nas redes sociais e à Tangerina mostram que a experiência do festival foi dramática para pessoas com deficiência

Nicolle Cabral

Nicolle Cabral

O retorno do Lollapalooza Brasil ao Autódromo de Interlagos não foi fácil. Após dois anos sem abrigar o grande evento de música —produzido pela Time For Fun—, a edição de 2022 contou com uma série de empecilhos ao longo dos três dias de festival. Além da morte trágica do baterista Taylor Hawkins, do Foo Fighters, headliner da última noite, o evento sofreu com uma rápida e forte tempestade, que resultou no ferimento de uma pessoa, e a ameaça de raios constante. Com uma contenção de danos a cada cinco minutos, o Lollapalooza precisará rever uma série de questões antes de pensar em abrir os portões do Autódromo mais uma vez. Especialmente no assunto acessibilidade.

No domingo, 27, uma parte das PcDs (pessoas com deficiência) foi às redes sociais para se queixar da dificuldade de se locomover entre os espaços do festival. A humorista Pequena Lô (Lorrane Silva) engrossou o coro dessas reclamações, após postar uma série de stories sobre uma situação desconfortável que ocorreu com ela.

Segundo a influenciadora, ela precisou ser carregada por funcionários do evento para chegar ao palco Perry’s By Doritos, porque a organização não instalou rampas de acesso e o elevador não estava funcionando. “Quase não quiseram deixar eu subir pela escada”, escreveu na publicação.

Pequena Lô faz denúncias ao festival Lollapalooza após críticas de falta de acessibilidade

Publicação da Pequena Lô no Instagram

Reprodução/Instagram/Pequena Lo

Além dela, a youtuber Lorena Eltz também foi às redes para contar a experiência que viveu no festival. Ela teve sua bolsa de ileostomia rompida por conta do esforço para subir os morros do Autódromo. A influenciadora conta que não havia nenhum banheiro por perto, quando a bolsa vazou. “Achei que a estrutura de um evento tão grande deixou a desejar”, escreveu em um dos stories.

Os relatos das duas influenciadoras, contudo, não foram os únicos. Maria Vitória Mendes Felix Costa, de 24 anos, relembra o “show de horror” que viveu no Autódromo de Interlagos. A médica veterinária já tinha ido ao festival em 2016 e 2017, quando ainda não tinha problemas de locomoção. Desde aquela época, ela já havia percebido a falta de comprometimento ao oferecer acessibilidade para PcD.

Em entrevista à Tangerina, Maria detalha como se sentiu antes e durante a permanência no evento, que movimenta cerca de R$ 100 milhões na economia de São Paulo. “Comprei os ingressos no início de 2020, quando eu ainda não tinha nenhum problema de locomoção. Por isso, não peguei a opção de PcD. Quando passei a ser, eu pensei em vender o meu ingresso, porque, né, impossível [ir]”.

A vontade de comparecer ao festival, contudo, foi abraçada pelos direcionamentos disponibilizados pelo site e redes sociais do Lollapalooza. Eles dedicam uma parte da comunicação à acessibilidade.

As redes sociais e o site do festival prometiam ótimos acessos ao público PcD

Nos canais oficiais do festival, foram feitas publicações com indicativos de uma edição mais "acessível" para todes

Reprodução/Twitter/Lollapalooza

“Quando olhei no site, pensei: ‘nossa, tudo lindo! Cadeiras de rodas, portão específico com suporte, triciclos motorizados, plataforma elevada para assistir aos shows’. Fiquei bem segura e desisti de vender. Mas foi aí que começou a minha saga”, relembra Maria.

Segundo ela, a organização do Lollapalooza não respondia a nenhuma das mensagens enviadas por ela —e-mail, tuítes e mensagens diretas no Instagram. “Mas, como eu tinha laudo médico, resolvi ir mesmo assim, porque eles não iam negar. E não negaram mesmo. Mas conseguir um transporte adequado lá, foi terrível”.

A veterinária conta que, ao chegar ao portão 7 (indicado como o de acessibilidade), perguntou para um responsável da portaria como seria realizada a entrada dela. A resposta foi de que “não está tendo isso [acessibilidade]”, e que a entrada poderia ser feita em qualquer portão.

O resultado foi uma caminhada de mais de 1 km no sol ardente: “Isso agrava a minha condição, porque tenho problemas cardíacos e não estou conseguindo regular bem a minha temperatura e a pressão arterial”, explica. Segundo ela, no meio do caminho até o espaço oficial do evento, “estava muito fraca, tonta, tremendo. Com as minhas mãos vermelhas, pernas travando e sem coordenação. Fui apoiada na grade e meio pendurada no meu amigo. Foi quando finalmente chegamos na parte de entrar”.

Maria Mendes no festival Lollapalooza como PCD

A lição que fica para o festival é repensar toda a estrutura para o público geral e para PcDs

Tangerina

Mas os problemas não pararam ali. Maria perguntou para uma funcionária da organização como ela deveria proceder, visto que ela precisaria de um transporte móvel para se locomover no festival. “Fui até ao balcão de informações e ninguém sabia onde e nem com quem eu precisava falar para conseguir uma cadeira de rodas para me levar até o stand do triciclo. Foi quando me pediram para falar com um bombeiro, que estava ao lado”.

Espalhada pelo festival, a equipe de bombeiros foi a única que soube responder onde Maria poderia pegar o transporte móvel. “Foi aí que veio o plot twist: ‘Não tinha cadeira lá e ele não podia deixar o posto, pois em caso de alguma emergência, ele estava sem rádio e não poderia chamar alguém para cobrir”.

Além da falta de equipamentos de transporte, a veterinária também achou um absurdo o despreparo da equipe do festival. “Todos foram muito gentis, mas era muito óbvio que no treinamento [do festival], ninguém recebeu instruções de como lidar com PcDs”, ressalta.

Isto tudo rolou ainda antes de Maria chegar à área habitável do festival. “Cheguei às 13h30, só conseguiram pegar a cadeira [de rodas] duas horas depois, enquanto eu fiquei sentada no chão”. Ela relata ter sido carregada por quatro bombeiros, por conta da descida íngreme e do asfalto liso. “Tinha muito risco da cadeira escorregar ou não frear”.

Quando ela, enfim, entrou no festival, conseguiram um triciclo para ela. “Me ensinaram a mexer em tudo, mas aconselharam a não andar muito na grama, porque ele poderia atolar”. Porém, a área reservada elevada para as PcDs assistirem aos shows estava localizada no meio da grama e do lamaçal. “PcDs pagam caro nesse ingresso para obrigatoriamente ver o show de longe?”, indaga.

Capacitismo: Palco de acessibilidade no Lollapalooza 2022

Área reservada para acessibilidade no palco Onix

Tangerina

Maria, contudo, faz uma ressalva positiva sobre o espaço ter banheiros próprios. “Dei graças a Deus, porque, né. Não tem como PcD usar banheiro químico”. Porém, o alívio não durou muito tempo. “Não tinha fiscalização na porta dos banheiros, então qualquer um entrava. Quando pedi para o meu acompanhante ver a situação, nem ele, homem, 100% saudável, disse que conseguiria usar aquele banheiro”. Para ela, é um absurdo pagar R$ 500 reais em um dia de evento “que não tem nem banheiro”.

A veterinária também comentou sobre a falta de acessibilidade nos banheiros com outra amiga PcD: “ela não teve coragem de usar, porque quando apertou as barras de apoio, não sentiu confiança”. Horror e desrespeito!”. O valor do ingresso, segundo ela, no final, rendeu apenas para dois shows.

“Não dava para transitar. Mesmo os triciclos sendo ótimos, eles não tinham potência o suficiente para fazer as subidas íngremes do festival. Muitas vezes eu rolei para trás, e nem o freio segurava. A sorte foi estar com o meu amigo, que ele ia atrás e me dava impulso”. Maria também pontuou que todos os recursos de acessibilidade possuíam limite de peso. “Se eu tivesse o mesmo peso de antes, teria me ferrado. PcDs gordas ficam fora do evento”.

E o que o Lollapalooza pensa disso?

Procurada pela Tangerina, a assessoria de imprensa do Lollapalooza Brasil mandou a seguinte nota:

“O Lollapalooza Brasil tem como compromisso realizar um evento inclusivo, em que todos são bem-vindos. A cada ano, o festival aprimora a sua estrutura e pensa em melhorias para que todos tenham uma boa experiência dentro do Autódromo de Interlagos. Neste ano, o LollaBR teve acesso em portão dedicado para pessoas com deficiência, carrinhos de golfe para levar até a área do festival, plataformas elevadas para assistir aos shows e equipamentos motorizados para facilitar a locomoção pelo espaço, assim como profissionais intérpretes de LIBRAS e aparelhos de audiodescrição. Todos os serviços serão avaliados e aperfeiçoados para as próximas edições”.

Debate aberto sobre acessibilidade

Após ter se posicionado sobre a falta de acesso para as PcDs, Pequena Lô chegou a ser criticada por alguns usuários no Twitter. Com isso, a influenciadora rebateu às críticas e apontou que as experiências vividas por ela e outras pessoas, “sirvam também de exemplo pra todos os outros eventos, pra que a gente consiga divertir como todos que estão ali”.

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Antes de ser repórter da Tangerina, Nicolle Cabral passou por Rolling Stone, Revista Noize e Monkeybuzz. Nas horas vagas, banca a masterchef para os amigos, testa maquiagens e cantarola hits do TikTok.

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